Champions League

Sem Champions, Guardiola decepciona, mas não fracassa no Bayern de Munique

Por Bruno Bonsanti

Existe um mito curioso sobre o Santos dos anos sessenta e o seu técnico Lula. Dizem que ele jogava os coletes para cima e sua maior contribuição era não atrapalhar. Se a realidade foi exatamente essa, e as partes tática, motivacional e técnica daquela super-equipe não têm nenhum dedo seu, ainda lhe reservamos o mérito de ter sabido administrar o elenco daquela forma. Nunca é fácil ser campeão, muito menos ser hegemônico, e o treinador que consegue tem que ser valorizado, mesmo que encontre condições melhores que a maioria dos seus colegas.

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Faço essa introdução porque a ausência de um bom sexto lugar com o Eibar parece perseguir a avaliação sobre o trabalho de Pep Guardiola, que definitivamente não é Lula. Sua influência está claríssima na parte tática, técnica e na formação de elenco do Barcelona e do Bayern de Munique, com os quais foi campeão tantas vezes. Mas, por ter treinado apenas equipes poderosas e gigantes, seus méritos são colocados em xeque diante dos fracassos, como se nas glórias tivesse somente jogado os coletes para cima. Como sempre disputou os títulos, quando não vence todos que disputa, surge a decepção. Como é considerado o melhor treinador do mundo, quando perde, as pessoas se perguntam o que deu errado.

É o que acontecerá a partir desta terça-feira, com uma dose de razão e outra de injustiça. O Bayern de Munique foi eliminado nas semifinais da Champions League pelo Atlético de Madrid, e Guardiola partirá para o Manchester City sem ser campeão europeu pelos bávaros. Agrava a situação o fato de o treinador espanhol ter assumido o clube logo depois da Tríplice Coroa conquistada por Jupp Heynckes. Na realidade crua, não manteve o Bayern no mesmo patamar dentro do futebol europeu, como se esperava que ele fizesse.

Se chegou a três semifinais em três temporadas, também sofreu derrotas pesadas para equipes – ironicamente – espanholas. Depois de Benzema abrir o placar, criou chances para pelo menos empatar o jogo de ida contra o Real Madrid, mas perdeu por 1 a 0 e foi destroçado pelos contra-ataques de Carlo Ancelotti na volta. Houve muito equilíbrio no Camp Nou até Messi virar Boateng do avesso, e o Barcelona aproveitou que o adversário estava cambaleante para nocauteá-lo. Desta vez, enfrentou um time com menos recursos, em um confronto ainda mais equilibrado, e também não conseguiu vencer.

Nas três eliminações, há em comum a convicção de Guardiola, que na derrota vira teimosia. As linhas altas de marcação e a defesa desguarnecida foram fatais contra Barcelona, Real Madrid e Atlético. Da mesma maneira que haviam sido fatais para o Barça de Tito Vilanova, discípulo de Guardiola, contra o Bayern de Munique, na temporada anterior à chegada de Pep à Alemanha. Por outro lado, é a mesma estratégia que produziu o desempenho que Simeone classificou como “o melhor time que eu já enfrentei na minha carreira como técnico”, durante o primeiro tempo.

Guardiola, um palestrante de língua rápida, despeja dezenas de argumentos em 40 segundos para explicar por que acredita que sua filosofia é mais adequada para os seus times. E os resultados corroboram isso, afinal, foi com ela que o Bayern de Munique chegou três vezes seguidas às semifinais e está prestes a conquistar o tetracampeonato da Bundesliga. Sem falar nos títulos pelo Barcelona. Mudaria por quê? O que faltou foram ajustes para calibrar a relação entre risco e recompensa.

O desempenho do Bayern de Munique foi mais do que o suficiente para eliminar o Atlético de Madrid. Müller teve a vaga aos pés, mas desperdiçou um pênalti no primeiro tempo. Oblak pegou tudo que chegou a ele. Guardiola acertou na escalação, na preparação e na estratégia. Uma hora, porém, perde o controle sobre o que pode ou não acontecer dentro de campo, e outras coisas passam a influenciar o resultado, desde uma bola na trave a um dia inspirado do goleiro adversário.

Por isso, por mais que se esperasse um título europeu de Guardiola no Bayern de Munique, essa não pode ser a única régua para medir o sucesso ou o fracasso do trabalho de qualquer treinador. Não importa que ele tenha treinado apenas clubes favoritos. Ancelotti, seu sucessor em Munique, só recebeu salário de cachorro grande nos últimos 15 anos – carreira duas vezes maior que a de Guardiola – e tem um único troféu de Champions League a mais que ele. Nunca se falou em fracasso. Se a lógica já é rara nos pontos corridos, no mata-mata ela praticamente desaparece. Não há fórmula para vencê-lo. Cobrar título nesse tipo de torneio parece exageradamente cruel.

Em desafios mais racionas, Guardiola prevaleceu. Está prestes a ser três vezes campeão da Bundesliga, o que é menos fácil do que se imagina porque o Bayern de Munique alcançou esse feito apenas três vezes na história. Com o título derradeiro de Heynckes, os bávaros provavelmente serão o primeiro tetra da história da Alemanha. Acima de tudo, completou sua tarefa mais importante: ensinou a linguagem da sua filosofia de futebol aos jogadores, fez o time jogar de uma maneira mais bonita e colocou as sementes para que o Bayern de Munique desenvolva uma identidade própria, baseada nos seus conceitos. Exatamente por isso que ele era o homem ideal para construir sobre as fundações de Van Gaal e Heynckes, na terceira etapa da renovação do Bayern.

Pelo próprio currículo que construiu na sua carreira, pela imaginação fértil, pelo tamanho do Bayern de Munique e pelos sucessos recentes de Heynckes, era natural esperar que Guardiola vencesse a Champions League. Mas ele não conseguiu. Sua passagem pela Alemanha foi certamente muito bem sucedida, mas é inevitável o gosto de decepção por não ter levantado o troféu mais importante. Ossos do ofício.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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