Jogo não fez jus ao gigantesco feito do Real Madrid: 11 vezes campeão da Europa
Por Bruno Bonsanti
Alguns feitos muitas vezes têm que ser colocados em perspectiva para termos noção do seu tamanho. O Real Madrid conquistou, neste sábado, seu 11º título europeu em 62 edições de Copa dos Campeões e Champions League. O segundo colocado da lista de vencedores tem quatro troféus a menos. Não é um feito pequeno, não é um feito grande: é um feito gigantesco. O time de Zidane soube navegar por um jogo de características estranhas para vencer o Atlético de Madrid na disputa de pênaltis, depois de 1 a 1 no tempo regulamentar, e alcançar mais uma vez a maior glória de clubes do continente.
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O espelho sempre reflete a imagem invertida. Sua mão esquerda fica à direita. Sua mão direita fica à esquerda. O roteiro da final da Champions League de 2016 foi muito parecido com a de dois anos atrás, mas com os times ocupando papéis diferentes. Foi o Atlético de Madrid quem saiu atrás, buscou o empate no final do primeiro tempo e estava com mais pernas para a prorrogação. Teve até gol de Sergio Ramos, mas no começo da partida. Os colchoneros, porém, não souberam transformar a superioridade física em gols como fez o Real Madrid em Lisboa. O castigo veio nos pênaltis.
Os times adotaram características opostos às que os caracterizam durante boa parte da partida. Depois do gol de Ramos, foi o Atlético de Madrid quem controlou as ações até o fim, mas sem estar muito acostumado a fazer isso, sofreu para criar as chances de gol e precisou arrancar o empate, aos 34 minutos do segundo tempo. O Real Madrid de Zidane adotou o pragmatismo: abriu o placar, recuou e tentou quebrar o ritmo acelerado dos adversários. Teve poucos contra-ataques e correu riscos por ter exagerado nessa estratégia. O resultado foi uma partida brigada, intensa, mas pouco emocionante. Se a final foi marcada pelo feito dos merengues, por mais uma decepção do Atlético de Madrid e pela rivalidade, o jogo, em si, não esteve à altura do que ele significa para a história do futebol europeu.
Nos primeiros minutos, o Real Madrid tomou a iniciativa, e o Atlético de Madrid marcava bem, mas vacilou em duas jogadas de bola parada. Benzema interceptou a cobrança de Bale com a pontinha da chuteira, e Oblak, meio no susto, fez uma grande defesa. Aos 16 minutos do primeiro tempo, o galês tocou de cabeça para trás, e Sergio Ramos apareceu para desviar de leve, por baixo das pernas do esloveno, que desta vez nada pode fazer. O zagueiro espanhol estava em posição de impedimento.
Os primeiros 15 minutos de jogo, com exceção desses dois lances, serviu para os jogadores aliviarem um pouco da tensão, com lances duros, faltas até mesmo violentas e um Mark Clattenburg conivente. O Atlético de Madrid parecia mais nervoso que o Real Madrid e não conseguia completar a transição para o campo ofensivo. A estratégia de defender com afinco e buscar o contra-ataque torna-se cansativa demais se a bola bate e volta no ataque incessantemente.
Depois de sofrer o gol, o Atlético foi obrigado a colocar a cabeça no lugar e trocar um pouco mais de passes. Acalmou-se, adiantou-se ao mesmo tempo em que o Real Madrid recuou, e foi em busca do empate. Terminou a etapa inicial com mais posse de bola e os mesmos cinco chutes a gol que o adversário. Saúl, porém, estava desaparecido. Torres lutou, sem grandes efeitos práticos. Os laterais buscavam os cruzamentos, que eram facilmente rebatidos pela defesa merengue.
