Liga Europa 2026/27

Liga Europa, a feia

O Atlético de Madrid atropelou um decepcionante Athletic Bilbao e conquistou a Liga Europa pela segunda vez em três anos. Apresentando uma segurança que nem de longe ousa demonstrar na liga espanhola, o clube agora soma 12 vitórias consecutivas na competição. Desempenho igualmente chamativo é o de Falcao Garcia, bicampeão e biartilheiro, tendo participado da campanha do Porto na temporada passada. O colombiano marcou dois golaços, que, se não chegam a justificar os 40 milhões de euros que os colchoneros investiram nele, explicam por que foi feita uma loucura para contratá-lo. Embora o mesmo clube já tenha feito loucuras que ninguém consegue explicar até hoje.

O outro destaque da final foi o choro desembestado dos jogadores da equipe basca que, sem dúvidas, foi a que mais valorizou essa Liga Europa. A torneirinha de lágrimas foi aberta ainda durante o jogo, com Muniain sentindo a porrada do terceiro gol do Atletico, aquele que definiria a fatura. Por mais absurdo que isso possa soar, faltou loucura a Bielsa. A equipe empolgou nas fases anteriores, com um futebol cheio de movimentação e entrega, mas ontem parecia amarrada. Seus extremos mais vigiaram Adrián e Turan do que se arriscaram. Llorente, um homem de área que teria lugar em muitos grandes clubes europeus, mal foi acionado. O Bilbao foi mais insosso que comida de hospital.

O ponto alto da campanha do Athletic foi uma vitória histórica conquistada sobre o Manchester United, no estádio de Old Trafford. Uma partida simbólica, que ajuda a entender como funcionam as coisas na Liga Europa. Os ingleses foram a campo com seus titulares, mas sem a motivação necessária para encarar um adversário que via na Liga Europa a sua própria Champions League. O United não foi desrespeitoso ou desinteressado, apenas não conseguiu abstrair do fato de que aquele não era o seu lugar. E esse é o grande problema da Liga Europa, um campeonato que muitos de seus participantes não gostariam de estar jogando e onde muitos deles querem evitar pisar na temporada seguinte.

O clube que tem condições de disputar a Champions com frequência não se entregará por completo a um torneio continental menor, por mais que encare com humildade o novo desafio. A Liga Europa é o torneio ideal para clubes que precisam construir (alô, Anzhi) ou reconstruir (alô, PSG) sua marca e para aqueles que querem quebrar um jejum longo de títulos. Para um Atletico ou um Athletic, a Liga Europa, no atual estágio, é mais abordável do que títulos domésticos, disputados contra os alienígenas Barcelona e Real Madrid.

É verdade também que os mesmos clubes teriam totais condições de disputar com o Valencia a terceira colocação do espanhol, o que garantiria vaga no eldorado da Champions.  Muitos negligenciam a Liga Europa já pensando na UCL seguinte, mas, por mais que a questão financeira pese bastante, o caminho inverso tem suas vantagens. O Athletic entendeu que a conquista de um título, ainda que de pouco quilate, seria mais interessante, no momento, do que uma vaga para ser só mais um sparring dos bambambãs do continente. Sem contar a motivação-extra e bem particular que era desfilar o orgulho separatista basco para o mundo. Por isso as lágrimas. Por isso o “descaso” com a Liga.

Acredito que todos queiram ver os grandes encarando a Liga Europa com mais fome, gerando uma subida no nível da disputa. Mas enquanto isso não acontece, o gostoso mesmo é ver um Bilbao, um Fulham, um Braga se matando para chegar à final. Com sorte, pode surgir um novo Shakhtar, que, a partir da conquista da Copa da UEFA, ganhou experiência e já é visto com mais respeito quando joga na Champions League (parte dele perdido na performance pífia desse ano, claro). Fora a alegria que pode dar a clubes que não estão acostumados a subir no topo do pódio. Pergunte a um torcedor do Sevilla se ele não tem memórias inesquecíveis sobre os títulos de 2006 e 2007.

O Atletico de Madrid ainda tem chances de classificação para a UCL, mas devem mesmo bater ponto na Liga Europa mais uma vez. Já não será mais o bastante vencê-la. Será compreensível se o clube relegar a taça continental a segundo plano, buscando voos maiores. Nem que sejam voos curtos, como vitórias em clássicos contra o Real. Se for bem sucedido nesses planos, naturalmente, abrirá espaço para um novo protagonista de sonhos modestos. Por ora, o torneio não é o lugar de grandes espetáculos, que ficam com o seu primo rico, mas de sofridas superações e belas histórias de patinhos feios. É o baile que dá um dia de princesa a uma mocreia de bom coração. A Liga Europa é feinha, mas cheia de charme.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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