Como foi o primeiro título continental da Fiorentina: A conquista da Recopa Europeia de 1960/61
Os "Leões de Glasgow" venceram o Rangers na decisão da Recopa Europeia e conquistaram o troféu na primeira edição do torneio continental

A Fiorentina possui uma tradição nas competições continentais traduzida em finais. A Viola disputará a decisão da Conference League 2022/23, depois de ter sido finalista em outras três copas europeias distintas. Mas se o clube não passou do vice na Copa dos Campeões e na Copa da Uefa, possui um capítulo glorioso para relembrar na Recopa Europeia: os violetas são exatamente os primeiros campeões do antigo torneio que reunia os vencedores das copas nacionais. Na época, o certame sequer era reconhecido pela Uefa. Mesmo assim, a Fiorentina protagonizou uma grande campanha em 1960/61, quando derrotou fortes adversários como Dinamo Zagreb e Rangers. Ficou eternizada a fama dos “Leões de Glasgow”, numa equipe protagonizada pelo lendário Kurt Hamrin e treinada por Nándor Hidegkuti. Aquela taça que volta à tona numa semana em que o clube sonha com outra façanha além das fronteiras.
A Fiorentina é um clube de grande peso desde suas origens. A fundação aconteceu em 1926, num contexto específico dentro do regime fascista e comum a vários clubes italianos. Para fortalecer o esporte nas principais cidades do país e criar uma Serie A nacional, espalhada pelo território, a ditadura de Benito Mussolini incentivou a fusão de diferentes equipes em cada município para a formação de potências locais. Foi o que aconteceu com a Viola, nascida a partir da união do Club Sportivo Firenze e da Palestra Ginnastica Libertas. Os florentinos de início usavam um uniforme vermelho e branco, em referência às cores da cidade, até que um processo errado de lavagem criou o violeta que se tornou célebre. Já a ascensão à recém-criada Serie A aconteceu logo nos primórdios do campeonato, em 1931.
A Fiorentina se firmou como um clube importante na Serie A logo na década de 1930, com boas campanhas na parte de cima da tabela. E esse sucesso inicial permitiu que a Viola disputasse sua primeira competição continental antes mesmo da criação da Uefa. A estreia além das fronteiras aconteceu em 1935, na antiga Copa Mitropa, que reunia os melhores clubes da Europa Central num torneio transnacional. Os violetas terminaram com a terceira colocação no Campeonato Italiano em 1934/35 e participaram da copa continental. A primeira fase saiu melhor do que a encomenda, com a classificação para cima do Újpesti, campeão húngaro. Os florentinos ganharam os dois jogos, por 2 a 0 e por 4 a 3. A eliminação se deu apenas nas quartas de final, diante do Sparta Praga, que ficaria com o troféu. Os tchecoslovacos ganharam por 7 a 1, mas chegaram também a perder por 3 a 1.
A Fiorentina passou brevemente pela Serie B no fim da década de 1930, mas voltou à elite e logo seria campeã da Copa da Itália em 1939/40. Ao longo da década de 1940, os violetas se mantiveram na primeira divisão, como um time de boas campanhas, mas sem passar do terceiro lugar. A era dourada começaria mesmo em Florença durante os anos 1950. Algumas figuras centrais permitiram a formação do esquadrão. Primeiro, com a promoção de Artemio Franchi entre os principais dirigentes do clube. O futuro presidente da Uefa teria grande participação no mercado de contratações da Viola. Ainda assim, o salto competitivo se tornou mais claro a partir de 1953, quando Fulvio Bernardini se tornou o técnico. Antigo jogador da seleção italiana, o comandante proporcionou um encaixe tático revolucionário na época. O recuo de um ponta para auxiliar no meio e de um médio para jogar como líbero passou a garantir mais poder de marcação. Com muita força defensiva e valorização dos talentos individuais no ataque, a Fiorentina começou a sonhar com os principais títulos da Itália – e da Europa.
