Malditas bolinhas

O sorteio dos grupos da Eurocopa de 2012 já não é mais novidade. O evento, entretanto, repercutirá até que a bola comece a rolar em gramados poloneses e ucranianos. Até lá, a imaginação está livre para formular diversas situações hipotéticas, ora brincando com as possibilidades que a ordem diferente das bolinhas poderia desenhar, ora analisando a tabela já pronta.
Para as seleções sueca e dinamarquesa, a sorte foi ingrata. Ok, ambas escaparam de uma possível chave que todos temiam, com Espanha e Alemanha. Para sonhar ir além da fase de grupos, entretanto, tanto suecos quanto dinamarqueses precisarão de um verão inesquecível no leste europeu.
Dinamarca em situação complicada
Nem a presença do eterno ídolo Peter Schmeichel na cerimônia trouxe bons fluídos aos dinamarqueses, relegados ao último dos quatro potes que dividiam as seleções – ao lado de França, República Tcheca e Irlanda. Era possível, portanto, o sorteio determinar um clássico contra os vizinhos suecos (que ficaram no pote três) já na primeira fase.
A possibilidade de um duelo regional ficou para trás, mas certamente não há motivos para agradecimentos ao acaso: a companhia de Holanda, Alemanha e Portugal transforma numa grande zebra a presença da equipe de Morten Olsen na próxima fase.
Enfrentar os rivais de grupo não será uma novidade para os dinamarqueses. Na última Copa do Mundo, Dinamarca e Holanda se encontraram na primeira fase, com vitória tranquila dos holandeses. Já pela Euro, um embate entre as duas seleções ficou marcado entre os grandes jogos da história da competição: a vitória dinamarquesa, nos pênaltis, pela semifinal de 1992 – superando a Laranja, então atual campeã e que contava “apenas” com Van Basten, Rijkaard, Gullit, Ronald Koeman e Bergkamp. O resultado, grande surpresa, poderá servir de inspiração para o presente.
Se o confronto contra Portugal não reserva caráter histórico tão grande, uma série de partidas recentes atiçou uma mini-rivalidade entre as equipes. Tanto nas eliminatórias para o Mundial da África do Sul quanto na fase de classificação para a Euro, as bolinhas trataram de colocar a Dinamarca lado a lado da equipe de Cristiano Ronaldo. E de 2008 para cá, a vantagem é dinamarquesa: foram duas vitórias e um empate nos quatro jogos que englobam as séries citadas. Portanto, se há algum rival no grupo que os alvirrubros podem superar, é Portugal.
Diante dos alemães, um dos favoritos ao título, a coisa fica ainda mais complicada. Por mais que o bom desempenho nas eliminatórias tenham apagado um pouco o desempenho sonolento na Copa de 2010, não é fácil imaginar um time com Rommedahl e Gronkjaer superando os alemães, voando em campo. O alento é a invencibilidade desde 1996 no confronto direto. O empate num amistoso realizado em agosto do ano passado, aliás, transformou os dinamarqueses numa das raras seleções a não terem sido batidas pelos germânicos nos últimos tempos.
Suecos podem ser pedra no sapato
Para a Suécia, já citada como membro do terceiro pote, até podemos dizer que o sorteio não foi de todo desastroso: Inglaterra, França e Ucrânia. “Ora, dois campeões do mundo e uma sede foi um péssimo negócio”, certamente pensará o leitor. Os suecos avançarem de fase é bastante improvável, é verdade; mas, acredite, poderia ser pior.
Expliquemos: tanto França quanto Inglaterra passam por momentos de renovação, um processo que gera grande irregularidade nos resultados – fator que pode ser benéfico aos suecos. Um rival mais consistente (leia-se a trinca Espanha/Alemanha/Holanda), livre de altos e baixos, seria um adversário bem mais difícil aos nórdicos.
Além disso, a Suécia é uma tradicional pedra no sapato do English Team. Antes da recente vitória por 1-0 (num amistoso no dia 15 de novembro, em Londres), o último triunfo inglês diante dos vikings numa partida oficial havia acontecido em 1968. No intervalo de 43 anos entre as duas partidas, foram disputados uma dúzia de encontros entre eliminatórias, amistosos, jogos de Copa ou de Euro – foram quatro vitórias suecas e oito empates.
Contra os franceses, o tabu se inverte: a última vitória foi em 1969. Mesmo assim, os suecos podem se gabar de, nos jogos que “valiam”, terem colaborado para que a França engolisse dois grandes sapos. O primeiro deles foi no ano citado, quando a Suécia venceu sua chave nas eliminatórias e deixou os azuis de fora do Mundial do México. Quase vinte e cinco anos depois, ambas as seleções novamente dividiam um grupo; ao final da qualificação, Suécia era líder e classificada. Aos franceses, restou ver a Copa de 94 pela televisão.
Ainda resta a Ucrânia, dona da casa, recentemente derrotada pelos suecos num amistoso. Se não fosse pelo fator campo e a atmosfera positiva que sediar uma competição de tal magnitude deve exercer sobre o time ucraniano, era um confronto para a Suécia ostentar a condição de favorita. Mesmo assim, uma vitória sueca ainda é provável e pode ser de suma importância caso a equipe roube algum ponto dos outros dois adversários.
Há um bom tempo até o início da Euro e muita coisa acontecerá até lá, como seleções se acertando de última hora e as tradicionais baixas por lesão após uma temporada desgastante. Portanto, qualquer prognóstico definitivo é coisa para ser feita mais à frente. Suecos e dinamarqueses, ao menos, já têm as bolinhas para culpar.
Curtas:
– Dinamarca versus rivais de grupo – confrontos diretos:
* Alemanha (8 vitórias, 3 empates, 14 derrotas)
* Holanda (6 vitórias, 10 empates, 12 derrotas)
* Portugal (3 vitórias, 2 empates, 7 derrotas)
– Suécia versus rivais de grupo – confrontos diretos:
* França (4 vitórias, 5 empates, 8 derrotas)
* Inglaterra (6 vitórias, 9 empates, 6 derrotas)
* Ucrânia (1 vitória, 1 empate, 1 derrota)



