Liga Europa

As seis vezes que United e Roma se enfrentaram de 2007 a 2008 – incluindo os inapeláveis 7×1 em Old Trafford

Manchester United e Roma se reencontram nas copas europeias depois de 13 anos, se encarando nas semifinais desta Liga Europa. Foram seis partidas entre os dois clubes em duas temporadas consecutivas, de 2007 a 2008. Mas, quase sempre, as lembranças se resumem a um resultado assombroso: 7×1. A segunda maior goleada já aplicada na história das quartas de final da Champions é uma chaga e tanto aos torcedores romanistas, criando um trauma em Old Trafford. Os giallorossi, no entanto, haviam derrotado os Red Devils na partida de ida. E, na temporada seguinte, um novo encontro nas quartas de final pavimentou o caminho do United em sua reconquista continental após nove anos de espera.

O melhor momento da Roma já tinha passado na virada do século, mas o clube se acostumara a disputar a Champions League de maneira consecutiva. E, mesmo que não fosse a melhor versão da equipe, os giallorossi contavam com um Francesco Totti inspiradíssimo para tentar fazer a diferença. Enquanto o atacante debulhava gols na Serie A, também contribuía ao sonho europeu. O problema era encarar o Manchester United, que carecia de melhores desempenhos além das fronteiras naquela década, embora começasse a consolidar o novo momento em que emendaria três títulos consecutivos na Premier League – assim como levaria a Champions de volta a Old Trafford pouco depois. Neste sentido, aqueles 7 a 1 servem como uma anunciação do timaço.

Vale lembrar que, na temporada anterior, o Manchester United tinha passado vergonha na Champions. Os Red Devils sequer conseguiram a repescagem para a Copa da Uefa, terminando na lanterna de seu grupo. Por isso, uma resposta seria necessária em 2006/07. A equipe cumpriu seu dever na liderança da chave que também contava com Celtic, Benfica e Copenhague. Nas oitavas, eliminou o Lille, que havia sido exatamente um dos algozes na campanha anterior – ao lado do próprio Benfica e do surpreendente Villarreal. Ainda assim, a Roma parecia oferecer o primeiro teste de fogo aos mancunianos naquela campanha.

Se o Manchester United já sustentava uma considerável vantagem de seis pontos na liderança da Premier League durante o início de abril, pronto para retomar o troféu após quatro anos, a Roma também fazia uma campanha respeitável na Serie A. Os giallorossi estavam distantes de peitar uma poderosa Internazionale, mas encaminhavam o vice. E, na Champions, os giallorossi cumpriam sua missão. Avançaram na segunda colocação de seu grupo, atrás do Valencia, mas superando o Shakhtar Donetsk. Já nas oitavas, o favoritismo era do fortíssimo Lyon, que sucumbiu com a derrota por 2 a 0 dentro de Gerland. Totti era o nome do santo, com gol e assistência para a classificação.

A Roma não tinha a equipe mais brilhante sob as ordens de Luciano Spalletti, mas via Totti em estado de graça, numa formação que ainda trazia Daniele De Rossi e Simone Perrotta entre os tetracampeões mundiais com a seleção meses antes. A escalação ainda reunia nomes como Christian Chivu, Philippe Mexès, Cristian Panucci, David Pizarro, Christian Wilhelmsson e Mirko Vucinic, além de uma legião brasileira. Doni, Mancini e Taddei eram os representantes do país na espinha dorsal romanista. De qualquer forma, era pouco diante do esquadrão que se via brotar do outro lado.

É argumentável que o melhor Manchester United nas mãos de Sir Alex Ferguson tenha sido aquele do final da década de 2000, por mais que o impacto do time nos anos 1990 tenha sido maior. A constelação começava com Edwin van der Sar. A defesa tinha a liderança de Rio Ferdinand, enquanto Nemanja Vidic estava lesionado e deu lugar a John O’Shea. Patrice Evra era reserva de Gabriel Heinze na lateral esquerda, enquanto Wes Brown entrava na direita. No meio, Paul Scholes e Michael Carrick davam muita consistência na cabeça de área, enquanto Ryan Giggs e Cristiano Ronaldo esmerilhavam nas pontas. Mais à frente, Wayne Rooney era a referência e geralmente acabava acompanhado por Louis Saha, mas Fergie também tinha à disposição Henrik Larsson e o veterano Ole Gunnar Solskjaer.