Apenas Griezmann levou algum perigo, com três chutes de fora da área. Dois foram bem defendidos por Navas, e o terceiro passou com perigo próximo à trave direita do goleiro costarriquenho. A chance mais clara acabou sendo um lance em que o árbitro já marcara impedimento. Gabi deu um passe primoroso para Griezmann, dentro da área. O francês pegou de primeira e exigiu uma defesa monumental de Keylor Navas. E o fato de o melhor lance ter saído em uma jogada que já não estava mais valendo fala muito sobre o que foi o primeiro tempo no San Siro.
Assim que os jogadores voltaram do intervalo, o time de Simeone teve uma chance de ouro para empatar. Pepe e Fernando Torres engalfinharam-se dentro da área, e o árbitro marcou um duvidoso pênalti (diferente do impedimento, aqui é uma questão de interpretação). Griezmann não quis saber de jeito na cobrança. Encheu o pé no meio do gol, aquela batida de segurança. Mas pegou embaixo demais na bola e acertou o travessão, que ainda está balançando para frente e para trás.
O segundo tempo desenvolvia-se, assim como as chances do Atlético de Madrid. Koke tentou um chute do bico da grande área, que passou perto do ângulo. Savic completou jogada de escanteio com perigo. Saúl pegou de primeira dentro da grande área e também assustou. Os colchoneros, dentro das suas limitações ofensivas, pressionavam em busca do empate, e o Real Madrid apenas se defendia.
Mas precisava reagir, porque sabia que seria arriscado demais abdicar do jogo durante tanto tempo. Em um contra-ataque, Modric achou Benzema pela direita. O francês invadiu a área e chutou em cima de Oblak. Logo na sequência, Bale fez grande jogada pela esquerda, e a bola sobrou com Cristiano Ronaldo. O craque passou a perna esquerda por cima dela e chutou com a direita. O atraso para definir foi o que Oblak precisava para bloquear a finalização. Era a grande chance de matar a partida. A decisão de Ronaldo, recurso ou firula, cobraria o seu preço.
Gabi deu outro tapa na bola, como no lance impedido de Griezmann, e achou Juanfran pela lateral direita. O cruzamento achou Yannick Carrasco, que havia entrado no lugar de Augusto Fernández, no intervalo, na segunda trave, e finalmente saiu o gol de empate. Depois de martelar muito, o Atlético de Madrid conseguiu levar o jogo para prorrogação. Como em 2014, mas ao contrário, igualando o marcador nos minutos finais, embora o gol de Sergio Ramos em Lisboa tenha saído nove minutos depois do de Carrasco.
Também em um reflexo oposto do que foi aquela decisão, quem estava com mais pernas no começo da prorrogação foi o Atlético de Madrid. Aprendendo com seus erros, Simeone, que dois anos atrás trocou Diego Costa por Adrián Lopez com nove minutos de jogo, ainda tinha duas substituições para fazer no segundo tempo da prorrogação. Colocou Thomas no lugar de Koke, e Lucas Hernández na vaga de Filipe Luis. Mas a superioridade física não foi suficiente para evitar os pênaltis, depois de um tempo extra sem grandes eventos, com exceção de jogadores dos dois times rolando no chão com dores musculares.
O desgaste físico não influenciou nas cobranças de pênalti, todas muito firmes. Griezmann desta vez acertou. Gabi e Saúl também converteram. Vázquez, Marcelo, Bale e Sergio Ramos marcaram os gols do Real Madrid, e o torcedor colchonero deve ter achado estranha a postura de Oblak nesses lances. Ele só pulou no chute do brasileiro, sem esticar os braços. Nos outros, ficou no meio do gol. Juanfran, o quarto do Atleti a bater, acertou o pé da trave. A responsabilidade caiu nos pés de Cristiano Ronaldo, que não havia feito uma grande partida. Mas a cobrança foi perfeita.
O gosto amargo para o Atlético de Madrid é imensurável. Depois dos desastres de 1974 e de 2014, mais uma vez o título europeu ficou muito próximo e escapou pelos seus dedos. O Real Madrid, por outro lado, com a pressão da décima para trás, conquistou a undécima e ratificou seu status como clube mais vencedor do mundo.



