Champions League

Palomino: “Concorrentes novos inflacionam os direitos de transmissão, mas isso nunca dura muito”

Por Bruno Bonsanti

Foi um golpe muito forte, o mais duro que a ESPN Brasil poderia receber. O canal transmitia a Champions League há 20 anos, e era inimaginável ver a competição em outro canal. Mas mesmo com uma forte proposta em parceria com o SporTV, os direitos de transmissão do principal torneio de clubes da Europa para a tv fechada foram comprados pelo Esporte Interativo. Os desafios da emissora do Grupo Disney passaram a ser compensar essa perda com outros eventos e continuar a ser considerada a casa da Champions.

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A primeira parte foi alcançada. Junto com a Fox Sports, a ESPN Brasil conseguiu metade do Campeonato Italiano e do Alemão, comprou o Espanhol e dividiu com a parceira, e adquiriu os direitos exclusivos do Inglês para as próximas três temporadas. A ideia, a princípio, é mantê-lo inteiro na sua programação, mostrando os jogos da Premier League que não cabem nos três canais na grade das operadoras no serviço por streaming Watch ESPN. A segunda parte é um pouco mais complicada.

Pelo acordo de cessão de imagens com o Esporte Interativo, a ESPN Brasil precisa esperar algumas horas antes de poder mostrar os gols e os lances. Por isso, tomou a decisão de não repercutir as rodadas assim que elas terminam. Ou seja: o fã de esporte que acabou de ver o Real Madrid ou o Manchester United e está ávido pela opinião dos especialistas do canal ficará decepcionado se mudar de canal segundos depois do apito final. “É muito melhor se você ilustrar o debate, termos a imagem do que estamos falando. Estamos tratando de televisão. É uma escolha editorial para emoldurar o que está passando”, afirma o vice-presidente de jornalismo e produção da ESPN Brasil, João Palomino, em entrevista exclusiva à Trivela.

Mesmo assim, Palomino afirma que sua equipe fará o possível para que o canal também seja considerado a casa da Champions League no Brasil, ao lado do Esporte Interativo, que nos próximos três anos é a emissora oficial da competição. O exemplo foi a cobertura da reta final da última temporada, na qual a ESPN Brasil se esforçou para mostrar ao torcedor o que pode fazer e o que fará novamente, se um dia conseguir trazer o torneio de volta. “No dia que ficamos sabendo que não renovaríamos os direitos de transmissão, eu disse o seguinte: ‘Nosso fã de esporte pode ter certeza que, apesar de não termos os direitos da Champions, ele tem o direito de ter a informação’”, disse o jornalista.

Trivela – Ano passado, havia muita especulação de que a ESPN perderia muitos direitos de transmissão, mas, no fim, conseguiu manter a Bundesliga, a Serie A, La Liga, ampliou a cobertura da Liga Europa e comprou a exclusividade da Premier League. No entanto, perdeu a Champions League. Como reagir a uma perda tão significativa, ainda mais com uma proposta que parecia difícil de ser derrotada?

Palomino – Acho que a resposta é o portfólio que temos hoje, e principalmente o que vamos ter na próxima temporada, com a exclusividade do Campeonato Inglês. Essa foi a resposta imediata, clara, de uma empresa estável e séria, que planeja a sua vida. Nós sabíamos que a perda da Champions League nos afetaria em um primeiro momento, mas já tínhamos um planejamento definido para o Italiano, o Alemão, o próprio Inglês e a Liga Europa. Em relação aos campeonatos nacionais da Europa, ninguém tem um pacote como o nosso. São três pilares principais: campeonatos nacionais europeus com a Liga Europa, uma conquista importante de recuperação de portfólio que tivemos; o outro pilar que apostamos muito é o dos programas que falam de futebol nacional, mais a Copa do Brasil e três importantes torneios de categorias de base; o terceiro pilar é o de esportes americanos. Somos reconhecidos como um poder multi-esportivo. Temos um portfólio bem variável.

Trivela – A ideia, a princípio, é manter a exclusividade da Premier League?

Palomino – Nós adquirimos os direitos exclusivos e queremos mantê-los assim. Há uma dinâmica de mercado que têm que ser respeitada. Nossa intenção é neste momento comemorar o fato.

Trivela – É uma estratégia para fortalecer o Watch?

Palomino – A primeira impressão de algumas pessoas, poucas, ainda bem, foi de que não mostraríamos todos os jogos. São 380 jogos do Campeonato Inglês e vamos mostrar todos eles ao vivo. Por isso, temos o que consideramos ser nosso quarto canal. Teremos os três canais da ESPN e mais todos os outros jogos sendo transmitidos no Watch. Fizemos isso com o Campeonato Alemão. Temos uma estrutura tecnológica que nos permite fazer isso.

Trivela – Mesmo com a perda da Champions League, muitos ainda veem o canal como a casa do futebol internacional. Como a ESPN preparou a cobertura da principal competição de clubes da Europa sem ter os direitos?

Palomino – Eu cunhei uma frase no dia que soubemos que não renovaríamos os direitos da Champions League. Eu disse o seguinte: “Nosso fã de esporte pode ter certeza que, apesar de não termos os direitos da Champions, ele tem o direito de ter a informação”. Nós investimos fortemente. Não importa o fato de não termos renovado os direitos. O que importa é que nosso fã de esporte vai continuar acompanhando todas as informações da Champions e terá certeza que a casa da Champions também é a ESPN. Fizemos a temporada passada de tal modo que nosso fã de esportes soubesse que aquela era a melhor cobertura possível que poderíamos fazer

Trivela – Muitos dos nossos leitores sentiram falta de uma cobertura da ESPN que falasse mais sobre a Champions League na primeira rodada. Vocês também sentiram isso? Como pretendem fazer para as próximas rodadas?

