Liga Europa

A herança da Floresta: Como sucessão planejada levou o Freiburg à final da Liga Europa

Filosofia de Baden supera disparidade econômica e busca título inédito contra pesado investimento inglês

O futebol costuma ser um terreno de rupturas traumáticas, onde a saída de um treinador icônico geralmente abre caminho para períodos de instabilidade. Encravado na entrada da Floresta Negra — região do sudoeste alemão famosa por suas densas paisagens e por inspirar os contos folclóricos dos Irmãos Grimm —, o Freiburg, porém, parece seguir uma lógica própria, sustentada pela paciência e por uma simbiose rara entre clube e comunidade.

A decisão da Liga Europa em Istambul, contra o milionário Aston Villa, quarto colocado da Premier League, não é somente o ponto culminante de uma campanha europeia inspiradora. É a validação de uma transição de comando que rejeitou o roteiro comum de crises pós-ídolo.

Julian Schuster, o homem que carrega a estratégia, é a personificação dessa continuidade, provando que o sucesso pode ser herdado quando o DNA é preservado com inteligência.

Julian Schuster nos tempos de jogador, quando era treinado por Christian Streich no Freiburg
Julian Schuster nos tempos de jogador, quando era treinado por Christian Streich no Freiburg (Foto: Ulf Schiller / Beautiful Sports / Imago)

A história de Schuster com o Freiburg começou em 2008, quando o então meio-campista de 1,90m trocou Stuttgart pela simplicidade de Baden — a porção ocidental do estado de Baden-Württemberg, que se orgulha de sua identidade própria, clima ameno e raízes fincadas na Floresta Negra.

Foram dez anos no gramado, muitos deles ostentando a braçadeira de capitão, servindo como a extensão tática do então técnico Christian Streich dentro das quatro linhas. Quando pendurou as chuteiras, o caminho natural foi o banco de reservas, atuando como assistente do mestre que moldou a era moderna do clube.

A longevidade de Streich, que iniciou o trabalho na base quando Schuster era apenas uma criança de dez anos, criou uma base tão sólida que a sucessão em 2024, embora carregada de simbolismo, pareceu um passo orgânico e planejado.

Julian Schuster, do Freiburg
Julian Schuster, do Freiburg. Foto: IMAGO / STEINSIEK.CH

Freiburg: o sucesso blindado pela continuidade

Substituir um ícone que comandou o time por mais de uma década é uma tarefa árdua. Streich levou o Freiburg de um rebaixamento doloroso (temporada 2014/15) à consolidação na elite alemã, alcançando uma final de Copa da Alemanha (2021/22) e classificando a equipe quatro vezes para a Liga Europa.

Schuster, no entanto, evitou a armadilha de tentar revolucionar o que já funcionava. Em suas duas primeiras temporadas completas, ele não só manteve o time competitivo, beliscando a parte alta da Bundesliga, como elevou o patamar de resiliência do elenco em competições de mata-mata. O quinto lugar na liga nacional e a atual briga para sustentar o G-7 mostram que o Freiburg não perdeu o fôlego após a troca de comando.

O segredo dessa transição reside na gestão humana e no conhecimento profundo do ecossistema local. Schuster entende que o Freiburg não pode competir financeiramente com os gigantes, o que torna o aproveitamento de talentos e a coesão coletiva ferramentas inegociáveis.

Julian Schuster celebra classificação do Freiburg para final da Liga Europa
Julian Schuster celebra classificação do Freiburg para final da Liga Europa (Foto: Sportfoto Rudel / Imago)

Sob seu comando, o time preservou a essência forjada com seu antecessor: uma equipe famosa por ser “chata” de se enfrentar, que não espera o adversário, mas induz o erro através de gatilhos de marcação agressiva.

Schuster, tendo sido o capitão desse sistema por anos, aplica o Gegenpressing (contra-pressão em alemão) — a estratégia de pressão imediata sobre o adversário no instante em que a posse de bola é perdida — com a autoridade de quem executou essa função em campo, mantendo a transição rápida que define a verticalidade do clube.

A vaga na final em Istambul é o troféu dessa filosofia: um time que sabe sofrer, castigar o erro adersário, e que acredita piamente na ideia de seu treinador, justamente por vê-lo como um dos seus.

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O Davi alemão contra o Golias de Birmingham

O confronto no Besiktas Stadium coloca frente a frente dois universos financeiros distintos. Enquanto o Aston Villa movimentou cerca de 285 milhões de euros nas últimas janelas de transferências para montar um elenco forte, o Freiburg operou com uma fração disso, investindo aproximadamente 50 milhões de euros no mesmo período.

É a batalha entre o investimento pesado da Premier League e o modelo de sustentabilidade da Bundesliga.

Para o clube alemão, a diferença orçamentária é compensada pela química de um grupo que joga junto há anos e por uma torcida que promete invadir as margens do Bósforo.

Nesta quarta-feira (20), as arquibancadas em Istambul serão o palco da maior oportunidade da história do Freiburg. Além da glória de erguer um troféu continental inédito, o título oferece o “bilhete dourado” para a próxima Champions League — um cenário que parecia utópico há poucos anos.

Julian Schuster, o capitão que virou técnico, está a 90 minutos de imortalizar seu nome e o de seus jogadores. Independentemente do resultado, a trajetória já é um manifesto: na Floresta Negra, o tempo e a confiança no trabalho de longo prazo ainda são as moedas mais valiosas do futebol.

Torcida do Freiburg invadiu o campo após classificação para final da Liga Europa
Torcida do Freiburg invadiu o campo após classificação para final da Liga Europa (Foto: Nordphoto / Imago)

Campanha do Freiburg na Liga Europa

  • Sétimo colocado na fase de liga, com 17 pontos (cinco vitórias, dois empates e uma derrota)
  • Eliminou o Racing Genk nas oitavas de final (5 a 2 no agregado)
  • Eliminou o Celta de Vigo nas quartas de final (6 a 1 no agregado)
  • Eliminou o Braga nas semifinais (4 a 3 no agregado)

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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