A Fiorentina terminou a Serie A 1953/54 com um expressivo terceiro lugar, antes de cair para a quinta colocação em 1954/55. Formava-se um time com grande capacidade competitiva e ambições cada vez maiores. O quadro que seria campeão. O sistema defensivo daquela Viola começou a ser moldado ainda no fim da década de 1940. Ardico Magnini, Francesco Rosetta e Sergio Cervato formavam a trinca principal, com Giuseppe Chiappella e Armando Segato mais à frente, além do jovem Giuliano Sarti no gol. Também merecia menção Alberto Orzan, uma espécie de 12° homem e futuro capitão violeta. Já o quinteto ofensivo se valeu de adições um pouco mais tardias. Maurilio Prini era o mais antigo no elenco, desde 1952 no grupo, como uma peça importante por sua função tática. Guido Gratton desembarcou em 1953 para auxiliar na construção do meio-campo, enquanto Giuseppe Virgili servia de referência no ataque a partir de 1954. Em 1955, o toque final de talento seria garantido por dois estrangeiros: o argentino Miguel Montuori, com ótima chegada na área, e o brasileiro Julinho Botelho, virtuoso na ponta direita. Com esse time é que a Fiorentina conquistou seu primeiro Scudetto, em 1955/56.

Aquela Fiorentina sobrou no topo da tabela para ser campeã. Assumiu a liderança em meados do primeiro turno e não saiu mais da dianteira. O Scudetto veio com cinco rodadas de antecedência e, ao final da campanha, a equipe sustentou uma vantagem de 12 pontos, em tempos de só dois pontos por vitória. Tal desempenho credenciou a Viola como uma das favoritas na Copa dos Campeões da Europa de 1956/57. E o esquadrão impôs respeito também além das fronteiras. A campanha começou com classificações diante de Norrköping e Grasshoppers, até que a Viola passasse nas semifinais por um time fortíssimo do Estrela Vermelha. A invencibilidade só caiu na decisão, contra o então campeão Real Madrid, que ainda tinha a vantagem de ser apoiado por 124 mil torcedores no próprio Bernabéu. Sarti ainda tentou evitar o pior, mas Alfredo Di Stéfano (num pênalti controverso) e Paco Gento asseguraram os 2 a 0 para os merengues diante de sua torcida.
A partir de então, os vices começariam a atormentar a Fiorentina. A equipe também ficou na segunda colocação da Serie A em 1956/57, embora distante de competir com o campeão Milan. Seriam outros três vices consecutivos na liga até o final da década. A Viola não conseguiu competir de fato com a Juventus em 1957/58 e em 1959/60, mas se alternou mais na ponta com o Milan campeão em 1958/59. Como se não bastasse, o time perdeu duas finais da Copa da Itália no mesmo período. E o troféu que escapou em 1958 simbolizaria muito do que se transformava em Florença naquele momento. A campeã foi a Lazio, com uma equipe que havia acabado de levar Fulvio Bernardini para o seu comando técnico e que contou com o gol decisivo na final de Maurilio Prini, fazendo valer a Lei do Ex contra os violetas.
O final da década de 1950, afinal, demarcou um período no qual a Fiorentina passou por um sucessivo desmanche em relação ao time campeão do Scudetto e vice da Champions. O sistema defensivo incontestavelmente envelhecia. Exceção feita ao goleiro Sarti, a maioria dos jogadores que compunha a Viola do meio para trás deixara o pico de suas carreiras na virada rumo aos anos 1960. Já o ataque perdia referências. Julinho voltou para o Brasil ao assinar com o Palmeiras em 1958, mesmo ano em que Virgili rumou ao Torino e Prini desembarcou na Lazio. Gratton também não teria uma permanência tão mais longa, partindo ao Napoli em 1960. De toda a espinha dorsal campeã, apenas Montuori e Orzan adentraram na década seguinte com a camisa violeta.
