Morre Mircea Lucescu, lenda do Shakhtar, ‘pai’ de brasileiros e um papa-títulos histórico
Treinador romeno passava por problemas de saúde e, aos 80 anos, deixou o futebol como lenda
Morreu nesta terça-feira (7) Mircea Lucescu, um dos grandes treinadores da história do futebol mundial, aos 80 anos. Poucos dias depois de dirigir a seleção da Romênia na repescagem para a Copa do Mundo, em que perdeu a vaga no Mundial para a Turquia.
Lucescu enfrentava graves problemas de saúde e faleceu no Hospital Universitário de Bucareste. Ele foi internado no último dia 29, depois de desmaiar em campo durante uma sessão de treinamento.
Ex-jogador e treinador, deixou um legado gigante no futebol romeno, ucraniano e até mesmo brasileiro. Lucescu “apadrinhou” diversos jovens brasileiros que levou ao Shakhtar Donetsk durante seus 12 anos no comando do clube. Ele é o terceiro treinador com mais títulos na história (38).
Ídolo do Shakhtar e a ligação de Lucescu com brasileiros
Lucescu estava prestes a completar 50 anos de carreira. Destes, 12 foram à frente do Shakhtar Donetsk, clube onde é considerado o principal ídolo. E seu impacto foi além dos títulos.
Em uma passagem de 2003 a 2016, foram oito títulos do campeonato ucraniano, sete Supercopas da Ucrânia e seis Copas da Ucrânia, além de um título da Europa League em 2009.
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Mais do que troféus conquistados, o romeno foi pivô de uma transformação mercadológica no Shakhtar e, por tabela, em todo o futebol ucraniano: abriu as portas aos jogadores brasileiros. E sua proximidade era tanta que vários dos seus atletas mais utilizados são brasileiros:
- Dos cinco jogadores que Lucescu mais usou, Fernandinho e Jadson ocupam as 4ª e 5ª posições;
- No top-10, Luiz Adriano (8º) e Alex Teixeira (10º) estão na lista;
- Willian (11º) e Douglas Costa (13º) são outros que têm mais de 200 jogos com o treinador;
- Ilsinho, Brandão, Eduardo, Taison e Matuzalém têm mais de 100 jogos;
- Outros nomes relevantes, como Bernard, Fred, Ronaldo Guiaro, Marlos, Elano, Antônio Carlos Zago e Dentinho chegam perto dos 100 jogos com Lucescu.
A relação do treinador com o Brasil vai além: romeno e português são línguas parecidas e, por conta disso, já afirmou, ainda em 2011, estar estudando “brasileiro”. Antes disso, como jogador, também tem histórias curiosas.
Em 1970, capitaneou a seleção romena na Copa do Mundo do México. Na ocasião, trocou de camisa com Pelé e imediatamente enquadrou — suja como recebeu.
“Ainda a tenho, suja de terra, nunca a lavei. Está emoldurada em um museu”, disse o veterano em entrevista ao jornal italiano “La Gazzetta Dello Sport”.
Ainda como jogador, já teve experiências em solo brasileiro. Antes da Copa, em 1968, marcou gol na inauguração do estádio do Botafogo de Ribeirão Preto. Durante o amistoso com a seleção brasileira, que terminou com vitória dos mandantes por 6 a 2, Lucescu marcou um dos gols romenos.
Mircea Lucescu leaves Shakhtar.
Eight Ukrainian Premier League titles. 🏆
Six Ukrainian Cups. 🏆
One #UEL crown. 🏆 pic.twitter.com/KBJyM81DiL— UEFA Europa League (@EuropaLeague) May 21, 2016
Depois, em 1977, chegou a jogar no Maracanã e quase foi parar no Fluminense, não fosse um desastre natural no seu país natal:
“Fui o melhor jogador em um quadrangular no Maracanã entre Romênia, Flamengo, Vasco e Independiente. Me convidaram para jogar no Fluminense, mas em 77 veio o terremoto em Bucareste e minha vida mudou.”
Experiência na Copa do Mundo com o Brasil
“Eu me apaixonei pelo Brasil porque estive lá antes da Copa do Mundo. Fizemos uma excursão em 1967 e participamos de torneio de verão no início de 1970“, disse o ex-atacante em entrevista à “Folha”, em 2020.
Lucescu, dessa vez já falando em português, não escondia a admiração pelo futebol brasileiro, que cresceu de forma exponencial depois daquela Copa. Ele também lembrou o período de tensão daquela seleção — além do que já existia pelo favoritismo, também pela ditadura militar.
“A seleção brasileira estava concentrada acompanhada por militares, havia muitos seguranças e eles não podiam ir a lugar algum. Nós éramos muito mais livres. O Mundial era uma festa para a gente. Para o Brasil, era obrigação”, disse.
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O terceiro técnico com mais títulos na história do futebol
Mais do que um treinador histórico no Shakhtar e com grande ligação com o futebol brasileiro, Lucescu teve passagem por outros gigantes. Em 1999, por exemplo, liderando a Inter de Milão, comandou Ronaldo Fenômeno em seu auge técnico, apesar de apenas por um período breve.
Seu primeiro título como treinador veio com o Corvinul Hunedoara, time romeno que já não existe mais desde 2004, quando era jogador-treinador. Venceu a segunda divisão nacional em 1979/80. Na mesma década, seria campeão da Copa da Romênia com o Dinamo, em 1986 e 1990 — ano em que conseguiu a dobradinha com o campeonato romeno.
Lucescu ainda acumulou títulos por Rapid Bukarest, Brescia, Galatasaray, Besiktas, Zenit e Dinamo de Kiev, além do Shakhtar. No Galatasary, inclusive, foi campeão nacional e continental em uma equipe estrelada com Claudio Taffarel, Jardel e Gheorghe Hagi.
Ao todo, o treinador romeno ergueu 38 taças durante sua carreira. Esse número o coloca acima de nomes históricos como Carlo Ancelotti (30), José Mourinho e Felipão (26). Na contagem, só perde para outras duas lendas: Pep Guardiola (40) e Sir Alex Ferguson (49).
Lucescu deixa o futebol como um corajoso.
Teve coragem de inovar em campo, no mercado de transferências e na forma de se colocar para o mundo. Menos de um mês antes de sua morte, deu entrevista ao jornal inglês “The Guardian”, já com a saúde fragilizada. Pediu ao repórter que não falasse sobre seus problemas e que focasse nos objetivos que tinha com a seleção romena.