Graham Potter na Suécia: A árdua missão de reconstruir uma seleção em crise e sem norte
Enfrentando resultados desastrosos e pouco tempo para agir, técnico inglês assume missão quase impossível à frente dos suecos
A Federação Sueca de Futebol (SvFF) surpreendeu ao anunciar Graham Potter como novo técnico da seleção principal, nesta segunda-feira (20), dias após a demissão do dinamarquês Jon Dahl Tomasson. A escolha representa uma ruptura importante com o passado recente e sinaliza uma tentativa clara de reconstrução — não apenas tática, mas emocional e identitária — em um momento particularmente sensível para o futebol sueco.
Tomasson deixou o comando do time por conta da campanha desastrosa nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026. Os suecos conquistaram somente um ponto nos primeiros quatro jogos e amargam o último lugar no Grupo B.
Ainda mais preocupante que os números era a sensação de que a equipe não encontrava uma identidade: os conceitos do agora ex-treinador pareciam não ter se consolidado em campo, e o time oscilava entre tentativas de jogo mais propositivo e recaídas em um estilo reativo pouco eficaz.
A crise, no entanto, ultrapassa o campo dos resultados. Desde a surpreendente campanha na Copa de 2018, quando parou nas quartas de final, a Suécia perdeu parte de sua força competitiva. Vieram eliminações precoces e um afastamento nítido entre jogadores e torcida. A aposta em Potter representa, portanto, a tentativa de reencontrar vitórias e restaurar o prestígio perdido.
Um treinador de ideias: o estilo Graham Potter
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Graham Potter não é um nome qualquer no cenário europeu. Ganhou notoriedade por seu trabalho no Östersunds, clube sueco que levou da quarta divisão até a elite e a Liga Europa, jogando um futebol moderno, criativo e baseado em princípios de posse e movimentação. Sua experiência no Brighton consolidou essa imagem: uma equipe fluida, que sabia se adaptar aos adversários, valorizava o jogo associativo e conseguia competir em alto nível mesmo com recursos limitados.
Seu estilo privilegia jogadores inteligentes, que saibam interpretar diferentes funções dentro de campo. Não se trata de um treinador preso a esquemas fixos, mas sim de um técnico que pensa o jogo como um organismo vivo — onde a ocupação de espaços, as transições suaves e a tomada de decisões são mais importantes do que a rigidez tática. Potter é, sobretudo, um construtor de ideias. A conferir como implementará isso na seleção sueca.
Curiosamente, Tomasson também havia prometido uma Suécia mais moderna, de posse de bola e protagonismo. Na prática, porém, seu time raramente conseguiu entregar esse modelo. Faltava consistência tática, comprometimento coletivo e, principalmente, uma execução clara das ideias propostas.
A diferença fundamental entre Tomasson e Potter talvez esteja na profundidade da aplicação desses conceitos. Potter não apenas fala sobre modernidade no futebol — ele já a colocou em prática em diferentes contextos.
Ainda que esteja em baixa, vindo de trabalhos irregulares à frente de Chelsea e West Ham, o inglês sabe como montar sistemas híbridos, como adaptar uma equipe ao perfil dos jogadores disponíveis, e como gerar confiança em processos complexos. Enquanto Tomasson tentava uma ruptura, Potter parece mais capaz de conduzi-la.
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A missão quase impossível de Potter na Suécia
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Potter assume uma seleção fragilizada, pressionada por resultados e ainda em busca de um norte. Seu desafio imediato será resgatar a confiança do grupo e montar uma equipe minimamente competitiva em tempo recorde.
Sua chegada pode ser catalisadora de uma nova mentalidade. O simples fato de um técnico com experiência em Premier League, com passagem por Chelsea e Brighton, assumir o cargo, pode revitalizar o ambiente. A missão, entretanto, está longe de ser simples.
A Suécia, que não tem mais chances de se classificar diretamente à Copa do Mundo, precisa reagir já nas próximas partidas se quiser sonhar com uma vaga no Mundial via repescagem — terminar na segunda colocação da chave. E isso significa que o técnico inglês terá pouco tempo para implementar seu estilo.
Para ir à repescagem, os suecos precisam:
- Vencer a Suíça na quinta rodada;
- Torcer para uma vitória da Eslovênia sobre Kosovo na quinta rodada;
- Vencer a Eslovênia na última rodada;
- Torcer para uma vitória da Suíça sobre Kosovo na última rodada
*O cenário pode se tornar ainda mais delicado, a depender do saldo de gols das seleções após os confrontos
Potencial de transformação a médio prazo
Se conseguir tempo e respaldo, Potter tem boas ferramentas para transformar a seleção sueca em uma equipe mais contemporânea.
Ele poderá montar um modelo de jogo que aproveite as características de jogadores como Alexander Isak, Viktor Gyökeres, Dejan Kulusevski e Lucas Bergvall — atletas técnicos, móveis, com boa leitura de espaços.
A ideia de uma Suécia apenas física e defensiva pode dar lugar a uma seleção mais equilibrada, capaz de se impor tecnicamente sem perder a solidez histórica. Sob o comando do inglês, o time pode ganhar novos mecanismos de construção, maior protagonismo com a bola e uma mentalidade voltada para o controle dos jogos.
Se o projeto for amadurecido, a equipe tem potencial para se tornar uma força interessante da Europa nos próximos anos.
Potter e Suécia: um casamento de passado e futuro
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A relação de Potter com o futebol sueco não é casual. Foi na Suécia, à frente do modesto Östersunds, que o inglês praticamente iniciou sua trajetória como treinador. E ele mesmo já declarou que guarda carinho pelo país e pelo modo como se pratica o esporte por lá.
— É uma enorme honra receber esta missão, mas também me sinto incrivelmente motivado. A Suécia conta com jogadores fantásticos que se destacam, semana após semana, nas melhores ligas do mundo. O meu objetivo será criar as condições ideais para que, enquanto equipe, possamos atuar ao mais alto nível e levar a Suécia ao Mundial — disse Potter durante sua apresentação.
Seu grande mérito será encontrar o ponto de equilíbrio entre a tradição sueca — baseada em disciplina, força coletiva e espírito competitivo — e as exigências do futebol contemporâneo, que pede criatividade, mobilidade e inteligência tática. Se conseguir construir essa ponte, Potter poderá, quem sabe, levar a Suécia de volta a uma Copa do Mundo, e recolocá-la como uma seleção relevante no cenário europeu.