Por isso mesmo, aquela sequência de vices na década de 1950 deve ser tratada como um período de transição na Fiorentina, não necessariamente de continuidade. A saída de Fulvio Bernardini do comando técnico representava o maior rompimento, pela importância que o treinador teve em seus cinco anos à frente da equipe. A diretoria violeta apostaria alto em seus substitutos. O primeiro escolhido foi o húngaro Lajos Czeizler, responsável por montar o célebre Milan do trio Gre-No-Li no início dos anos 1950 e também comandante da seleção italiana na Copa do Mundo de 1954. Seria ele o responsável por uma transformação entre a maior preocupação defensiva de Bernardini para um estilo de jogo mais ofensivo. Depois, os florentinos recrutaram Luis Carniglia, argentino que tinha levado o Campeonato Francês com o Nice e depois foi multicampeão em suas duas temporadas à frente do Real Madrid, com dois troféus da Champions e outro do Campeonato Espanhol.
Já em campo, os novos treinadores se tornaram responsáveis pela passagem de bastão dos jogadores em relação ao time campeão do Scudetto. A defesa ganharia uma nova referência com a chegada de Enzo Robotti, da Juventus, em 1957. Imprescindível à Viola e também frequente na seleção, ganharia a braçadeira de capitão no futuro. No ano seguinte, Kurt Hamrin veio para se firmar como a principal estrela no ataque. O ponta direita revelado pelo AIK não emplacou na Juventus por causa das lesões, mas se recuperou no Padova. Seria o escolhido para substituir Julinho Botelho a partir de 1958. O sueco não era tão virtuoso quanto o brasileiro, mas compensava com sua impetuosidade, sua velocidade e seu faro de gol. Estrela da Suécia vice-campeã do mundo em 1958, colocou-se como uma lenda em Florença.

Um dos méritos da Fiorentina no fim da década de 1950 foi contratar tantos jogadores de talento que mantiveram a equipe em altíssimo nível, mesmo com várias perdas sensíveis. Também em 1958, Gianfranco Petris virou outra alternativa importante no ataque, enquanto Giuliano Sarti ganhava uma sombra no gol com a contratação do promissor Enrico Albertosi. Já em 1959, a principal adição foi Sergio Castelletti, contratado junto ao Torino e que se estabeleceu como uma das lideranças violetas na década seguinte. Aos poucos, a nova equipe criava casca com suas campanhas de relevo nas competições nacionais. Faltava apenas voltar a ser campeã.
A Fiorentina teve amplas mudanças rumo à temporada 1960/61 e tentava uma guinada. Czeizler reassumiu o comando técnico no lugar de Luis Carniglia, enquanto o mercado movimentado garantiu mais reforços. Rino Marchesi vinha da Atalanta para auxiliar na organização defensiva do time, enquanto Luigi Milan e Dante Michele garantiam novas possibilidades na ligação pelo meio. Já o ataque recebia por empréstimo Dino da Costa, revelado pelo Botafogo e que tinha sido o grande artilheiro da Roma nas temporadas anteriores. Outro brasileiro a acompanhá-lo era Antoninho, que havia jogado com Julinho no Palmeiras, mas vinha do Botafogo de Ribeirão Preto como uma aposta.
Com tantas novidades, a Fiorentina se preparou para outra decisão da Copa da Itália. A final referente a 1959/60 acabou realizada apenas no início da temporada seguinte, em setembro de 1960. A Juventus, que buscava a dobradinha nacional, era o grande desafio. E a Viola amargou mais um vice. Num jogo de duas viradas no San Siro, a Velha Senhora buscou a vitória por 3 a 2 na prorrogação, mesmo com a expulsão de Omar Sívori no meio do segundo tempo. A sensação de impotência continuava aos fiorentinos.
