Conference League

A Conference já teve seus primeiros shows nas arquibancadas, com 4 mil torcedores do Union Berlim em Praga

Se no passado a torcida do Union costumava visitar outros países da Cortina de Ferro para apoiar o Hertha, desta vez realizou sua própria festa

Por mais paradoxal que soe, o Muro de Berlim aproximou Union e Hertha durante a Guerra Fria. A divisão da cidade afastou muitos torcedores do Hertha de seu clube e parte desse público passou a apoiar o Union. A relação era tão forte que, durante a década de 1970, os alvirrubros pegaram a estrada para apoiar os alviazuis em jogos pelas copas europeias nos outros países da Cortina de Ferro. Até por isso, a estreia do Union Berlim na fase de grupos da Conference League foi tão emblemática. A equipe enfrentou o Slavia Praga na República Tcheca, um dos tantos países visitados nos anos 1970, e cerca de 4 mil torcedores estiveram presentes. Apesar da derrota por 3 a 1, os alemães proporcionaram um belo espetáculo nas arquibancadas.

Ao longo da década de 1970, o Hertha Berlim disputou a Copa da Uefa em cinco oportunidades. E algumas vezes a Velha Senhora enfrentou equipes dos países comunistas. Os alviazuis encararam o Spartak Trnava, potência tchecoslovaca naquele momento, em 1970/71. Já na temporada 1978/79, o Hertha realizou um verdadeiro tour pelo Leste Europeu em sua campanha até as semifinais, pegando Trakia Plovdiv (Bulgária), Dínamo Tbilisi (União Soviética), Dukla Praga (Tchecoslováquia) e Estrela Vermelha (Iugoslávia). Como os alemães-orientais podiam transitar entre os outros países da Cortina de Ferro, os torcedores do Union Berlim acabavam pegando a estrada e se fizeram presentes em muitos desses jogos para apoiar os vizinhos alemães-ocidentais. Contra o Dukla, por exemplo, metade dos 30 mil presentes em Praga eram alemães – e boa parte orientais.

Quando estreou na Copa da Uefa, em 2001/02, o próprio Union Berlim atuou no leste. A equipe encarou o Litex Lovech, da Bulgária, contra quem acabou eliminada. Aqueles, entretanto, eram momentos bastante distintos aos Eisernen. O clube conquistou sua classificação por ser vice-campeão da Copa da Alemanha, mas tinha acabado de registrar o acesso da terceira para a segunda divisão da Bundesliga. A média de público no Estádio An der Alten Försterei era significativamente inferior e o Union lidou com riscos de falência, salvo pela própria torcida.

A partir de sua recuperação nas duas últimas décadas, o Union Berlim criou uma identidade mais forte. E o clube já tinha feito marcantes “invasões” quando ainda estava na segunda divisão e ia pegar adversários da Bundesliga na Copa da Alemanha. Em 2016, por exemplo, 11 mil torcedores da capital encheram o setor norte do Signal Iduna Park para o confronto com o Borussia Dortmund. Era de se esperar que tal empolgação também se refletisse na Conference, após 20 anos longe das competições continentais.

Na fase preliminar, quando o Union Berlim enfrentou o KuPS, o público visitante ainda não tinha sido autorizado pela Uefa em decorrência das normas sanitárias. Ainda assim, muitos torcedores viajaram até a Finlândia e compraram ingressos destinados ao time da casa. Para a fase de grupos, a Uefa retirou a barreira e os Eisernen puderam viajar normalmente rumo ao leste, como nos velhos tempos. Foram cerca de 4 mil visitantes, num público total de 15 mil no Estádio Sinobo.

Antes que a bola rolasse, a torcida do Union Berlim impressionou por seu espetáculo com sinalizadores. Deixou as arquibancadas mais coloridas, em meio à festa que a torcida do Slavia também fazia com seu bandeirão. Dentro de campo, as coisas não deram tão certo para os alemães. O time teve uma expulsão ainda no primeiro tempo e, já nos minutos finais, os tchecos buscaram o triunfo por 3 a 1. A derrota, no entanto, não impediu que os visitantes aplaudissem seus jogadores pelo esforço na estreia em uma fase de grupos continental. Terão pelo menos mais cinco encontros pela frente, três deles no Estádio Olímpico.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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