Troquei de camisa com Pelé, suja de terra, nunca lavei. Está emoldurada em um museu’
Mircea Lucescu, histórico treinador romeno, detalha sua conexão de décadas com o Brasil
Mircea Lucescu é um dos grandes nomes do futebol no leste europeu. Aos 80 anos e ainda na ativa comandando a seleção da Romênia, o técnico que moldou gerações de brasileiros na Europa reflete sobre uma carreira onde o Brasil não foi apenas um adversário, mas uma escola e uma fonte de inspiração.
De capitão contra a Seleção de 1970 a mentor de craques em Donetsk, a trajetória de Lucescu se confunde com a própria exportação do talento sul-americano para o Velho Continente.
Maracanã, camisa de Pelé e parceiro de Ronaldo
A relação de Lucescu com o futebol brasileiro começou muito antes de ele se tornar um colecionador de títulos no banco de reservas. Em 1970, como capitão da Romênia na Copa do Mundo, ele viveu um momento que guarda até hoje, literalmente, sob molduras.
“Troquei de camisa com o Pelé. Ainda a tenho, suja de terra, nunca a lavei. Está emoldurada em um museu”, disse o veterano em entrevista ao jornal italiano “La Gazzetta Dello Sport”.

O impacto daquele período foi tão grande que Lucescu quase vestiu as cores de um clube brasileiro após se destacar em um torneio amistoso no Rio de Janeiro. Segundo o treinador, o convite foi real:
“Fui o melhor jogador em um quadrangular no Maracanã entre Romênia, Flamengo, Vasco e Independiente. Me convidaram para jogar no Fluminense, mas em 77 veio o terremoto em Bucareste e minha vida mudou.”
Décadas depois, já como treinador da Internazionale, Lucescu lidou com o auge técnico e o carisma de Ronaldo Fenômeno. Em uma Inter recheada de atacantes, a relação entre o mestre e o gênio era pautada por gestos simples de amizade:
“Com o Ronaldo, eu tinha uma relação excepcional. Um amigo me trazia laranjas da Sicília, eu dava algumas para ele e ele retribuía com garrafas de cerveja Brahma.”
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O projeto brasileiro de Lucescu no Shakhtar Donetsk
Se na Inter Lucescu administrou estrelas, no Shakhtar Donetsk ele construiu um império baseado na prospecção de jovens talentos brasileiros. O clube ucraniano tornou-se o principal entreposto de brasileiros na Europa, unindo a força física do leste com a técnica sul-americana.
O treinador revela que o projeto era ainda mais ambicioso do que os nomes que de fato desembarcaram na Ucrânia.
Mircea Lucescu leaves Shakhtar.
Eight Ukrainian Premier League titles. 🏆
Six Ukrainian Cups. 🏆
One #UEL crown. 🏆 pic.twitter.com/KBJyM81DiL— UEFA Europa League (@EuropaLeague) May 21, 2016
“Eu disse ao presidente que não queria estrelas, mas talentos para lapidar. Vi Neymar e Casemiro, eram ótimos, mas me disseram que não dava para contratar. Então chegaram Douglas Costa, Alex Teixeira, Fernandinho… Criamos um sistema onde o clube lucrava e já tinha o substituto pronto.”
Para o treinador, a “legião brasileira” do Shakhtar não era apenas uma estratégia de mercado, mas o motor de um time que, por pouco, não atingiu o topo do continente.
“Vencemos a Copa da Uefa (atual Europa League) e chegávamos às quartas da Champions todo ano. Se não fosse a guerra no Donbass (em 2014), talvez tivéssemos vencido a Champions League um dia. Éramos jovens, fortes e jogávamos um futebol fantástico.”