Aquele vice na Copa da Itália, porém, teria grande valia para a Fiorentina. Naquele momento, as competições continentais começavam a se consolidar na Europa. O continente atravessava um período de plena reconstrução após a Segunda Guerra Mundial e também de evolução em diferentes meios. A aviação comercial facilitava as viagens internas, assim como o advento da televisão aumentava a demanda por eventos esportivos. E a instalação de refletores nos estádios criava um “horário nobre” no meio das semanas para que fosse ocupado pelas transmissões de futebol. A Copa dos Campeões era a iniciativa principal, idealizada pelo jornal L’Équipe e conduzida pela recém-criada Uefa a partir de 1955/56. A Copa das Cidades com Feiras surgiu no mesmo momento, ao ampliar o calendário de mais equipes e se centrar em cidades europeias importantes para a economia local. Ainda assim, existia abertura para mais.
A Recopa Europeia despontou como uma alternativa para colocar mais clubes em compromissos internacionais a partir de 1960/61. A ideia era simples: se por um lado a Copa dos Campeões premiava os vencedores das ligas nacionais, a Recopa abarcava os ganhadores das copas nacionais. Entretanto, o novo certame não foi um sucesso imediato. Sua organização inicial foi capitaneada pelo mesmo comitê que realizava a Copa Mitropa. A Uefa não quis se envolver com a competição em seus primórdios e apenas um ano depois é que, de fato, assumiria o controle. Além do mais, não eram todos os países europeus que tinham copas nacionais estabelecidas naquele momento. Pese-se a isso a natural desconfiança sobre um torneio que acabava de nascer, e a primeira edição da Recopa teve dimensões bastante tímidas para o que se tornaria.

Apenas dez equipes participaram da Recopa 1960/61. A maior parte dos concorrentes vinha como vencedores das copas nacionais – Rangers, Wolverhampton, Dinamo Zagreb, Austria Viena, Luzern e Borussia Mönchengladbach. Mas nem todos. A Alemanha Oriental e a Hungria preferiram mandar Vorwärts Berlim e Ferencváros, seus respectivos vice-campeões da liga. Já o representante da Tchecoslováquia, o Spartak Brno, tinha sido selecionado a partir de uma copa local de caráter amistoso. A Itália também tinha uma exceção, mas circunstancial: a Fiorentina. Como a Juventus levou a dobradinha nacional em 1959/60, com os títulos da Serie A e da Coppa, o mais justo seria enviar a Viola, vice de ambos os torneios. E os fiorentinos adentraram no novo certame como dignos postulantes ao troféu, dada a qualidade do seu elenco e tudo o que almejaram nos anos anteriores.
Por conta do número diminuto de equipes na primeira edição da Recopa Europeia, a Fiorentina entrou diretamente nas quartas de final. A Viola estreou contra o Luzern, outro a iniciar o torneio entre os oito melhores. Os campeões da Copa da Suíça eram treinados na época por Rudi Gutendorf, alemão que vivia a transição de sua carreira, também ponta direita do clube, e que depois virou um andarilho da bola, com distintos trabalhos ao redor do globo. Mas não que os alviazuis impusessem tanto respeito, num elenco em que os nomes de maior relevo eram o goleiro Antonio Permunian e o atacante Walter Beerli, reservas da Suíça em Copas do Mundo.
Diante da falta de projeção do adversário, a Fiorentina mostrou sua força com uma classificação inapelável. A equipe dirigida por Lajos Czeizler ganhou as duas partidas do Luzern. A ida na Suíça contou com um show de Kurt Hamrin no Estádio Allmend. O sueco anotou os três gols na vitória por 3 a 0. Hamrin superou o goleiro Permunian duas vezes no primeiro tempo, aos 32 e aos 35 minutos. Já a tripleta acabou concluída na reta final do segundo tempo, garantindo enorme tranquilidade para a volta em Florença. A segunda partida aconteceu em 27 de dezembro de 1960, encaixada entre as festas de fim de ano. E a Viola deu um motivo para os seus torcedores comemorarem, com os 6 a 2 no placar. Hamrin anotou dois gols, mas aquela foi a grande atuação de Antoninho em Florença. O atacante brasileiro, que ficou apenas uma temporada no clube, deixou sua tripleta. Luigi Milan completou a contagem para os florentinos, enquanto Werner Frey e Erich Hahn descontaram para o Luzern.
