Um guia para acompanhar a final da Conference, entre Feyenoord e Roma
A Conference apresentará seu primeiro campeão numa final de ótimas histórias em Tirana

A Uefa não pode reclamar da sorte que deu na primeira edição da Conference League. O torneio cumpriu o propósito de dar mais espaço às ligas secundárias, mas sem deixar de contar com clubes de peso fazendo boas campanhas. A decisão até garante camisas mais pesadas que o imaginado inicialmente. Mas não se pode negar que uma final com dois times como Feyenoord e Roma é muito legal, ainda mais sabendo o que a conquista do troféu inédito pode representar a cada um deles. Boas histórias serão contadas em Tirana nesta quarta-feira, independentemente de quem vencer.
Para esquentar os motores antes da final da Conference (com transmissão às 16h por ESPN, Star+, TV Cultura e SBT), preparamos um guia para acompanhar a partida. Falamos sobre a trajetória dos times, o retrospecto, os destaques e os treinadores. Também apontamos alguns motivos para escolher um time ou outro na hora de torcer, já que ambos têm potencial para se transformarem em campeões bem bacanas.

A campanha até a final
O Feyenoord entrou na segunda fase preliminar da Conference e sofreu para superar o Drita, de Kosovo. Após o empate por 0 a 0 fora, a classificação se confirmaria com um 3 a 2 definido aos 45 do segundo tempo. O Stadionclub fez um duplo 3 a 0 sobre o Luzern, antes de superar o Elfsborg, com os 5 a 0 em casa permitindo a derrota por 3 a 1 na Suécia – a única da caminhada até aqui. Durante a fase de grupos, o Feyenoord passou invicto pela chave mais difícil, contra Slavia Praga, Union Berlim e Maccabi Haifa. Como líder, avançou direto às oitavas, onde não deu chances ao Partizan, com um 5 a 2 e um 3 a 1 sob a inspiração de seu ataque. Depois se reencontrou com o Slavia nas quartas. Faria um insano 3 a 3 em Roterdã e ganharia com autoridade nos 3 a 1 de Praga. Por fim, na semifinal, o encontro com o Olympique de Marseille. A situação se encaminhou com um jogaço, vitória por 3 a 2 no De Kuip, até que o 0 a 0 no Vélodrome bastasse.
A Roma entrou na última fase preliminar da Conference e teria uma boa classificação num confronto ardiloso com o Trabzonspor, somando duas vitórias. A fase de grupos veio e os giallorossi empurraram com a barriga. Passaram em primeiro, aproveitando os duelos com CSKA Sofia e Zorya Luhansk, mas sofrendo diante do Bodo/Glimt, com direito aos 6 a 1 históricos sofridos na Noruega. Os romanistas também não transmitiram confiança nas oitavas, quando tiveram mais sorte que juízo diante do Vitesse, com o 1 a 0 na Holanda e o 1 a 1 na Itália arrancado no apagar das luzes. O time entrou de cabeça no torneio nas quartas, ao se reencontrar com o Bodo/Glimt e perder por 2 a 1 num jogo quente fora de casa. A torcida cresceu no Olímpico e aplaudiu um 4 a 0. Já as semifinais diante do Leicester viram a equipe de José Mourinho ser dominante mesmo sem precisar de muitos gols. Segurou o empate por 1 a 1 fora e avançou com o 1 a 0 relativamente confortável em casa.

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O saldo da temporada doméstica
O Feyenoord passou longe de competir com Ajax e PSV pelo título da Eredivisie. Entretanto, isso não significa que a campanha da equipe foi ruim. O Stadionclub teve momentos de brilho, como os 4 a 0 para cima do PSV e o primeiro tempo do que viraria uma derrota por 3 a 2 para o Ajax. Considerando o estágio de evolução da atual equipe, numa temporada de transição, os 71 pontos já foram louváveis. Não à toa, esse foi o segundo melhor desempenho do clube na liga nacional durante os últimos 15 anos, só perdendo mesmo para a campanha do título em 2016/17. O maior pesar veio na Copa da Holanda, com a eliminação logo na fase de entrada, mas num duelo difícil contra o Twente só decidido na prorrogação.
A Roma terminou a Serie A na sexta colocação. Não é uma campanha ruim, diante dos recursos de quem esteve dentro do G-4. Mas o time acabou derrapando nos momentos em que prometia engrenar. Durante o primeiro turno, as derrotas em confrontos diretos foram custosas. Já na segunda metade, os 4 a 3 sofridos diante da Juventus se sugeriam traumáticos, até que os giallorossi respondessem com uma longa série invicta, que incluiu os incontestáveis 3 a 0 sobre a Lazio no dérbi. A guinada permitiu a vaga na Liga Europa sem muitos problemas e, quando as derrotas voltaram a ocorrer, a equipe já estava com a cabeça totalmente voltada para a Conference. Na Coppa, a queda para a Inter era compreensível.

