Liga Europa

Após acusação de racismo contra o Slavia, Rangers cobra a Uefa: “Isso não pode ser varrido para debaixo do tapete”

A partida entre Rangers e Slavia Praga, pela Liga Europa, foi palco de mais uma deplorável acusação de racismo nas competições europeias. A vitória dos tchecos teve momentos tensos, incluindo a entrada violenta do atacante Kemar Roofe sobre o goleiro Ondrej Kolar, que sofreu lesões no rosto. Nada que atenue, porém, o que viria depois. Nos minutos finais, houve uma grande discussão entre os jogadores em uma das laterais. Depois da partida, a indignação dos atletas da equipe escocesa foi explicada: Glen Kamara teria sido chamado de “macaco” por Ondrej Kudela. Na saída aos vestiários, Kamara teria descontado com um soco na cara de Kudela.

As imagens analisadas posteriormente deixam evidente o momento em que o incidente aconteceu. A confusão começa numa falta cometida pelo Rangers. Quando o clima parecia se apaziguar e alguns atletas adversários até se abraçavam, Kudela se aproxima de Kamara. Tapando a boca, diz algo para o jogador do Rangers e sai de imediato. Kamara então logo se revolta e afirma que o oponente o chamou de “fucking monkey”. Bongani Zungu, que estava ao lado do companheiro de Rangers, faz a mesma afirmação. Kamara parte para cima de Kudela e há uma troca de empurrões. O imbróglio durou alguns minutos, sem que uma atitude fosse tomada pelo árbitro Orel Grinfeld. O jogo foi retomado, até o apito final.

https://www.youtube.com/watch?v=mRHnJgsJ9JQ

Na saída de campo, o ambiente tenso ainda prevalecia. O técnico Steven Gerrard abraçou Kamara para conter o jogador em sua revolta. Também aconteceram alguns bate-bocas, incluindo os técnicos, enquanto os jogadores deixavam o gramado. Ainda surgiram relatos de uma briga no túnel que dá acesso aos vestiários.

Segundo a versão de membros do Rangers, os jogadores do clube esperaram os atletas do Slavia por 45 minutos, para confrontá-los sobre o ocorrido, e ninguém apareceu. Porém, a história contada pelos tchecos é diferente. O presidente Jaroslav Tvrdík afirma que seu elenco ficou trancado do lado de fora dos vestiários por 30 minutos. Kudela, o treinador Jindrich Trpisovsky e um dirigente foram conversar com Gerrard, diretores do Rangers e representantes da Uefa. Neste momento, Kamara apareceu e deu um soco no rosto de Kudela, antes de sair ao lado de Gerrard. O próprio Rangers confirma que houve uma conversa com oficiais da Uefa, mas sem dar mais detalhes. Tal ato teria sido relatado na súmula, conforme o Slavia.

Em nota oficial, a Uefa confirmou que abriu uma investigação sobre os incidentes ocorridos no Estádio Ibrox. Outras informações serão oferecidas depois. O Rangers também publicou um comunicado, apoiando Kamara e repudiando o racismo. “A Uefa sabe que o mundo do futebol está atento. Esperamos uma resposta robusta e inequívoca em relação a este incidente. Não pode apenas ser varrido para debaixo do tapete. Não estamos preparados para que Glen Kamara seja apenas uma estatística. Basta é basta”, escreveu Stewart Robertson, diretor do clube.

Kamara se posicionou em um comunicado: “O racismo vil de Kudela aconteceu num jogo internacional e qualquer fracasso da Uefa na ação será visto como uma luz verde ao racismo. Durante a partida, Kudela estava discutindo com um jogador do Rangers e, depois que tentei intervir, ele me disse para calar a boca e afirmou ‘um segundo, meu amigo’. Depois ele se aproximou de mim cobrindo a boca, inclinando-se ao meu ouvido e proferiu as palavras ‘você é um macaco de merda, você sabe que é’. Fiquei chocado e horrorizado ao ouvir tal abuso racista de um jogador profissional. Ele diz que me chamou de ‘cara de merda’, o que é uma completa mentira que não resiste a qualquer escrutínio. As ações de Kudela foram deliberadas e premeditadas, mas ele falou alto o suficiente para Zungu ouvir”.

Kudela, por sua vez, deu uma entrevista à imprensa local admitindo que usou palavras ofensivas, mas negando o racismo: “Por temer pela integridade física dos meus companheiros, não controlei minhas emoções. Eu disse: ‘Seu cara de merda’. Eu fui enfrentá-los como um dos jogadores mais experientes e vice-capitão. Não queria que ninguém estivesse em campo no fim do segundo tempo, eles desistiram de jogar futebol. No túnel, quando a situação parecia mais calma, encontrei Kamara. Diante de representantes da Uefa e dos treinadores, ele me deu um soco na cara sem qualquer aviso. Não reagi, ele foi tranquilizado pelos seguranças e pelos representantes da Uefa, que ficaram chocados”.

Já o Slavia Praga também disse estar comprometido com o combate ao racismo, mas preferiu fazer uma carta em defesa de Kudela e negou as acusações. “Estamos chocados que a reputação de Ondrej e a reputação do clube estejam sendo manchadas sem uma única prova. A única ‘suposta’ evidência é o jogador cobrindo a boca – o que ele faz regularmente quando fala com seus companheiros durante os nossos jogos”, escreveu o clube tcheco.

O Slavia ainda reiterou que Kudela foi agredido por Kamara nos vestiários. Por isso, o clube fez um boletim de ocorrência contra o jogador adversário, através da embaixada da República Tcheca em Londres. Os alvirrubros alegam que as câmeras estavam cobertas para não registrar o “ataque brutal”. Conforme a nota, a polícia local escoltou a saída do elenco de Ibrox. Imagens da imprensa não indicaram escoriações no rosto de Kudela, enquanto o jogador saía do hotel onde o time ficou hospedado.

Os jogadores do Rangers também foram vítimas de ataques racistas nas redes sociais. Kemar Roofe foi um dos principais alvos. O goleiro Ondrej Kolar, além de levar pontos no rosto, também sofreu uma fratura facial. Já um grupo de ultras do Slavia exibiu faixas racistas contra Kamara nas redes sociais, endossando a própria acusação feita pelo jogador. Vale ressaltar que quatro jogadores africanos e um descendente foram titulares do Slavia em Glasgow, com o primeiro gol anotado pelo nigeriano Peter Olayinka.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo