Ginola sobre Bosman: “As pessoas o destruíram completamente. Ele se tornou um pária”
Quando David Ginola viajou à Bélgica para produzir um documentário para a BT Sports, sabia o que esperar. Depois de abrir as fronteiras da Europa e libertar os colegas de ficarem eternamente presos aos seus clubes, Jean-Marc Bosman entrou em depressão, sofreu com alcoolismo, foi condenado por agressão à namorada e passou por sérios problemas financeiros. Um destino que o ex-jogador de Paris Saint-Germain e Tottenham considera injusto para um dos jogadores mais importantes da história do futebol.
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A maior glória de Bosman não aconteceu em campo, mas em um tribunal. Entrou na Justiça para ter o direito de se transferir do RFC Liège para o Dunkerque, em 1990, ao fim do seu contrato. A batalha legal durou cinco anos e efetivamente encerrou a sua carreira, mas garantiu que os jogadores pudessem se mover livremente quando estivessem sem vínculo empregatício, sem precisar da anuência dos seus clubes anteriores.
Além disso, o processo estendeu a livre circulação de trabalhadores da Comunidade Europeia também ao futebol. Jogadores que fossem cidadãos europeus não contariam mais para o limite de estrangeiros. Os méritos dos efeitos que isso causou, especialmente a mercados secundários, são fruto de discussão. O próprio Bosman acredita que a lei acabou aprofundando o desequilíbrio e não era esse o seu objetivo. Mas foi sem dúvida um abalo sísmico ao sistema do futebol.
A decisão que Bosman conseguiu na Corte Europeia de Justiça completou 25 anos esta semana. Permitiu a formação de esquadrões internacionais e deu muito mais poder de barganha a jogadores e empresários em negociações de contrato. Muita gente fez muito dinheiro graças a ela, menos Bosman.
“Eu deveria ter encontrado um homem muito rico, mas, na verdade, ele não tem nada”, afirmou Ginola, em entrevista ao Guardian. “As pessoas haviam me dito que ele estava destruído e em má condição. Quando eu cheguei à Bélgica e descobri tudo, o maior sentimento foi de tristeza. As pessoas o destruíram completamente. Todos deveriam tê-lo aplaudido e dito ‘Muito obrigado. Você permitiu que fizéssemos coisas que nunca havíamos pensado’. Em vez disso, tudo que fizeram foi culpá-lo”.
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Em entrevista ao mesmo jornal, quando o caso completou 20 anos, Bosman afirmou a Uefa e a Fifa cobraram que os clubes não o contratassem por ter entrado na Justiça contra as entidades. A percepção (correta) de que sua carreira havia terminado o incentivou a ir mais a fundo no processo. “Ele se tornou um pária. O mundo do futebol é muito estranho. Se você ficar no meio da multidão, tudo bem. Se você não causar grandes ondas, tudo bem. Mas se você decidir ir para a esquerda ou para a direita, ou enfatizar um ponto específico, o futebol diz: ‘você é bom com os pés, mas não mude nada que nós, tomadores de decisões, fazemos. Jogue futebol, cale a boca e faça o que achamos que é bom para você’”, afirmou Ginola.
“Eu acho que os empresários deveriam explicar aos jogadores o que foi a decisão do Bosman, quem foi Jean-Marc Bosman e exatamente o que mudou, para que eles possam entender por que têm a chance de se transferir de clube a clube tão facilmente quanto fazem. Os jogadores são tão protegidos que nós não mostramos adequadamente a eles o que está por trás de tudo isso”, completou.
Nem todos o esqueceram. Adrien Rabiot, por exemplo, doou cerca de € 10 mil a ele ao usar a Lei Bosman para trocar o PSG pela Juventus, em 2019. Mas não é nada organizado. Bosman alega que perdeu muito dinheiro ao ter sua transferência ao Dunkerque bloqueada pelo Liège. Recebeu uma ajuda mensal do sindicato dos jogadores e uma indenização pelo caso, mas fez investimentos ruins e acabou em dificuldades financeiras.
“Nunca é tarde demais para ajudar alguém”, continua Ginola. “Nunca é tarde demais para clubes e jogadores perceberem que, se venceram campeonatos e coisas assim, não poderiam ter chegado àquele nível sem a decisão de Bosman. Você pode olhar para trás e pensar: ‘Eu ganho € 1 milhão por mês e este homem mudou minha vida, é meu dever ajudar alguém que me tornou mais rico’. É um sentimento óbvio, mas você precisa organizar alguma coisa”.
“O futebol está ficando rico a cada ano e, mesmo assim, você tem o cara que trouxe uma mudança importante e ele não está recebendo nada. É uma pena que o próprio futebol não leve isso em consideração. Se um jogador pode jogar com os melhores do mundo, ou se um clube tem todas essas oportunidades de contratações, é por causa da decisão do Bosman”, encerrou.
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