Apesar da goleada por 9 a 2 no agregado, a Fiorentina fazia sua pior temporada em anos pela Serie A. Mesmo com uma sonora vitória por 3 a 0 sobre a Juventus em outubro, o primeiro turno da Viola não empolgou. A equipe desperdiçou muitos pontos contra equipes do meio da tabela e sofreu algumas goleadas. Os 4 a 1 da Atalanta em Bérgamo, no fim de janeiro, serviu de fim da linha para Lajos Czeizler. Os violetas se distanciavam da briga pelo topo da tabela e sequer conseguiriam sustentar a sequência de vices. Para o restante da temporada, a diretoria resolveu fazer uma aposta para o comando: Nándor Hidegkuti chegou como novo técnico.
Hidegkuti foi um dos grandes jogadores do futebol europeu durante a década de 1950. O centroavante da Hungria de 1954 era o grande diferencial tático dos Mágicos Magiares, ao introduzir o papel de “falso 9” com sua movimentação intensa que abria espaços para Ferenc Puskás e Sándor Kocsis empilharem gols pela seleção. Visto como um dos jogadores mais inteligentes de seu tempo, Hidegkuti pendurou as chuteiras em 1958, depois de participar de seu segundo Mundial. Depois de 13 anos servindo de referência ofensiva no poderoso MTK Budapeste, iniciou seu trabalho como treinador nos próprios alviazuis, tão logo se aposentou como futebolista. A Fiorentina oferecia sua primeira experiência fora da Hungria. Para auxiliá-lo, a Viola trouxe de volta Giuseppe Chiappella. O centromédio era também o cérebro tático dos tempos de Fulvio Bernardini, essencial no Scudetto de 1955/56 e depois promovido a capitão na última temporada, quando se aposentou em 1959/60.

Com a renovação de ideias, a Fiorentina chegou a emendar uma boa sequência de resultados na Serie A, mas nada suficiente para melhorar as perspectivas em busca do Scudetto. Muito mais importante foi o impacto nas copas. A equipe começou a bater de frente com as forças do país na Copa da Itália e também apresentou seu potencial máximo na Recopa Europeia. Até porque as quartas de final guardavam um desafio enorme, diante do Dinamo Zagreb. Os iugoslavos fizeram seguidas campanhas de relevo nas copas europeias ao longo dos anos 1960, a ponto de alcançarem duas vezes a final da Copa das Cidades com Feiras, com o título em 1966/67. Também contavam com um elenco recheado de astros da seleção. Zeljko Perusic e Zeljko Matus haviam conquistado o ouro olímpico em 1960, bem como foram vice-campeões na edição inaugural da Eurocopa. Vlatko Markovic foi titular absoluto na Copa de 1962. Já Goran Irovic e Ivan Santek eram reservas na Copa de 1958. Aquela equipe ainda tinha como referência ofensiva Slaven Zambata, que não disputou torneios internacionais com a Iugoslávia, mas se firmou como um dos maiores ídolos da história do Dinamo.
No banco de reservas, o Dinamo Zagreb ainda promovia um desafio particular para Nándor Hidegkuti à frente da Fiorentina. O comandante dos croatas era seu grande mentor, Márton Bukovi. O húngaro tinha sido exatamente o treinador que promoveu a transformação do centroavante nos tempos de MTK Budapeste, ao aproveitar sua mobilidade na linha de frente, e auxiliou a seleção magiar em seu período dourado. Hidegkuti assumiu o comando do MTK no momento em que Bukovi deixou o cargo para trabalhar no Ferencváros. Já a passagem pelo Dinamo marcava um reencontro com as raízes do técnico, que iniciara sua trajetória na casamata em Zagreb e passara mais de dez anos no comando dos alviazuis, na virada dos anos 1930 para os 1940.