Uma surpresa parecia possível, quando a Roma venceu por 2 a 1 no Estádio Olímpico. Os giallorossi já ameaçavam em cobranças de falta e ficaram em vantagem numérica com apenas 34 minutos, quando Scholes matou um contra-ataque e recebeu o segundo amarelo. Não demorou para que os romanistas abrissem o placar, aos 44, num chute de Taddei que desviou e enganou Van der Sar. O United até empatou aos 15 do segundo tempo, num passe de Solskjaer para Rooney fuzilar. Ainda assim, a Roma sairia com o triunfo pouco depois. Van der Sar rebateu um chute de Mancini e Vucinic foi rápido ao guardar o rebote. Os giallorossi até pressionaram pelo terceiro, mas o triunfo parecia de bom tamanho. Aquele jogo seria marcado também por cenas de violência nas arquibancadas, entre torcedores e policiais.

Na volta, veio a titânica vitória do Manchester United em Old Trafford por 7 a 1. Darren Fletcher substituiu Scholes no meio. E a verdade é que ainda levou um tempo para os Red Devils se encontrarem, com Totti levando perigo num chute de longe. Quando a porteira se abriu, todavia, a fúria seria enorme. Carrick abriu o placar aos 11, num chute de longe que encobriu Doni e viu o goleiro, pessimamente posicionado, ficar plantado. Seis minutos depois, viria mais um. Desta vez a zaga vacilou e Alan Smith surgiu sozinho para definir, com Doni perdido no meio do caminho. O inglês tinha sido uma surpresa na escalação, titular pela primeira vez após 14 meses no estaleiro, e pagava a confiança de Sir Alex Ferguson. Aos 19, saiu o terceiro, num cruzamento de Giggs que Rooney definiu com liberdade.

O resultado já era mais que suficiente à classificação, mas o Manchester United não estava satisfeito. Cristiano Ronaldo tentava o seu e arriscava bastante de fora da área. Seu tento, o quarto do time, saiu aos 44. O craque cortou a marcação e, com Doni novamente mal colocado, mandou no cantinho do goleiro. O intervalo concedeu um respiro à Roma, mas o quinto gol já saiu aos quatro minutos. Giggs cruzou e desta vez Cristiano Ronaldo completou. O jogo estava tão fácil que Rooney tentou marcar até do meio-campo. O sexto caberia a Carrick, aos 15, em mais um chutaço de fora da área que morreu no ângulo. A Roma ao menos demonstrava um mínimo de brio e lutava pelo gol de honra. Tentou algumas vezes, até De Rossi completar com estilo um cruzamento de Totti e descontar aos 24. Mas era a noite de um só time e o golpe de misericórdia saiu aos 36, quando Evra bateu de fora e a bola beijou a trave antes de entrar.

Depois do jogo, como não poderia deixar de ser, Sir Alex Ferguson estava exultante: “Foi nosso melhor jogo de todos – uma atuação fantástica de cada um dos nossos jogadores. Você nunca espera um resultado como um 7 a 1. A velocidade do nosso jogo e a nossa penetração foram absolutamente fantásticas. A qualidade foi tão alta que, assim que marcamos dois ou três, pensamos que algo grande aconteceria. A atmosfera estava fantástica e tenho certeza que a torcida manterá isso, agora que notam como vale apoiar o time”.

“Acho que o primeiro gol nos deu uma vantagem. Eles ficaram atrás no placar agregado e nossa velocidade causou todos os tipos de problemas. A equipe agora tem que seguir em frente e ganhar algum título. A forma como eles estão jogando futebol faz merecerem isso. Estou curtindo, isso aponta o caminho a seguir. Dois anos atrás, contra o Milan, Rooney e Ronaldo eram dois garotos, mas nesta noite eles jogaram como homens”, complementou o treinador.

