Distante do Olimpo

Como turbulência pouca é bobagem, não bastasse a tempestade financeira enfrentada pela Grécia nos últimos meses (e que, consequentemente, reflete em seus clubes), o Olympiacos deu início ao que deve ser a sua maior crise futebolística nos últimos anos. Depois de estar presente consecutivamente na Liga dos Campeões desde a temporada 1997/98, o clube não se classificou para a próxima edição da competição.
Assim como, aqui no Brasil, sempre acontece na Gávea ou no Parque São Jorge, qualquer fagulha já é motivo para iniciar os burburinhos de crise em Pireu. Nos últimos anos, a troca constante de técnicos – somente nesta temporada foram duas mudanças – e a insatisfação com o domínio “apenas” nacional, sem maiores resultados continentais, por si só, deflagravam problemas internos no Olympiacos. Agora, porém, as consequências são maiores. Não é só a ausência na Liga dos Campeões que é sentida, mas principalmente a falta dos milhões de euros que o campeonato rende ao clube. Como frisado na última coluna, foram 12,9 milhões de euros recebidos pela última participação. Em tempos de bancarrota econômica na Grécia, uma quantia nada descartável.
Se o apadrinhamento de Sokratis Kokkalis ao menos atenua os problemas financeiros para o Olympiacos, que deve ser uma das equipes menos afetadas pela tragédia vivida no país, o presidente não diminui a instabilidade política dentro do clube. Sua postura e as decisões por ele tomadas, principalmente as ligadas ao comando técnico do time, nem sempre são unânimes em Pireu.
Em consequência, os desencontros de bastidores não deixam de ser refletidos em campo e vice-versa. Durante as duas partidas ante o PAOK na última semana, ambas perdidas pelo placar de 1 a 0, os Thrylos atuaram como uma equipe prepotente. Sem buscar o resultado, mas também sem se resguardar da forma devida, foram presas fáceis para o bom futebol desempenhado pelos adversários. A apatia do atacante Lomana LuaLua e a insegurança transmitida pelo goleiro Antonios Nikopolidis, ídolo e capitão que falhou em ambos os jogos, representam a falta de empenho demonstrada pelo time.
A torcida, por sua vez, não deixa de se manifestar contrária ao que vem acontecendo dentro e fora dos gramados de Pireu. Antes do jogo decisivo contra o PAOK, que definiria o destino do Olympiacos, a impaciência era visível nas arquibancadas do estádio Karaiskakis. Após o apito final, porém, os torcedores não se contiveram e, além de protestar contra a própria equipe, ainda se confrontaram com as forças policiais e lançaram objetos contra os atletas. Uma garrafa foi atirada no autor do gol, Vlado Ivic, que arremessou o objeto de volta para as arquibancadas e iniciou uma confusão generalizada dentro do estádio. Jogadores de ambos os elencos tiveram que ser contidos para evitar uma briga ainda maior.
Para a próxima temporada, os sinais de desmanche dos Thrylos são evidentes. Dificilmente o treinador Bozidar Bandovic permanece no cargo. Nikopolidis, por sua vez, vem afirmando que a aposentadoria não deixa de ser cogitada. Além dele, jogadores como o argentino Jesús Dátolo, emprestado pelo Napoli, expuseram logo depois do jogo a vontade de se mudarem de Pireu.
Todas ponderações devidas ao Olympiacos, no entanto, também não tiram o mérito do PAOK no quadrangular final da Super League grega. O time, que perdeu três de seus cinco últimos jogos na temporada regular e caiu para a terceira colocação a três rodadas do fim, demonstrou a sua qualidade nos momentos decisivos. Apesar da desvantagem antes do início da fase final, na qual estava com um ponto a menos que o Olympiacos, a equipe não deu margem aos erros e permaneceu invicta.
Os dois jogos feitos contra os Thrylos, aliás, foram as maiores provas da qualidade da formação do clube tessalonicense. Na primeira partida, jogada no estádio Toumba, a pressão imposta pelos Dikefalos resultou no placar favorável, construído a partir de uma falha do goleiro Nikopolidis. Já na volta, atuando na casa dos adversários, o PAOK se fechou em um 4-5-1, preparando-se para jogar nos contra-golpes. E foi em um lance do gênero, ocorrido aos 33 minutos do primeiro tempo, que Vlado Ivic balançou as redes, após cruzamento de Zlatan Muslimovic. Apesar da tensão do jogo (foram distribuídos nove cartões amarelos e dois vermelhos), a equipe manteve a calma e, através de uma defesa bem postada, conteve os afobados ataques do Olympiacos e garantiu o resultado.
Os seis pontos de vantagem dos Dikefalos em relação aos Thrylos, somados a vantagem no confronto direto, os garantiram na próxima Liga dos Campeões, torneio do qual não participam desde 2005. E mesmo contando com uma boa base de jogadores, como o goleiro Kostas Chalkias, os meio-campistas Branko Ivic e Pablo García e o atacante Zlatan Muslimovic, o clube do brasileiro Lino (ex-São Paulo) ainda quer novos reforços. Quem encabeça a lista de contratações é o atacante selecionável Dimitris Salpingidis, formado no clube e que atualmente defende o Panathinaikos.
