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Fener não respeitou a história de Alex

A passagem de Alex pelo Fenerbahçe teve um desfecho inesperado. A idolatria pelo brasileiro começou em 2004 e seus números ajudam a sustentá-la. Foram três títulos turcos, uma campanha histórica até as quartas de final da Champions e 185 gols marcados. Não à toa, o camisa 10 foi homenageado com uma estátua – em obra inaugurada há duas semanas, mas que já era planejada desde 2010.

Porém, a crise recente entre o capitão e o técnico Aykut Kocaman tornou-se insustentável. O estopim teve início no sábado, com a substituição de Alex no intervalo da derrota para o Kasimpasa e só piorou com a lavagem de roupa suja ocorrida após a partida, conforme relatos da imprensa turca. A demissão de Aykut Kocaman teria sido cogitada na reunião, embora apenas a punição a Alex foi concretizada. O posicionamento da diretoria culminou no pedido de rescisão de contrato feito pelo meia.

O ciúme de Kocaman por seus recordes teria desagradado Alex. Observando o conflito de fora, não é possível fazer uma análise mais profunda da troca de farpas entre técnico e jogador. Entretanto, mesmo sem entrar nos méritos pessoais, dá para dizer que o Fenerbahçe errou ao mandar embora um dos principais craques de sua história.

De certa maneira, o clube pensou a longo prazo. Alex possuía contrato até o final da temporada e já tinha dado mostras que não renovaria. Kocaman, por sua vez, tem vínculo até 2015. E, a despeito do mau início na atual temporada, conta com respeitável aproveitamento de 66% dos pontos disputados, bem com dois títulos em dois anos no comando. Além disso, o turco goza de prestígio com a presidência, a ponto de acumular também cargos na diretoria – mesmo que sua relação com o elenco tenha demonstrado desgastes anteriores.

Independente deste pensamento, Alex não merecia tal tratamento. O Fenerbahçe virou as costas para um ídolo que estendeu a mão em um dos momentos mais difíceis da história do clube. Após o estouro do caso de manipulação de resultados, que levou o presidente Aziz Yildirim à cadeia e causou a debandada de boa parte dos astros do time, o capitão ficou. Na época, escreveu uma carta reafirmando seus esforços e negando qualquer envolvimento em falcatruas. Ajudou os Sari Kanaryalar a aguentarem o baque e, mais que isso, manteve a equipe na briga por títulos.

Passado um ano do escândalo, o Fener recuperou parte de sua moral no cenário europeu e contratou jogadores de renome, como Dirk Kuyt, Raul Meireles e Milos Krasic. Os reforços minimizam um pouco a saída de Alex em campo – ainda que sua produtividade permanecesse alta, com 17 gols e 13 assistências em 32 jogos na temporada passada.

A partir de agora, resta observar qual será a postura da torcida do Fenerbahçe quanto ao caso. Ao menos na internet, as primeiras reações são de insatisfação. Em pesquisa realizada pelo site Fanatik, 78% dos participantes (16 mil pessoas) discordavam do tratamento dado ao meio-campista. Além disso, dezenas de fãs se reuniram em frente à casa do meia na noite desta segunda, manifestando apoio.

O primeiro teste para o Fener acontece já no próximo domingo. A equipe recebe o Besiktas no Sükrü Saracoglu, pelo Campeonato Turco. Uma vitória pode até apaziguar os ânimos, mas é difícil acreditar que o clássico esteja livre de uma manifestação em prol de Alex. Se as arquibancadas apoiaram o clube até mesmo diante as acusações de manipulação, há chances ainda maiores de se manterem fieis àquele que as fez tremer durante os últimos oito anos.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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