A humilhação imposta pelo Manchester United não renderia tantos frutos na Champions, já que na semifinal Kaká arrebentou pelo Milan e eliminou os ingleses. O time, pelo menos, comemorou a Premier League naquele momento. E a Roma teve como prêmio de consolação a Copa da Itália, com direito à goleada por 6 a 2 sobre a Inter no primeiro jogo da final. Isso até que o destino fosse cruel o suficiente na temporada seguinte, com mais quatro partidas contra o Manchester United.

Começou na fase de grupos. O Manchester United ganhou o novo jogo em Old Trafford, desta vez num econômico 1 a 0, gol de Rooney no segundo tempo. As duas equipes já estavam classificadas quando o reencontro aconteceu no Estádio Olímpico, com a liderança garantida aos ingleses, e por isso vários reservas estavam em campo. O United abriu o placar com um garoto chamado Gerard Piqué, mas pelo menos a Roma evitou a derrota em casa e Mancini fechou o placar em 1 a 1. Nas oitavas, os romanistas fizeram bonito e ganharam as duas do Real Madrid. Já os mancunianos tiveram mais dificuldades para superar o Lyon só na volta. De novo, nas quartas de final, as duas equipes se pegavam.

Ferguson não tinha muitas adições em seu Manchester United, mas nomes como Owen Hargreaves, Anderson e Carlos Tevez deixavam o elenco mais recheado. Além disso, a formação se aproximava mais dos nomes consagrados, também com a ascensão de Park Ji-sung. Na Roma, Juan se somava à zaga e quem crescia um pouco mais era Alberto Aquilani, enquanto Cicinho e Ludovic Giuly viravam alternativas. Porém, as esperanças de classificação praticamente desapareciam quando ninguém menos que Totti era desfalque, lesionado depois de ter sido decisivo contra o Real Madrid.

O Manchester United nem destroçou a Roma como no ano anterior, mas conseguiu se impor nos dois jogos. Os Red Devils venceram logo a ida no Estádio Olímpico, por 2 a 0. Até parecia um jogo delicado, especialmente depois que Vidic saiu lesionado com meia hora em campo. Todavia, aos 39 do primeiro tempo, Scholes cruzou e Ronaldo abriu o placar com uma cabeçada fulminante. Os giallorossi criaram chances para empatar, mas tomaram o segundo na etapa final. Doni caçou borboletas num cruzamento e Rooney não perdoou na pequena área. Ronaldo ainda poderia ter feito o terceiro, carimbando a trave.

Com a classificação encaminhada, o Manchester United administrou a vantagem em Old Trafford e assegurou a vitória. Sir Alex Ferguson se deu ao luxo de poupar alguns de seus destaques – deixando Cristiano Ronaldo, Rooney, Giggs e Scholes no banco. Era um início de partida aberto e Doni fazia boas defesas. O problema é que, do outro lado, o time não se ajudava. Os romanistas ganharam um pênalti aos 29. De Rossi cobrou e mandou nas arquibancadas. Van der Sar seria ameaçado algumas vezes mais, até que o triunfo por 1 a 0 se confirmasse aos 25 do segundo tempo. Hargreaves cruzou e Tevez mergulhou de peixinho para marcar. Antes do fim, Gary Neville ainda sentiria o gosto de voltar a campo, após mais de um ano se recuperando de lesão.

O Manchester United passaria pelo Barcelona na semifinal, antes de conquistar a Champions contra o Chelsea. Desde então, os Red Devils não tocaram mais a Orelhuda e tentam o segundo sucesso na Liga Europa em quatro anos. Já a Roma pode não possuir as lendas de outrora, mas não parece tão inferior aos Red Devils quanto foi naquelas ocasiões. Terá a chance de apagar os fantasmas do passado para tentar alcançar sua primeira final continental desde 1991. O favoritismo ainda é da equipe de Ole Gunnar Solskjaer, mas provavelmente não a ponto de render sete gols aos mancunianos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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