Palomino – Há um acordo de cessão de imagens. Nós podemos ter os gols depois de um determinado tempo, após o final das partidas. Tínhamos que aguardar aquele tempo para podermos falar da Champions. Mas tem um dado curioso em relação a isso: nós fizemos o tempo real dos jogos no nosso site e, sem poder usar as imagens, tivemos os mesmos resultados de quando tínhamos os direitos de transmissão. As pessoas ainda nos procuram para acompanhar.

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Trivela – Mesmo sem as imagens, não poderia haver um debate assim que acabassem os jogos?

Palomino – É muito melhor se você ilustrá-lo, termos a imagem do que estamos falando. Estamos tratando de televisão. A pessoa espera as imagens para ter nossos comentários. É uma escolha editorial para emoldurar o que está passando.

Trivela – A ESPN anunciou que o Futebol no Mundo passará a ser diário, e não mais duas vezes por semana. É o programa mais antigo da emissora que ainda está no ar. O que ele trará de novidade nesta versão?

Palomino – Queremos dar uma característica mais de revista para intensificar os jogos que transmitimos. Havíamos uma carência. Temos programas que falam muito de futebol nacional, mas pensamos que a extensão do futebol do mundo para um programa diário poderia cativar mais quem nos reconhece como a casa do futebol internacional. Os números iniciais são espetaculares. Superaram muito nossas expectativas.

Trivela – Primeiro, veio a Fox Sports com muito dinheiro. Agora, o Esporte Interativo. Como lidar com esse mercado de direitos de transmissão cada vez mais inflacionado e difícil?

Palomino – Sempre que houve um fator de inflação de campeonatos, por conta de um novo player que chega ao mercado, ela durou muito pouco. Os valores ficam tão proibitivos que, em geral, os direitos são sublicenciados, como vem acontecendo rotineiramente. O que fazemos é entender que essas ondas do mercado de direitos também têm que ser entendidas como resultado que você vai ter. Não adianta investir absurdamente e não conseguir tirar do campeonato aquilo que você investiu. O que vemos é que isso são ondas que acontecem e depois o mercado se ajusta. Esperamos que isso aconteça.

Trivela – Uma estratégia para compensar a perda de alguns eventos foi apostar em mais programação ao vivo, com vários Bate-Bolas e Sportscenters? Isso vem dando resultado?

Palomino – Sim. Muito resultado. Nossa escolha independia dos direitos porque os horários em que ocorrem os programas não são os mesmos dos campeonatos internacionais. Foi uma escolha para estender a grade ao vivo porque acreditamos que o cara que gosta de esporte, que se acostumou à opinião da ESPN, é muito carente de programação ao vivo. Foi uma escolha acertada porque vimos isso acontecer em outros canais também.

Trivela – E a mudança para tom mais descontraído e menos sério, que era uma das marcas da ESPN?

Palomino – Eu diria que hoje o que pretendemos em nossos programas é ter mais leveza, pois não vamos deixar de analisar a crise da Fifa e do futebol brasileiro. Não vamos deixar de analisar as circunstâncias em que o futebol brasileiro está mergulhado na corrupção, mas existem momentos em que o cara que está em casa quer ouvir falar de futebol com leveza. O esporte permite esse tom, mas sem deixar de lado a característica maior que nos define, e muito menos deixar de lado uma palavra que é muito poderosa e que custou anos para a construirmos que é a credibilidade. Não vamos abrir mão do que nós representamos ao nosso fã de esporte.

Trivela – Então, você discorda de quem critica o canal por ter fugido um pouco da sua identidade?

Palomino – Não tenho dúvida de que estamos mantendo nossa identidade, que estamos mantendo aquilo que nos representa: credibilidade, profundidade de análise, criando alguns programas que são resultado disso. Mas você muda o tom porque percebe que as pessoas estão gostando do que está acontecendo. Não precisamos ser ranzinzas e mal-humorados no ar. Não precisamos necessariamente fazer uma análise de jogo de futebol como se fosse guerra ou morte. É possível dar risada.

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Trivela – Outra mudança também foi agregar mais ex-jogadores como comentaristas. Como você vê isso?

Palomino – Há uma polêmica muito grande em torno da função de comentarista exercida por um jornalista e por um jogador de futebol. Não vejo uma sobrepondo a outra. Elas são complementares, e temos inúmeras provas de que são verdadeiramente isso. Existem circunstâncias que apenas um jornalista pode traduzir melhor para um telespectador. Só o jornalista tem o poder de ser sucinto, direto e informativo. Ao mesmo tempo, e paralelamente, não eliminado isso, existe o ex-jogador, que tem capacidade de traduzir o que houve em um vestiário, na conversa entre os jogadores. Ele vivenciou aquilo, é uma testemunha ocular, viveu aquelas circunstâncias.

Trivela – E como está o planejamento para os Jogos Olímpicos do ano que vem?

Palomino – Nossa cobertura vai convidar o fã de esporte a não tocar no controle remoto. Queremos prover uma cobertura intensa e jornalística que coloque nosso fã de esporte junto com os brasileiros que estão disputando as Olimpíadas. Temos três canais mais o Watch para mostrar a competição. Contratamos especialistas, já colocamos o Segredos do Esporte no ar. Tem um grupo quase inteiro dedicado a essa cobertura e temos a possibilidade de repetir o que fizemos na Copa do Mundo com as outras ESPNs. Somos os anfitriões da Olimpíada.

Trivela – Vão continuar falando de futebol durante a Olimpíada?

Palomino – Se o Campeonato Brasileiro não parar, com certeza.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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