Apesar do tamanho do desafio que o Dinamo e que Bukovi representavam, a Fiorentina saiu vitoriosa daquele confronto pelas semifinais da Recopa. Dentro do Estádio Comunale, a vitória por 3 a 0 na ida providenciou uma excelente vantagem. Antoninho deixou sua marca mais uma vez, no final do primeiro tempo. Dino da Costa ampliou na segunda etapa e Paolo Lazzotti fechou a contagem a dez minutos do fim. Com a diferença construída pela Viola, pouco importou a derrota por 2 a 1 para o Dinamo na visita ao Estádio Maksimir. Os iugoslavos bem que assustaram, com gols de Zeljko Matus e Zlatko Haramincic logo nos primeiros 18 minutos de bola rolando. Contudo, os italianos se acertaram na defesa e contaram com um gol de Gianfranco Petris para sacramentar a classificação no início do segundo tempo.
As copas embalavam os sonhos da Fiorentina naquela temporada de 1960/61. A Viola também fazia grande barulho na Copa da Itália. Antes que as finais da Recopa Europeia chegassem, a Viola eliminou rivais de peso para se confirmar também na decisão do torneio nacional. As quartas de final diante da Roma foram apoteóticas, com o triunfo da Viola por 6 a 4 no Estádio Olímpico. Foram três gols de Petris, dois de Gigi Milan e um de Dino da Costa. Já nas semifinais, os florentinos tiveram o gosto da revanche contra a Juventus. Bateram a Velha Senhora por 3 a 1 no Comunale de Florença, o que garantiu nova decisão diante da Lazio – sem mais o comando de Fulvio Bernardini, porém.
As boas campanhas copeiras ainda proporcionavam uma volta por cima nos vestiários da Fiorentina, após a perda de Miguel Montuori, um dos grandes símbolos do time. No meio daquela temporada de 1960/61, o argentino tomou uma bolada no rosto que provocou uma séria lesão ocular. Por conta disso, teria que pendurar as chuteiras sem sequer participar das finais de 1960/61, com somente 28 anos. Oferecer o título ao capitão era uma motivação aos violetas.
As finais da Recopa Europeia aconteceram antes da decisão da Copa da Itália. Naquele momento inicial, o torneio continental contava com partidas de ida e volta na final. A pedreira diante da Fiorentina era gigantesca, com o embate diante do Rangers. Os escoceses vinham de uma campanha igualmente imponente. A equipe começou o torneio nas preliminares e despachou o Ferencváros de Florián Albert. Depois, os Teddy Bears não tomaram conhecimento do Borussia Mönchengladbach nas quartas de final e ganharam por 11 a 0 no agregado, com direito a um 8 a 0 em Ibrox. Isso até eliminarem nas semifinais o Wolverhampton, ainda treinado por Stan Cullis. Os Lobos eram o time com maior experiência internacional naquela primeira edição da Recopa, embora perdessem fôlego em relação aos áureos anos 1950. Os Gers ganharam por 2 a 0 em Ibrox e buscaram o empate por 1 a 1 no Estádio Molineux.

O Rangers era treinado na época por Scot Symon, um dos grandes nomes da história do clube como jogador e também como treinador. Após vestir a camisa do clube por nove anos, de 1938 a 1947, o veterano voltou como técnico em 1954. Passaria 13 anos no cargo, com direito a seis títulos do Campeonato Escocês no período. Já em campo, símbolos históricos do clube apareciam em todos os setores. A defesa era liderada por Eric Caldow, que capitaneou o Rangers e a seleção da Escócia durante o auge da carreira. Tinha a companhia de outros membros do Hall da Fama do clube, como o goleiro Billy Ritchie e o lateral Bobby Shearer. No meio-campo, o grande talento era Jim Baxter, considerado por muitos como o melhor jogador da história do futebol escocês, por sua qualidade técnica e pela habilidade contagiante. Davie Wilson e Ian McMillan eram outros craques na ligação. Na frente, Ralph Brand empilhava gols no período e tinha a companhia de Alex Scott ou Jimmy Millar, outros dois com passagem pela seleção.
