O futuro ainda é amplo para Zaniolo, mas o gol do título na Conference o confirma como um predestinado da Roma
Os romanistas sempre tiveram muita esperança em Zaniolo e certamente não imaginavam que ele retribuiria tão rápido, para virar herói de uma grande história do clube
A Roma é um clube que não ganha ídolos, ela os cultiva. Boa parte das lendas romanistas nasceram para o futebol com a camisa giallorossa e permaneceram assim até o final de suas carreiras. Nicolò Zaniolo até parece fadado a ser mais um destes. O atacante não começou nas categorias de base romanistas, mas o início de sua caminhada se assemelha ao de tantos gigantes da Loba: é o prodígio que encanta, que surge como um talento arrebatador, que acaba adotado pela torcida. Tantas vezes, esse rei precoce é escolhido como o guardião das esperanças de uma massa sofrida, com glórias esparsas. E se ainda é muito cedo para dizer se Zaniolo, aos 22 anos, defenderá a Roma por tanto tempo, ele já transforma em realidade o sonho de sua gente. Marca o gol que encerra uma seca de 14 anos e garante um título europeu que os romanistas não vivenciavam há mais de 60. É o predestinado que, desde já, se grava em cada coração giallorosso.
Zaniolo se casou tão bem com a Roma que seu passado por outros clubes soa até estranho, mesmo que só tenha desembarcado na capital em 2018. Outras agremiações tradicionais do país tiveram a chance de contar com o craque em potencial. Começou no Genoa, passou seis anos na Fiorentina, teve uma estadia rápida no Virtus Entella – onde chegou a estrear pela Serie B quando tinha 17 anos. A Internazionale pagou €1,8 milhão em sua transferência em 2017 e tinha consciência da capacidade do atacante, embora tenha limitado seu espaço à base. Os nerazzurri acabaram perdendo a promessa, envolvida no negócio que levou Radja Nainggolan a Milão. Os romanistas certamente são gratos até hoje à decisão.
A Roma não precisou esperar muito para ter certeza de que Zaniolo era um jogador especial. O adolescente integrou-se logo de cara ao elenco profissional e passou a ser usado pelo técnico Eusebio Di Francesco. Os giallorossi não demoraram a identificar seu predestinado: um dia depois do Natal de 2018, saiu o seu primeiro gol, e num lance deslumbrante contra o Sassuolo. O atacante cortou o primeiro marcador, fingiu o chute para deixar o goleiro no chão e teve calma para um toquinho por cobertura que complementava a pintura. O novo xodó despontava.
Zaniolo teve algumas atuações estelares em sua primeira temporada, arrebentou até na Champions League. A ascensão seguiu também no segundo semestre de 2019, com outros jogos de peso do novato. Porém, em janeiro de 2020, a ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho tirou o garoto dos gramados por seis meses. Conseguiria voltar para a reta final da temporada, atrasada por conta da pandemia, e tentou recuperar a confiança com novos gols. Isso até que outro baque viesse em setembro de 2020, com nova ruptura dos ligamentos. O jovem perdeu a temporada inteira de 2020/21. Pior, não conseguiria retornar a tempo para disputar a Euro 2020. De longe veria os companheiros triunfarem, num elenco em que também poderia ser um diferencial.
O recomeço de Zaniolo acontece exatamente nesta temporada de 2021/22. O atacante de 22 anos precisou se adaptar ao sistema de José Mourinho, ao sair da ponta para se tornar um segundo atacante, e recobrar a própria segurança em seu físico. Os lampejos seriam mais esporádicos, sem causar a sensação de outros tempos na Serie A, apesar de algumas boas atuações. A Conference, entretanto, tratou de recolocar o prodígio no imaginário dos torcedores.
Zaniolo teve bons momentos nas fases iniciais e deu a assistência para a vitória sobre o Vitesse nas oitavas. Sua eclosão na competição, todavia, ficou para o jogo que realmente colocou a Conference no gosto da torcida. A Roma tinha sofrido os humilhantes 6 a 1 para o Bodo/Glimt na fase de grupos e o reencontro nas quartas de final proporcionou um embate tenso na Noruega, com vitória dos aurinegros por 2 a 1 e tumulto. A massa romanista se uniu ao redor do time e abraçou a campanha exatamente no duelo de volta, com o desejo de revanche no Estádio Olímpico. Foi Zaniolo quem desatou a vingança, com três gols nos 4 a 0 e uma nova face de sua predestinação.
Na semifinal contra o Leicester, Zaniolo não precisou ser tão desequilibrante. Porém, voltaria a aparecer como herói na decisão em Tirana. Não foi uma final de encher os olhos contra o Feyenoord, longe disso. Não é uma Roma de encher os olhos, afinal, mas um time que aprendeu a ser eficiente em tantos momentos. O camisa 22 culminou essa imagem com a cravada fatal que valeu a vitória por 1 a 0 e o título da Conference. Depois do erro de Gernot Trauner, o atacante até pareceu dominar a bola meio no susto. Ainda assim, teve recurso para, num curto espaço, dar um leve toque e encobrir o goleiro Justin Bijlow. Seu destino estava traçado: era o alto do pódio.
Aos 22 anos, Zaniolo tem um mundo pela frente. Não dá para afirmar que se aproximará de alguma forma de Francesco Totti ou Giuseppe Giannini. Talento e qualidade não faltam, embora as lesões recentes tenham seu impacto. Entretanto, marcar um gol em final continental é daqueles estalos que podem fazer qualquer prodígio voar mais alto. Talvez esse tento seja uma anunciação de seu futuro. Os romanistas, de qualquer forma, já podem se sentir satisfeitos. Não foi necessário atravessar anos de penúria vendo Zaniolo brilhar em vão para ter a certeza de que o atacante é um personagem histórico do clube. Esse troféu o credencia a isso, mesmo que não vire lenda. E vai ser sempre bom pensar no prodígio que arrebatou tanta gente, reergueu-se depois de tremendas dificuldades e ensinou à maioria dos giallorossi o gosto que uma conquista continental possui.



