Europa

Depois de três anos vazios, Celtic e Rangers reavivaram a paixão e a tensão do Dérbi de Glasgow

Durante quase três anos, qualquer oportunidade era válida. Os jogos das categorias de base lotavam as arquibancadas. Porque o Dérbi de Glasgow não poderia ser vivido em plenitude. A espera desde abril de 2012, no entanto, se encerrou neste domingo. Todas as cores, os gritos, as músicas, as bandeiras (da Irlanda e do Reino Unido) e os insultos estavam de volta nas arquibancadas do Hampden Park. Celtic e Rangers voltavam a se enfrentar, pela semifinal da Copa da Liga Escocesa. A tensão, especialmente, estava de volta ao ambiente. E os alviverdes acabaram honrando o seu nome no clássico, com a vitória por 2 a 0 que os leva à decisão contra o Dundee United.

HISTÓRIA: Uma coisa une as torcidas de Celtic e Rangers: a independência da Escócia

As provocações entre ambas as partes duraram semanas. Os torcedores do Celtic chegaram a publicar um artigo em jornal sobre os rivais que causou a fúria do Rangers. Dentro do estádio, ainda assim, os ânimos acabaram controlados. A segurança era reforçada, ainda que as divisões entre o verde e o azul nas arquibancadas fossem mínimas. Os rivais que se xingam também sabem se respeitar, e até caminhar de mãos dadas, como no episódio recente sobre o referendo da Escócia.

Quando a bola rolou, entretanto, a igualdade na empolgação não se manteve em campo. A crise financeira que levou o Rangers à falência deixou como legado um elenco bem mais modesto do que o de outros tempos. Os alviazuis subiram duas divisões nas últimas duas temporadas, mas não consegue sobrar tanto assim na segundona. É o segundo colocado, muito longe do líder Hearts, e provavelmente terá que disputar os playoffs de acesso. Contra o Celtic, então, as forças estavam longe do suficiente.

A vitória do Celtic começou a se desenhar logo aos 10 minutos, quando Leigh Griffiths apareceu no meio da defesa do Rangers para estufar as redes com uma cabeçada certeira. Pouco tempo depois, foi a vez de Kris Commons ampliar, acertando um chutaço de fora da área, sem chances para o goleiro. O domínio ofensivo era todo dos Bhoys. Mesmo quando os azuis saíram para a pressão, os alviverdes mantinham a tranquilidade.

LEIA MAIS: Juntos, Celtic e Rangers criaram uma das ações solidárias mais legais deste Natal

A Old Firm vive um dos momentos de maior disparidade entre os dois rivais. Contudo, este clássico pode ser o início da recuperação do clássico. Por mais que possa desfrutar com mais tranquilidade do topo do Campeonato Escocês, o Celtic perde grandeza sem os arqui-inimigos. Falta competitividade, mesmo um apetite que não se resuma apenas à dominância sem rivalizar. Da mesma forma como o Rangers depende do clássico para trazer novo brilho a sua história, e mesmo se recuperar da bancarrota. Todos na Escócia lucram com a volta da velha firma, principalmente do ponto de vista financeiro, em um futebol que perdeu cor sem o dérbi.

Já a torcida, revive aquela razão de torcer que nunca perdeu, mas que estava adormecida. Afinal, se o futebol se faz tão apaixonante, muito se deve à maneira como as rivalidades se representam. E o exemplo de Glasgow vai muito além do jogo, representando a história e a vida da cidade em vários aspectos – o religioso, o político, o econômico. Um simples jogo basta para retomar esse espírito. A tensão daquele que é considerado por muitos como o maior clássico do mundo.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo