Zidane engrandece sua lenda arquitetando o título europeu do Real Madrid
Por Bruno Bonsanti
Zidane não tinha uma missão fácil. Era inexperiente, sem nenhuma passagem como técnico por times principais, e assumia a batata mais quente da Europa. A exigência do Real Madrid é sucesso imediato e qualquer coisa abaixo disso não interessa. O ânimo da equipe, que havia passado pelas mãos de Rafa Benítez, precisava ser recuperado. E ainda tinha que resolver a questão tática, ao mesmo tempo em que disputava os títulos do Campeonato Espanhol e da Champions League. Ele lidou com os desafios com a mesma classe, tranquilidade e exuberância com que tratava a bola, e a consagração do seu trabalho veio neste sábado, com o título europeu.
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Catorze anos depois de acertar aquele voleio contra o Bayer Leverkusen, Zidane entrou para o seleto grupo de pessoas que conquistaram a Champions League como jogador e como técnico. Está ao lado de outras lendas no mínimo tão grandes quanto ele: Miguel Muñoz, Giovanni Trapattoni, Carlo Ancelotti, Johan Cruyff, Frank Rijkaard e Pep Guardiola. E não dá para minimizar a sua influência nesses meses em que mostrou ter uma promissora carreira com a prancheta nas mãos.
A troca de treinadores ocorreu no começo de janeiro, e a primeira mudança que ficou visível foi no ambiente. Declarações contestatórias dos jogadores desapareceram junto com matérias de bastidores que revelavam a insatisfação do vestiário com Benítez. Mesmo sem tamanho como treinador, a figura de Zidane é gigante o bastante para inspirar respeito. E os resultados ajudaram. Logo na estreia, uma goleada por 5 a 0 sobre o Deportivo La Coruña, seguida de outra, por 5 a 1, sobre o Sporting Gijón.
O Real Madrid, na realidade, tornou-se uma máquina de golear e marcou pelo menos quatro gols seis vezes no restante da temporada. Em 20 partidas como técnico no Campeonato Espanhol, Zidane teve 17 vitórias, dois empates e uma única derrota, para o Atlético de Madrid. Taticamente, o que tentou fazer foi dar mais equilíbrio para o meio-campo. Tentou primeiro Isco, depois Kovacic, ao lado de Kroos e Modric. Contra o Levante, introduziu Casemiro e finalmente encontrou o que procurava. Essa partida foi o começo de uma reta final perfeita, com 12 triunfos seguidos na liga, permitindo que os merengues chegassem à última rodada ainda com chances de tirar o título do Barcelona.
Mais do que o badalado trio ofensivo, foi a trinca de meias que deu sustentação para as excelentes atuações do Real Madrid nos últimos meses. Embora Kroos e Modric tenha brilhado menos que Casemiro em Milão, todos foram importantes para fechar os espaços e diminuir o ritmo da pressão do Atlético de Madrid. O brasileiro, principalmente, teve um papel fundamental na destruição das jogadas que o adversário tentou criar durante os mais de 100 minutos em que esteve no controle da partida. Realizou oito dos 28 desarmes do Real Madrid, mais do que qualquer outro jogador de branco. Foi o prêmio de Zidane por apostar em um jogador que era contestado no seu país de origem e não recebera muitas chances na Espanha.
Antes de abrir o placar contra o Atlético de Madrid, o Real havia criado outra grande oportunidade, com Benzema. Tanto essa chance quanto o gol saíram em jogadas de bola parada e não foi coincidência. O time de Zidane é o que mais marcou nesse tipo de jogada entre as cinco ligas europeias, segundo números do Squawka, com 19, empatado com o Bordeaux. São 13 tentos de escanteio, três em cobranças diretas e três em faltas cruzadas na área. O gol de Sergio Ramos foi claramente uma ação coordenada: Kroos colocou a bola na cabeça do bom cabeceador Bale, que a jogou para trás, confundindo a defesa e atrapalhando o cálculo do goleiro. Coube ao zagueiro apenas desviar.
Embora as substituições não tenham surtido muito efeito, a entrada de Lucas Vázquez foi bastante simbólica, porque a mesma confiança que Zidane reservou a Casemiro também foi oferecida ao jovem espanhol. E na hora mais crucial da temporada, foi ele quem entrou em campo, em vez de jogadores mais renomados, como James Rodríguez. E também foi quem teve a responsabilidade de, aos 24 anos, realizar a primeira cobrança da disputa de pênaltis.
Seu dedo esteve presente na construção do gol de Sergio Ramos, na confiança para que jogadores contestados crescessem na temporada e no pragmatismo, que já havia demonstrado na semifinal para eliminar o Manchester City, ao travar as duas partidas e apostar na qualidade do seu elenco para fazer os gols. Essa estratégia voltou a render frutos na tentativa de segurar o Atlético de Madrid.
Zidane teve uma carreira brilhante como jogador de futebol. Chegou a duas finais de Copa do Mundo como o líder da França e levou um título. Foi campeão europeu como protagonista e três vezes eleito o melhor do mundo. Levantou três troféus de ligas nacionais e ainda levou o Bordeaux à decisão da Copa da Uefa. E em seis meses como técnico, já chegou ao auge da profissão na Europa, com o título da Champions League. Pelo Real Madrid, acima de tudo. Há pessoas especiais no mundo, que conseguem ter sucesso em tudo que se dispõem a fazer. Alguém duvida que Zidane seja uma delas?
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