Efeitos da crise

É uma opinião unânime nas ruas de Zurique: há muito tempo o início da temporada não era tão promissor. E o motivo nem é a liderança do FC Zurich, agora de maneira isolada, desbancando o todo-poderoso Basel. A parte azul-escura da maior cidade da Suíça é que está em festa, com a melhor campanha do Grasshopper desde 2003, quando o recordista de títulos do país levantou seu 27º e último caneco.
A duas rodadas da metade do campeonato, o GCZ é o time que menos perdeu até aqui: foram duas derrotas, uma na segunda rodada e outra apenas na 14ª – uma invencibilidade de 11 jogos. Se a terceira colocação a sete pontos do Basel parece pouco, os gafanhotos têm demonstrado um futebol convincente e, ao ultrapassar o Young Boys, firmam-se como principais candidatos à segunda vaga para a Copa da Uefa. Nada mal para quem investiu apenas 600 mil euros em transferências – quinto orçamento da Super Liga, atrás até do modesto FC Sion.
Economia de gols
Há quem diga que a mudança de postura da equipe de Hanspeter Latour, sempre criticado pelas falhas defensivas de seus times, seja a principal razão por trás da subida de produção: o time tem jogado fazendo jus ao apelido, forte na retaguarda e com uma ligação rápida no contra-ataque. A melhor defesa da Super Liga, com 14 gols em 16 jogos, sofreu apenas dois nas últimas cinco partidas. Ponto para o entrosamento entre Vallori e Smiljanic, titulares desde a temporada passada. O segundo, além de capitão, está até o momento na seleção do campeonato eleita pela imprensa local. Além deles, o goleiro Jakupovic chegou do Lokomotiv Moscou e provou que bons reforços podem surgir mesmo gastando pouco.
Depois de se garantir na defesa, o treinador modificou a estrutura do meio-campo. Recuou Ricardo Cabanas definitivamente, melhorando a saída de bola, e fixou o argentino Gonzalo Zárate – outra contratação de baixo custo – como meia-central de seu 4231. Mesmo com o recuo, Cabanas continua sendo fundamental também no ataque, com seis gols e duas assistências.
A velocidade dos jovens Callá (italiano, 24) e Lulic (bósnio, 22), também contratados este ano, têm municiado com eficiência o ainda mais jovem atacante Raul Bobadilla, que aos 21 já fez 6 gols na temporada depois de ter marcado 18 em 2007/08. Mas apesar de todo o entrosamento, Latour já admite que o time precisaria de no mínimo dois reforços de qualidade para a segunda perna do campeonato, já que o Grasshopper é hoje um elenco de onze jogadores – os reservas não têm dado conta do recado e só entram quando o jogo já está decidido ou em casos de contusão. É esta a maior ameaça à boa campanha do GCZ.
Me dá um dinheiro aí
O mercado de inverno se abre em semanas e faz os dirigentes tremerem mais do que o frio dos Alpes. Com a crise financeira que estourou nos Estados Unidos e já respingou em todo o mundo, o Grasshopper pode ver sua fonte, ainda que minguada se comparada a outros tempos, minguar. Os principais mecenas do clube, grandes empresários e torcedores dos azuis, já anunciaram que irão diminuir consideravelmente seus investimentos em 2009. Sinal de que as contratações de que Latour precisa não acontecerão.
“Teremos que apertar os cintos”, afirmou o gerente esportivo Erich Vogel, responsável pelas finanças do clube. “Mas até o Chelsea terá”, minimiza. A verdade é que o GCZ terá sorte se nenhum de seus titulares, valorizados pela boa campanha, receber alguma proposta – pois se isso acontecer, o clube não terá como fazer uma contra-proposta.
A saída será inchar o elenco com empréstimos, longe do plano traçado por Latour para as transferências de janeiro. “Ele sabe da nossa situação. Como técnico, ele nos pede reforços, mas não podemos fazer loucuras como trazer um jogador de 2 milhões de euros”, sentencia. A saída? Vogel tem na ponta da língua: “temos uma excelente categoria de base”. Apenas subir os garotos pode não ser suficiente – o que seria um castigo para um time que mostrou poder ir além. Mas se as então desconhecidas contratações deram certo, por que não pode acontecer de novo? É contar com a sorte. E torcer para a crise passar logo.
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