Champions League

Rompendo com o previsível nas oitavas, o Gent é um exemplo gigante para os pequenos da Champions

Desde o sorteio da fase de grupos, o Grupo H se indicava como um dos mais equilibrados da Liga dos Campeões. O fato de não haver nenhuma força evidente deixava a situação bastante aberta. Contudo, três clubes de camisa pesada se sugeriam um passo à frente. O Gent, estreante na fase de grupos, após conquistar o inédito título do Campeonato Belga, pintava como azarão. Mas soube se aproveitar dos deslizes de Lyon e Valencia, em temporadas errantes, para se tornar a grande surpresa desta edição da Champions. Nesta quarta, os belgas acabaram com o 100% de aproveitamento do Zenit e, com a vitória por 2 a 1, avançaram na segunda posição, eliminando franceses e espanhóis. Um exemplo gigante para outros tantos pequeninos do continente.

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O feito do Gent é louvável não apenas pelo impacto imediato, avançando aos mata-matas logo em sua primeira participação na fase principal da LC. Ele ainda representa muito ao futebol belga. Desde a mudança de formato do torneio para liga, nunca um clube do país havia chegado às etapas eliminatórias – e mesmo equipes de muito mais tradição, como Anderlecht, Standard Liège ou Club Brugge. No máximo, os compatriotas haviam alcançado a segunda fase de grupos no modelo de classificação que vigorou até o início dos anos 2000.

Nem dentro do próprio país o Gent pode ser colocado como favorito. Disputando a liderança ponto a ponto com o Club Brugge em busca do bicampeonato nacional, a equipe possui apenas o terceiro maior valor de mercado do Campeonato Belga, equivalente a 67,7% do Anderlecht. E, mesmo com a certeza da presença na Champions, optou por manter a base do elenco vencedor e gastou menos de € 2 milhões em contratações para a atual temporada. Valor irrisório dentro dos padrões megalomaníacos da concorrência continental. O Valencia, por exemplo, extrapolou os € 150 milhões.

Mas foi dentro de campo que o Gent mostrou o quanto vale. Depois de conquistar apenas um ponto na primeira metade da fase de grupos, conseguiu um desempenho perfeito no returno. Apoiado pela fanática torcida na acanhada Ghelamco Arena, se impôs sobre o Valencia e o Zenit dentro de seus domínios. Ainda assim, o grande resultado veio na estrada, no Estádio Gerland. De maneira espetacular, os belgas buscaram a virada por 2 a 1 sobre o Lyon na penúltima rodada. Marcaram o gol decisivo aos 50 do segundo tempo, no último lance da partida. Não à toa, a comemoração pela vitória parecia até mesmo a de um título, tamanha a empolgação pela classificação que se tornava palpável.

Treinado pelo elogiado Hein Vanhaezebrouck, técnico que estourou fazendo boas campanhas com o modesto Kortrijk e reconhecido pela maneira como surpreende os adversários com mudanças táticas, o Gent possui bons nomes à disposição. O meio-campista Sven Kums é um dos jogadores mais experientes do grupo, capitão e referência técnica. Já no ataque, Laurent Depoitre desponta como o grande artilheiro. Contudo, ninguém teve mais peso nesta Champions até agora do que Danijel Milicevic. O meia suíço, de origem bósnia, marcou três gols na campanha, incluindo o que ratificou a classificação, desempatando o duelo com o Zenit nesta quarta. E ainda há o ponta nigeriano Moses Simon, de 20 anos, considerado atualmente uma das maiores promessas do futebol belga e cotado em € 20 milhões.

Neste momento, o Gent surge como o “preferido” da maioria dos primeiros colocados no sorteio, embora isso não signifique que será necessariamente o adversário mais fraco. Os belgas apresentaram um time organizado o suficiente para fazer o seu jogo e segurar adversários muito mais tarimbados e qualificados. Afinal, o futebol não é uma ciência exata que se determina nos números, e sim uma arte que, mais do que inspiração, depende de transpiração. Sem ligar para os prognósticos, o Gent avança. E mostra como, mesmo sufocados pelas fortunas alheias, os pequenos ainda podem sonhar na Champions. É claro que os novatos dependeram de um pingo de sorte, mas também tiveram muita competência. Dão um pouco mais de graça a um torneio que, nos últimos tempos, contou com poucas surpresas assim.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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