A Fiorentina treinada por Hidegkuti e Chiappella, de qualquer maneira, merecia respeito. A escalação para as finais começava com Enrico Albertosi, que ocupou a posição do lesionado Sarti na reta final da temporada e se mostrou um goleiro de primeira linha, aos 21 anos. A defesa contava com Enzo Robotti e Sergio Castelletti fechando os lados, enquanto Piero Gonfiantini trancava a faixa central com o auxílio do recuado capitão Alberto Orzan, único remanescente do Scudetto de 1955/56. Claudio Rimbaldo fechava o meio com o auxílio de Dante Micheli. Já na frente, Kurt Hamrin e Gianfranco Petris eram as duas grandes armas nas pontas, com Dino da Costa servindo de referência no centro e Luigi Milan tantas vezes aparecendo como elemento surpresa para resolver os jogos. Era a formação que se consagraria como campeã.
O primeiro jogo das finais aconteceu no Estádio Ibrox. Mais de 80 mil torcedores do Rangers lotaram as arquibancadas, na tentativa de intimidar a Fiorentina. Porém, naquele dia, nasceria a lenda dos “Leões de Glasgow”. A Viola teve uma atuação exemplar para anular os fortes contragolpes dos Teddy Bears, com uma formação tática perfeitamente alinhada por Hidegkuti. Apesar de toda a pressão, os italianos voltariam para casa com a vitória por 2 a 0 na bagagem, que abria as portas para a conquista continental.
O Rangers bem que tentou impor sua blitz em Ibrox. A Fiorentina, porém, se defendeu ferozmente – por vezes até abusando da violência. Rimbaldo e Orzan foram os dois principais responsáveis pela forte marcação, enquanto Albertosi acumulava grandes defesas sob as traves. Quando atacava, a Fiorentina buscava as ligações diretas com seus velozes pontas. E a estratégia deu certo para que o primeiro gol viesse logo cedo, aos 12 minutos. Numa roubada de Petris pelo lado esquerdo do ataque é que veio o passe manso para Luigi Milan balançar as redes.
Gigi Milan viveu a temporada de sua vida. O atacante flutuou naquela reta final de 1960/61, em especial nas finais das copas. O camisa 10 sobrou em campo em Ibrox, com muita qualidade para distribuir os passes e escapar da marcação do Rangers. Os Teddy Bears ainda tiveram uma chance de ouro para empatar no primeiro tempo, mas Caldow desperdiçou um pênalti, defendido por Albertosi. E a vitória da Viola seria concluída já nos minutos finais, aos 43 do segundo tempo, de novo graças a Gigi Milan. O camisa 10 recuperou a bola na intermediária, tabelou com Dino da Costa e deslocou o goleiro Billy Ritchie na conclusão.
O reencontro em Florença teve 50 mil presentes nas arquibancadas do Estádio Comunale. Estavam prontos para comemorar, e viram finalmente a Fiorentina voltar a levantar uma taça, depois de cinco anos. Nem mesmo o retorno de Jimmy Millar ao ataque do Rangers, recuperado de lesão, auxiliou os visitantes. Os italianos emplacaram mais uma vitória, agora por 2 a 1. Gigi Milan continuou como protagonista da histórica campanha continental, mas também com a participação estelar de Hamrin naquele segundo encontro.
A Fiorentina repetiu sua estratégia da primeira partida, com força ofensiva e velocidade no ataque. A marcação dobrada sobre Jimmy Millar não deixou que o centroavante aparecesse tanto. E o placar já estava aberto aos 12 minutos, em grande jogada de Hamrin pela ponta direita. O sueco partiu em velocidade e deixou a marcação comendo poeira. Fez o cruzamento fechado da linha de fundo e Gigi Milan, feito um talismã, meteu o corpo na bola para desviá-la para dentro.