A história europeia
O Feyenoord despontou no cenário continental durante os anos 1960, com direito a uma semifinal de Champions em 1963. Era uma prévia antes que o Stadionclub colocasse a Holanda pela primeira vez no topo da Europa, com o troféu da Champions faturado sobre o Celtic em 1970. A equipe acabou eclipsada pelo Ajax na sequência, mas pôde levar uma Copa da Uefa em 1974. As décadas de 1980 e 1990 foram bem mais contidas, com destaque a três semifinais na Recopa. E uma nova fase imponente no início do século permitiu a conquista da Copa da Uefa em 2001/02, numa campanha memorável pelos adversários batidos e também pelo gosto de levar a taça no próprio De Kuip. Depois disso, o clube de Roterdã lidou com um período de baixa que se refletiu em raras aparições na Champions e desempenhos na Liga Europa que mal passavam da fase de grupos. O que o Feyenoord apronta nessa Conference é fora da curva para o retrospecto dos últimos 20 anos.
A Roma se tornou o segundo clube italiano a conquistar uma competição europeia, em 1960/61, ao levar a Copa das Cidades com Feiras – um torneio que não é reconhecido oficialmente, mas antecedeu a atual Liga Europa. As aparições no certame foram costumeiras na década de 1960, até uma ausência mais longa entre os anos 1970, com o ponto alto numa semifinal de Recopa. Os romanistas voltaram a bater cartão nos campeonatos da Uefa durante a década de 1980, quando se fortaleceram e estrearam na Champions, com o vice de 1984. Já a década de 1990 guardaria campanhas na Copa da Uefa, também com o vice de 1991. Após a virada do século, os romanos jogaram mais vezes a Champions e se firmaram na fase de grupos. As caminhadas voltaram a se alongar mais recentemente, com a semifinal da Liga dos Campeões em 2018 e da Liga Europa em 2021. A Conference permite agora o passo além até a decisão que não vinha há 31 anos.

Destaques na defesa
O Feyenoord conta com um dos melhores goleiros da atualidade na Eredivisie, Justin Bijlow, que assumiu a titularidade da seleção na reta final das Eliminatórias. Porém, com uma lesão no pé, acabou substituído nos mata-matas da Conference por Ofir Marciano, dono da meta de Israel. Biljow, no entanto, se recuperou a tempo para disputar justamente a final. O miolo da zaga é liderado por Marcos Senesi, titular do clube há três temporadas e reconhecido com a convocação para a seleção argentina. Seu parceiro é Gernot Trauner, reforço recente vindo do LASK Linz e que se adaptou bem a Roterdã. E as laterais também contam com ótimas peças. Lutsharel Geertruida e Tyrell Malacia são dois jovens de extremo potencial, ambos criados na própria base. Pela esquerda, Malacia também vira opção de Van Gaal na Oranje e pode sair na próxima janela.
O goleiro titular da Roma é Rui Patrício, que não vive o melhor momento da carreira, mas possui um currículo que fala por si. Não se menospreza quem foi tão decisivo no título de Portugal na Eurocopa de 2016. Na defesa, outro experiente é Chris Smalling, que se redescobriu na Itália. O inglês parecia fadado ao declínio de sua carreira e ganhou muito moral na Serie A. Gianluca Mancini é um nome importante e tem a companhia de Roger Ibañez, dois com passado na Atalanta e que se firmaram nas últimas temporadas com os giallorossi.

Destaques no meio
O Feyenoord tem um volante que usa a camisa 10 e possui qualidade: Orkun Kökçü, um dos melhores da equipe na Conference. Bate bem na bola e contribui muito ofensivamente. O parceiro mais comum por ali é o norueguês Fredrik Aursnes, trazido do Molde e um dos motivos da estabilidade do time. Também há a opção do polivalente Jens Toornstra, dono da braçadeira e um dos remanescentes do título nacional, que entra em diferentes posições. Já na ligação, Guus Til chegou do Freiburg para se tornar um dos melhores jogadores do time, com enorme poder de finalização – mas que não faz uma Conference tão boa quanto sua Eredivisie.
Formado no próprio Feyenoord, Rick Karsdorp cumpre seu papel na ala direita e ganhou confiança na Roma durante as últimas duas temporadas. Ainda assim, mais importante será o nome da ala esquerda. Pode ser Nicola Zalewski, grande revelação do clube em 2022 e brilhante nos mata-matas da Conference. Mas a melhor notícia está na recuperação recente do ótimo Leonardo Spinazzola, que ganhou minutos nas últimas rodadas da Serie A após meses se recuperando da grave lesão ligamentar. O herói da Euro 2020 não é o único jogador da seleção, e Lorenzo Pellegrini vive uma temporada excelente de resposta, após ser deixado de fora da conquista da Azzurra. É decisivo em vários momentos. A faixa central é o setor mais bem servido dos romanistas, ainda com Bryan Cristante, Sérgio Oliveira e Jordan Veretout podendo ser escalados.