Exaltado no comando da equipe, o técnico Fernando Santos deve ter um grupo de jogadores ainda mais competitivo para a próxima temporada. O português faz um trabalho de reconstrução do time, tendo assumido o cargo pouco tempo depois do início da atual gestão administrativa. Campeão da Euro em 2004, o ex-meio-campista Theodoros Zagorakis tomou posse da presidência dos Dikefalos exatamente com o compromisso de livrar o PAOK da crise, nas finanças e no futebol, que sofria. Hoje, em grande fase, o clube colhe os resultados dos investimentos, das aplicações corretas de dinheiro e do apoio massivo da torcida. Um bom exemplo para o Olympiacos?
Turquia: O retorno do Trabzonspor, o retorno de ?enol Güne?
A intenção do Fenerbahce em conquistar a dobradinha na Turquia foi frustrada na última semana. O clube não suportou a pressão imposta pelo Trabzonspor e, mesmo abrindo o placar aos dez minutos do segundo tempo (com mais um golaço de Alex, diga-se), permitiu que os adversários virassem o placar para 3 a 1 e ficassem com o título da Türkiye Kupas?.
Mais que o rótulo de campeão, o Trabzonspor saiu com forças renovadas para a próxima temporada. O clube, seis vezes campeão turco, até vinha de boas campanhas nas últimas temporadas, mas ainda não tinha provado que poderia voltar a ser um concorrente direto por troféus como era em seu passado. Excetuando-se as classificações para as últimas edições da Liga Europa (antiga Copa da UEFA), o único feito de real expressão veio na temporada 2004/05. Naquela oportunidade, a equipe conquistou uma vaga na Liga dos Campeões pelo vice-campeonato turco, um ano após ter ganhado a sua última Copa da Turquia.
Um ponto em comum une a história do atual time com aquele da temporada 2004/05: o treinador é o mesmo, o vitorioso ?enol Güne?. Se no Brasil e no resto do planeta Güne? é mais lembrado por sua passagem pela seleção turca, na qual levou a equipe ao terceiro lugar na Copa do Mundo de 2002, em seu país de origem ele é quase um sinônimo de Trabzonspor. E, mais ainda, dentro do clube, o nome de Güne? é prontamente ligado a títulos.
O atual técnico era o goleiro dos Karadeniz Firtinasi durante o período de maior prestígio na história da equipe. Filho ilustre da cidade, chegou ao Trabzonspor em 1975 e logo na sua primeira temporada ergueu o primeiro título turco do clube. Durante os doze anos nos quais defendeu a meta da equipe, tornou-se capitão e levantou mais cinco ligas nacionais, além de três copas e seis supercopas. Ao aposentar-se, em 1988, prontamente assumiu o banco de reservas do time. Ao todo, foram quatro passagens como treinador em Trabzon.
A sua última estadia no clube foi exatamente na temporada de 2004/05, logo após sair da seleção turca. Permaneceu tempo o suficiente para chegar em segundo na Super Lig, mas não resistiu a uma proposta do futebol turco. Feito um messias de Trabzon, Güne? voltou ao time de coração neste ano e, logo em sua reestreia, demonstrou a sua estrela ao vencer mais um título.
Apesar de não ter apresentado um desempenho regular na liga nacional, na qual o Trabzonspor perdeu pontos contra adversário frágeis e não passou da quinta posição, o elenco dirigido por ?enol Güne? apresenta boas peças. A começar pelos defensores, fortalecidos pela presença do zagueiro Rigobert Song, capitão de seu clube e que estará presente em sua quarta Copa do Mundo em 2010. Já o argentino Gustavo Colman e o brasileiro Alanzinho, cria das categorias de base do Flamengo, são os homens de criatividade do time. Armados em um 4-5-1 que se transforma em um 4-3-3 nos avanços da equipe, Umut Bulut, artilheiro do time há seis temporadas, joga centralizado no ataque.
Durante a decisão contra o Fenerbahce, o setor mais elogiado do time foi o meio-de-campo. Compacto, o time bloqueou a intermediária e logo deu sinais que dificultaria bastante as subidas dos Canários Amarelos ao ataque. Além disso, os seus contra-ataques foram fatais. Em jogadas em velocidade, feitas a partir do lado direito da defesa do Fener, é que saíram os dois gols decisivos da partida.
Agora, com a temporada sem maiores pretensões para os Karadeniz Firtinasi, o Trabzonspor já se prepara para o próximo ano. Por ter sido o vencedor da Türkiye Kupas?, o clube poderá participar da próxima edição da Liga Europa. E se o time deixou má impressão neste ano por cair prematuramente nas fases qualificatórias do torneio, a intenção é chegar ao menos na fase de grupos. Ao menos com ?enol Güne? no banco de reservas, a equipe já demonstrou sua aptidão para as conquistas.