O Rangers daria um sinal de vida no início da segunda etapa, aos 15 minutos, quando Alex Scott conseguiu o empate. Porém, Hamrin estava mesmo disposto a conquistar seu primeiro título pela Viola. O atacante assinou uma pintura para decretar o triunfo, aos 41 do segundo tempo. O sueco partiu em velocidade pela direita, tabelou e abriu um rombo na marcação com seu drible. Ficou sozinho com o goleiro Billy Ritchie e esbanjou categoria, num leve toque por cobertura que morreu nos barbantes. Foi o mais importante de seus 208 gols pelo clube, que o tornam ainda hoje o maior artilheiro da história violeta, com um tento a mais que Gabriel Batistuta.
A Fiorentina se consagrou como a primeira equipe italiana a ser campeã continental entre os clubes. Tudo bem que o troféu só seria reconhecido pela Uefa em 1963, por pressão da federação italiana depois que a confederação europeia assumiu a organização da Recopa. Todavia, aquela campanha de 1960/61 tinha mostras de força suficientes para eternizar o timaço dirigido por Hidegkuti e Chiappella. Além do mais, aquela temporada terminou com outra comemoração, graças à conquista da Copa da Itália. A Fiorentina encerrou o jejum de 21 anos no torneio ao derrotar a Lazio por 2 a 0 na final. Petris e (sempre ele) Gigi Milan assinalaram os gols no Estádio Olímpico.
Na temporada seguinte, a Fiorentina teve a chance de defender seu título na Recopa Europeia, com a primeira edição organizada pela Uefa. Hidegkuti continuou à frente da Viola, que eliminou Rapid Viena, Dynamo Zilina e Újpesti para alcançar mais uma decisão. O troféu só escapou na final, diante do Atlético de Madrid, com o empate por 1 a 1 no Hampden Park e, em tempos sem disputas por pênaltis, o desempate marcado apenas para quatro meses depois, no Neckarstadion de Stuttgart. Com a chegada de Ferruccio Valcareggi para dirigir os violetas na época deste reencontro, os colchoneros se sagraram campeões com a vitória por 3 a 0 na Alemanha Ocidental. O consolo para os florentinos só aconteceu na sequência da década de 1960, em 1965/66, com mais um troféu da Copa da Itália e outro da Copa Mitropa – repaginada e sem mais o peso de outrora.
Desde então, o mais perto que a Fiorentina tinha chegado de um título continental foi na Copa da Uefa de 1989/90. Os violetas eliminaram justamente o Atlético de Madrid na primeira fase, antes de passarem também por Sochaux, Dynamo Kiev, Auxerre e Werder Bremen. A final aconteceu num duelo doméstico, com a Juventus dirigida por Dino Zoff. A Velha Senhora levou a melhor contra a Viola treinada por Francesco Graziani, com a vitória por 3 a 0 em Turim seguida pelo 0 a 0 em Florença. Os fiorentinos reuniam nomes como Dunga, Lubos Kubík, Sergio Battistini e, principalmente, Roberto Baggio – o craque do time que logo seguiria para a própria Juve, numa tumultuada transferência.
Já a espera de mais de seis décadas sem um título continental pode se encerrar na atual Conference League. Vincenzo Italiano conta com um elenco bastante qualificado e com um time que cresceu na segunda metade da temporada, sobretudo pelas apresentações fora de casa na campanha continental. A decisão guardará um reencontro com um adversário britânico, o West Ham, tal qual ocorreu em 1960/61. É ver se a inspiração de Hamrin, Gigi Milan, Enrico Albertosi e os demais craques auxiliam os violetas numa reconciliação com sua própria história vitoriosa e pioneira nos torneios europeus.