Destaques no ataque
Luis Sinisterra ocupa a ponta esquerda do Feyenoord e se coloca como forte candidato a craque do torneio. O colombiano teve algumas atuações deslumbrantes, em especial nos 5 a 2 para cima do Partizan. São seis gols e quatro assistências na competição. Já o lado direito fica com Reiss Nelson, emprestado pelo Arsenal e uma arma pelas transições rápidas. Na referência, Cyriel Dessers mistura potência e oportunismo, com mais gols na Conference que na Eredivisie – na qual frequentou mais o banco. Foram 10 tentos na competição europeia, decisivo nas vitórias sobre Slavia e Olympique. O banco oferece alternativas interessantes. Bryan Linssen foi o centroavante titular na liga nacional e Alireza Jahanbakhsh mete a correria na ponta durante os minutos finais.
Muita gente esperava que Tammy Abraham pudesse se dar bem na Itália, mas o desempenho do centroavante na Roma supera as expectativas. São 27 gols anotados por todas as competições, incluindo nove em 12 aparições pela Conference. Foi repetidamente salvador no torneio, sobretudo nos mata-matas, com os gols que valeram as classificações contra Vitesse e Leicester. Seja pela presença de área ou pela potência, figura entre os melhores de sua posição no futebol italiano. Quem o acompanha com mais frequência é Nicolò Zaniolo, saudável nesta temporada, mas com brilhantismos pontuais. Na Conference, o Bodo/Glimt sofreu nas quartas. Henrikh Mkhitaryan é um dos mais experientes, funcionando como meia ou ponta, a depender da formação. Stephan El Shaarawy e Eldor Shomurodov são alternativas vindo do banco, assim como o garoto Felix Afena-Gyan.

O técnico
Arne Slot está entre os treinadores mais promissores da Holanda. Aos 43 anos, teve seu primeiro trabalho principal à frente do AZ. Comandou uma fornada de talentos e perseguiu o Ajax pelo título na temporada interrompida pela pandemia em 2019/20. Deixou Alkmaar em dezembro de 2020, quando já tinha acertado com o Feyenoord para a temporada seguinte. Renova os ares no Estádio de Kuip com uma equipe agressiva e de bons recursos. Ainda levou um tempo até arredondar o time, mas os mata-matas da Conference apresentam um concorrente que atua de peito aberto e supera adversidades, mesmo quando precisa negar seu jogo e se fechar mais.
É muito legal ver a conexão de José Mourinho com a Roma nesta primeira temporada e a maneira como ele trata a Conference League. A empolgação do veterano com o torneio é um dos motivos que ajudam a criação da Uefa a emplacar logo de cara. Mou tem sua prateleira europeia cheia. Levou Copa da Uefa e Champions com o Porto, repetiu a Champions com a Internazionale, entraria na fase Liga Europa com a taça para o Manchester United. Como assistente no Barcelona, também esteve presente em títulos de Recopa e Supercopa. Agora quer completar a galeria com a Conference. É um profundo conhecedor dos atalhos continentais e a forma como injetou energia nos giallorossi durante as últimas semanas impressiona. Chegarão babando em Tirana.

Por qual torcer
O Feyenoord é um dos clubes de torcida mais apaixonada da Europa e possui um ambiente único no Estádio de Kuip. A festa da comemoração será incrível, pensando até no que aconteceu após a conquista da Eredivisie em 2016/17. Levar o troféu para uma liga diferente das grandes é importante, e os holandeses têm feito um bom trabalho para recobrar seu prestígio internacional durante os últimos anos. Também é a chance de premiar um grupo que está em pleno crescimento e possui jogadores com potencial. Pode ser um primeiro passo a uma carreira bem maior, especialmente a Arne Slot.
A Roma tem uma sinergia enorme com sua torcida e isso se nota nesta Conference. Depois de tanto sofrimento, os giallorossi merecem um descanso. É um clube que não leva um troféu continental há mais de seis décadas e que pode ter alegrias de vez em quando, no lugar dos fracassos. O próprio futebol italiano se beneficiaria com esse troféu, já que são 12 anos sem um título continental sequer. E, para quem gosta de Mourinho como personagem, sua reação com a possível taça não deixa de gerar expectativas.



