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A missão do futebol é criar momentos especiais, no palco que for, e Mourinho ainda é um dos melhores em fazer isso

Com o título da Conference League, Mourinho escreveu mais um glorioso capítulo no enorme espaço que ocupa na história do futebol

Se tivesse se aposentado, assumido uma seleção ou entrado em um merecido hiato após tanto tempo de estrada, José Mourinho ainda seria um dos maiores técnicos da história do futebol. Mas ele não estava afim de nada disso. Aos 59 anos, desde 2000 decidindo escalações, ainda estava sedento por mais. Talvez em paralelo buscando algum tipo de redenção. Algum significado diferente para uma carreira que sempre foi sobre vencer, vencer e vencer a todo custo. E não é que, nesse processo, ele acabou vencendo de novo?

Hierarquizar título é um exercício gostoso para a mesa do bar, mas efetivamente não serve para muita coisa. Cada um tem o seu valor. Ganhar uma Champions League com o Porto é gigantesco. O jejum europeu da Internazionale era longo demais. O do Chelsea no Campeonato Inglês também. Dominou a Premier League durante dois anos como poucos fizeram. Quebrou a sequência de Guardiola em La Liga fazendo 100 pontos. Até as conquistas pelo Manchester United foram um raro alento durante uma complicada era pós-Ferguson.

A Conference League, terceiro torneio em importância no futebol europeu de clubes, pode parecer menor, mas precisa ser contextualizada. Não foi um prêmio de consolação a um eliminado na fase de grupos da Liga Europa por exemplo, como inevitavelmente em algum momento será. A Roma a transformou em objetivo e, ao fazer isso, lhe deu mais importância. Foi seu primeiro título desde 2008 e o único de uma competição europeia sob a chancela da Uefa, embora a Taça das Cidades com Feiras de 1961 não possa ser ignorada.

O fato em si, a quebra do jejum, a raridade de fazer a tão apaixonada torcida romanista gritar campeão, é um feito. Mas o mais relevante da caminhada foi a maneira como ela aconteceu. Não foi Mourinho contra tudo e contra todos. Não houve um inimigo, apesar de algumas reclamações contra a arbitragem porque também não dá para lutar contra a sua própria natureza. Foi um José Mourinho mais puro, de braços dados com a arquibancada e com os jogadores, tentando buscar algo especial no ambiente onde está inserido.

A temporada teve seus altos e baixos. Ele chegou a soltar um pouco mais o verbo. Nem a pessoa mais zen do mundo consegue manter a cabeça fria depois de levar 6 a 1 do Bodo/Glimt – ou de abrir 3 a 1 contra a Juventus a 20 minutos do fim e ainda conseguir perder. Em trabalhos anteriores, críticas diretas aos jogadores no tom que ele adotou precederam o desastre completo, mas desta vez Mourinho conseguiu segurar o vestiário. Se alguma coisa, ele foi ficando cada vez mais unido, fechado em torno da campanha na Conference e no que dava para conseguir na Serie A.

Está longe de ser um analfabeto tático. Entende e muito de futebol e organiza as suas equipes dentro da sua ideia de jogo que realmente não é do gosto de todo mundo. Mas mesmo no auge não era por isso que se destacava. Seu forte era convencer os jogadores a darem a vida por ele. Deixá-los com a confiança lá em cima, brandindo seu currículo como se fosse uma espada. Por vários motivos, isso foi gradativamente parando de funcionar. Um pouco menos na segunda passagem pelo Chelsea, menos ainda no Manchester United, não funcionou mesmo no Tottenham.

Funcionou na Roma. Talvez por ser um clube mais carente, sem nenhuma malícia. Um clube que precisou aprender a valorizar mais a experiência de ser do que de vencer, e a experiência de ser o clube de José Mourinho ainda é uma montanha-russa de emoções, boas e ruins, ótimas e péssimas, título continental e 6 a 1 para o Bodo/Glimt. E assim se criou uma simbiose entre arquibancada, time e comissão técnica. Criou-se uma família, como ele comemorou após conseguir a classificação para a final da Conference League.

Pela primeira vez desde que saiu do Porto, ele não precisava entregar um título. Nem a vaga na Champions era obrigatória. Faz muito, muito tempo que um sexto lugar pode ser realmente comemorado por Mourinho como um bom começo porque houve um certo consenso de que, com os seus recursos, era difícil chegar mais longe. Nem no Tottenham foi assim. Ele foi contratado porque era o técnico com currículo vencedor que encaminharia a base deixada por Mauricio Pochettino às conquistas e era financeiramente essencial retornar à principal competição europeia. Claro que a Roma tem condições e deve almejar também disputá-la, mas a pressão é menor. Tão menor que permitiu a Mourinho relaxar um pouco, e o resultado foi… um título.

O argumento metonímico é errado nos dois lados. Mourinho não é um dos melhores técnicos do mundo porque o foi dez anos atrás e não é uma farsa porque entrou em uma fase diferente da sua carreira, na qual não consegue competir constantemente no mais alto nível. Ele é ao mesmo tempo um personagem gigante da história do futebol, que independentemente do que fizer daqui para frente estará no topo de qualquer lista de maiores treinadores de todos os tempos quando se aposentar, e que caiu para o segundo ou terceiro escalão neste momento – e, se tiver energia, nada o impede de tentar voltar ao topo.

A lição que ele aprendeu na Roma, e que talvez no fundo sempre soubesse, é que sendo ou não o melhor do mundo, estando ou não nos clubes mais ricos e badalados, sempre é possível gerar emoção, transformar um jogo em um momento especial do qual as pessoas nunca vão se esquecer. Ele ainda tem essa capacidade, e não precisa ser na final da Champions League. Como dizem os jovens hoje em dia, o futebol é sobre isso.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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