Liga Europa

Com quarto título, Emery reabilitou sua reputação e se consolidou ainda mais na história do futebol europeu

O treinador do Villarreal isolou-se como o maior campeão da Copa da Uefa/Liga Europa, agora com quatro títulos em cinco finais

Unai Emery estava subindo os degraus gradualmente. Havia ralado em clubes menores e brilhado em patamares secundários quando ganhou a grande chance da carreira: treinar o Paris Saint-Germain. Mesmo sem sucesso, teve outra, no Arsenal, em baixa, mas ainda um dos clubes mais ricos da Premier League. Não conseguiu dar o salto. Retornou à Espanha e assumiu o Villarreal, o equivalente a recuar uma casa no tabuleiro da hierarquia de técnicos do futebol europeu.

Claro que há atenuantes. As dificuldades de Thomas Tuchel e Mauricio Pochettino, dois treinadores de indubitável qualidade, mostram que o desafio do PSG é complicado para qualquer um. Mikel Arteta tem outro perfil, ainda iniciante no ofício, mas também tem demonstrado que ninguém reconstruirá o Arsenal da noite para o dia. De qualquer maneira, o fato é que havia saído do circuito dos super-clubes.

Conquistar novamente a Liga Europa, como fez nesta quarta-feira, não o recoloca necessariamente nele, mas reabilita a sua reputação. O feito de dar ao Villarreal o primeiro título de sua história é marcante, assim como o de ultrapassar Giovanni Trapattoni e assumir o lugar que lhe é de direito: o maior campeão da história da Copa da Uefa/Liga Europa.

É impressionante o seu aproveitamento. Cinco finais e quatro títulos em um intervalo de oito anos. Nesse período, não alcançou a decisão apenas quando estava disputando Champions pelo PSG ou desempregado, após a demissão no Arsenal. Mística à parte, esse tipo de consistência não existe sem um lastro de trabalho, conhecimento e capacidade.

Foi por isso que o Villarreal o contratou. Não foi uma operação das mais naturais porque significou demitir Javi Calleja (pela segunda vez). O clube o havia mandado embora em dezembro de 2018 e, admitindo o erro, o recontratou cerca de seis semanas depois. Ele impediu que o Submarino Amarelo afundasse na zona de rebaixamento naquela temporada e conduziu uma ótima recuperação pós-paralisação, com sete vitórias em 11 rodadas, para arrebatar a vaga na Liga Europa que se tornou o primeiro troféu do Villarreal.

Nem de longe fazia um trabalho ruim, mas a chance de contar com um treinador do calibre de Emery, que passou a quarentena em Valência, há cerca de 60 kms de Villarreal, foi irresistível. O clube tem esse hábito: grande parte do seu elenco é formado por jogadores com experiência de futebol espanhol que, por diferentes motivos, estavam ao alcance de seus recursos.

Sabe aproveitar esse tipo de oportunidade para contratar um profissional talentoso em um período momentâneo de baixa, uma leve (ou mais brusca) oscilação na carreira. A única diferença no caso de Emery é que isso foi feito com um treinador. E havia um fator extra: ele havia aprendido no Sevilla o quanto é gostoso ganhar as coisas, e o Villarreal estava desesperado para finalmente ganhar alguma coisa.

“Quando cheguei ao Sevilla, a primeira coisa que me disseram foi: ‘Unai, jogar a Champions League, como você fez com o Valencia, é ótimo, mas você ainda não teve a experiência de ser campeão’. Agora eu tive. Agora eu senti. E é o melhor sentimento que existe, algo realmente compartilhado. Não podemos ser um super-time por causa do orçamento, mas podemos crescer. É muito gratificante. A alegria vem desse sonho, da esperança, de vencer um título”, disse ao Guardian, em 2015.

Ele se referia ao Sevilla, que ainda é um clube com mais bala na agulha que o Villarreal – faz o mesmo movimento de contratar bons jogadores em baixa, o mantra de Monchi, mas em volume maior. O mesmo vale para o Villarreal. Nem todas as portas estavam abertas para ele. A que, escolheu, porém, foi bem pensada: um clube com estrutura, ótima categoria de base e batendo na porta de um título há muitos anos. Um título que seria certamente especial, como todas as primeiras vezes são, e que levaria a sua marca.

Na próxima temporada, terá a outra experiência, de comandar o Villarreal na Champions League. O máximo que dá para prever de seu futuro no momento. Mas vale ressaltar que Emery ainda é muito jovem. Até impressiona por quanta coisa passou aos 49 anos – começou a carreira cedo, aos 33. Tem, se for seu desejo, tempo suficiente para buscar pelo menos mais uma vez o salto que não conseguiu dar entre 2016 e 2019.

Capacidade para isso ele tem. O cenário de técnicos do futebol europeu não é tão vasto assim. Pep Guardiola e Jürgen Klopp estão à frente do resto. Há alguns nomes históricos, como Ancelotti e Mourinho, cujos ápices parecem ter ficado para trás. Depois disso é bastante ao gosto do freguês. Da terceira à décima posição, cada um pode compor o seu próprio ranking. Emery não estará necessariamente em todos. Mas precisa fazer parte da conversa.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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