E a história acaba assim?
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2023%2F04%2FTrivela-Imagem-Padrao.jpg)
Durou quatro anos e três meses a experiência de Demis Nikolaidis como Presidente do AEK. O mandatário dos Enosis deixou o comando do clube no último domingo, de forma até surpreendente, depois de ser hostilizado pela torcida mesmo após a vitória, de virada, sobre o Asteras Tripolis, no estádio Olímpico de Atenas.
É verdade que os Dikefalos jogaram mal durante todo o jogo, e que vinham perdendo a partida por um a zero até os 45 minutos do segundo tempo. Também há de se considerar que o AEK não faz uma temporada das mais brilhantes, e não é de hoje que o time sente falta de peças chaves que deixaram o clube na pré-temporada –como Rivaldo e Liberopoulos. Assim, mesmo com esta vitória, a terceira força da península helênica passou a ocupar apenas a quinta colocação do campeonato, com 13 pontos.
Mas certamente esta má fase do time ateniense não é o único motivo para que a torcida hostilizasse o presidente. Já era sabido que Nikolaidis e a torcida não se entendiam muito bem, e não era de hoje. Principalmente as torcidas organizadas do clube, que deixaram de receber ingressos e incentivos durante a sua gestão -medidas para tirar força do hooliganismo e da violência nos estádios. Só que este não foi o único motivo, nem mesmo esta história, de forma isolada, explica a saída do Presidente.
A história entre Demis Nikolaidis e o AEK é digna de um roteiro de cinema. Torcedor fanático dos Enosis em sua infância, chegou ao estádio Nikos Goumas depois de negar propostas de Panathinaikos e Olympiacos -e forçar o presidente do clube que defendia, o Apollon Smyrnis, a aceitar a proposta dos Enosis.
Depois disso, se tornou um dos ídolos do clube. Foi o quarto maior goleador da história do clube, com 177 gols em 266 jogos, e, mesmo sem ter conquistado um título com a camisa 11 do clube, marcou época em Nea Filadelfia. Atacante talentoso, era temido pelos adversários.
Porém, a sua passagem pelo clube terminou de forma triste. Agredido por um segurança do então mandatário do clube, Makis Psomiadis, deixou o Enosis rumo ao Atlético de Madri. Porém, em Madri, Nikolaidis não teve sucesso, prejudicado por uma série interminável de contusões.
Apesar das contusões, Nikolaidis ainda conseguiu participar da conquista heróica da Euro 2004. E, aos 31 anos de idade, tomou a corajosa decisão de encerrar a carreira de sucesso, para se dedicar a uma das mais importantes passagens de sua carreira: o salvamento da terceira maior força do futebol grego, que se encontrava em estado de insolvência.
Não foi uma tarefa fácil. O AEK, naquele julho, vivia uma situação dramática. Por não conseguir honrar os contratos com os jogadores, perdia uma geração extremamente talentosa, que serviu como base da seleção campeã da Europa. Seu dono, Psomiadis, preso, deixava o clube próximo da falência, e do rebaixamento para as divisões amadoras da Grécia (equivalente à quarta divisão).
Nikolaidis, junto com um grupo de empresários, começou a sua gestão em julho de 2004. E o seu primeiro ato foi a negociação com a justiça grega, para que o pagamento das dívidas do clube fosse parcelado. Com a negociação bem sucedida, houve um mínimo de condições para que o clube pudesse continuar a funcionar.
Bons resultados também ajudaram a embalar o caso de amor entre a torcida e Nikolaidis. Logo no primeiro ano de gestão, o pessimismo e a dúvida pairavam sobre os Enosis. Porém, um ótimo campeonato e o terceiro lugar na Alpha Ethniki surpreendeu a todos. Nos anos seguintes, o time continuou a evoluir. E nos anos seguintes, chegou a se classificar para a Champions League por duas vezes consecutivas -tomando o vice do Panathinaikos. Na competição europeia, na edição 2006/7, o AEK fez bom papel, ao se classificar para a fase de grupos e quase se classificar para a fase seguinte da competição. Além disso, os torcedores se lembram das históricas vitórias sobre Lille e Milan, as primeiras vitórias dos Enosis na fase de grupos da UCL.
A virada
2007/8 foi uma temporada onde a palavra quase deu o tom. O AEK fez boas ações no mercado de inverno, montou um time muito competitivo e parecia destinado a conquistar o seu primeiro título desde 1994. Porém, não foi o que aconteceu.
Dentro de campo, os Enosis até foram o time que mais somou pontos (68 a 67 sobre o Olympiacos). Porém, numa decisão polêmica do tribunal de penas local -referendada pelo CAS-, foram dados aos alvirrubros os pontos da partida contra o rebaixado Apollon Kalamarias, em que o time de Pireu foi derrotado por 1 a 0, devido a uma escalação ilegal de um jogador.
A decisão final provocou uma série de protestos dos jogadores e da diretoria dos Enosis. E desestabilizou o AEK na disputa do playoff final da competição, que dava uma vaga na Champions League. Como resultado final, os Enosis ficaram atrás do Panathianikos, e perderam a chance de estar na Champions League desta temporada
A todo este desgaste, ainda se somou o desgaste de um mau mercado de inverno, em que as perdas dos ídolos Rivaldo e Nikos Liberopoulos para o futebol estrangeiro não foram repostas de forma satisfatória. Sem peças, o novo técnico Giorgos Donis foi obrigado a tentar formar uma nova base. E, por isso, o mau início de temporada do AEK.
A saída de Nikolaidis é uma baixa importante para o AEK. Que perde, assim, o líder de sua reconstrução. Se ele não alcançou o objetivo inicial de sua gestão -fazer com que o AEK voltasse a ser campeão-, pelo menos pode sair orgulhoso por ter conseguido manter a história de seu clube do coração. Nikolaidis será substituído pelos ex-vice-presidentes Takis Kanellopoulos e Nikos Koulis, donos, cada um de 13% das ações do clube.
Um caminho
E, talvez mais importante, Demis Nikolaidis mostrou uma saída para a situação de insolvência de muitos dos clubes gregos. Sua iniciativa, de certa forma, tem sido replicada com sucesso em outros clubes gregos que estavam em situação complicada, da mesma forma que o AEK em 2004.
O mais famoso deles é o PAOK. Os tessalônicos, sob o comando do campitão do Navio Pirata em 2004, Theo Zagorakis, também encontraram um grupo de investidores interessados em reerguer o clube. Depois de assumir o clube e abandonar a carreira, Zagorakis comanda o processo de reconstrução financeira do clube, que entra em sua segunda temporada.
Outro exemplo de Tessalônica, salvo pelo amor de um representante ilustre que salva o clube, é o Iraklis, que foi adquirido por um consórcio liderado pelo famoso cantor romântico Antonis Remos.
E esta lista pode crescer nos próximos dias. O ex-atacante Nikos Machlas estaria interessado em adquirir o controle do OFI Creta, atualmente no último lugar da Super League e que também estaria enfrentado problemas financeiros.