A carreira de Kylian Mbappé eclodiu muito por conta da Champions League. O arrasador do adolescente seria decisivo para o Monaco alcançar as semifinais em 2016/17 e para que ele se transformasse em um dos jogadores mais caros da história do futebol. O ponta protagonizou atuações mágicas naquela caminhada, mas ainda não tinha gerado um impacto tão grande pelo Paris Saint-Germain na . A noite de 16 de fevereiro de 2021, entretanto, será para sempre especial ao francês. Mbappé teve sua melhor apresentação pelo torneio e também com a camisa do PSG, para destroçar o Barcelona nos 4 a 1 em pleno Camp Nou e reivindicar ainda mais holofotes ao seu futebol.

Pelo Monaco, Mbappé havia sido decisivo contra Manchester City e Borussia Dortmund na Champions League. Foram cinco gols em quatro jogos, que valeram o reconhecimento ao prodígio, até a eliminação diante da Juventus na semifinal de 2016/17. Contudo, com a camisa do PSG, o atacante ainda devia seu melhor momento no torneio continental. Chegou a fazer uma boa partida contra o Manchester United em 2019, mas não evitou a eliminação na volta. Mesmo na campanha passada, não conseguiu ser tão preponderante na sequência até a decisão, por mais importante que tenha sido na emocionante classificação contra a Atalanta. Até por isso, a visita ao Barcelona guardou um caráter especial nesta terça-feira.

O Paris Saint-Germain retornava ao palco no qual havia sofrido talvez a derrota mais dura de sua história, os 6 a 1 que classificaram o Barcelona em 2016/17. Os franceses tentaram levantar a poeira após aquele duro golpe. E uma das principais respostas foi exatamente a contratação de Mbappé. O atacante teria responsabilidades redobradas na volta ao Camp Nou, sobretudo pela ausência de Neymar. Num duelo particular com Lionel Messi, tal qual havia ocorrido na Copa do Mundo de 2018, o francês parecia mais motivado para reivindicar o estrelato. E ninguém tira os méritos de sua exibição de gala.

Não dá para resumir a grande jornada do PSG a Mbappé, é claro. Vários jogadores fizeram partidas acima da média no Camp Nou. Marquinhos liderou a zaga com imponência, enquanto Alessandro Florenzi e Layvin Kurzawa foram escapes importantes pelos lados. Leandro Paredes doutrinou na cabeça de área e criou os lances de dois gols, enquanto Verratti orquestrou a criação na faixa central. Mesmo mais à frente, Kean apareceu com potência pela direita e explorou os espaços. Mas ninguém com o nível de inspiração demonstrado por Mbappé, que também não pode ser resumido aos três gols.

Mbappé sentiu perfeitamente a temperatura do confronto e chamou o jogo para si. O atacante foi um tormento à marcação do Barcelona a todo momento, dando profundidade pelo lado esquerdo, mas também fechando pelo meio. O camisa 7 foi o quarto jogador do PSG que mais participou da partida, atrás apenas dos três principais articuladores da equipe – Marquinhos, Paredes e Verratti. Tal número dimensiona sua vontade de aparecer no Camp Nou. Conseguiu, convertendo os gols, mas sendo muito mais do que isso.

Ao longo da partida, Mbappé foi bastante intenso no setor de criação do PSG. Das 16 finalizações da equipe, seis saíram de seus pés e mais quatro nasceram a partir de seus passes, sem que os companheiros aproveitassem. Não havia apenas um corredor pela esquerda, mas uma autoestrada à velocidade máxima do possante francês. Se durante o primeiro tempo ele já causou estrago e também permitiu a passagem de Kurzawa, na segunda etapa ele daria uma canseira ainda maior na lenta marcação do Barcelona. Era impressionante como o camisa 7 levou a melhor em praticamente todos os dribles que tentou. Nada mais simbólico do que a cena de Gerard Piqué tentando puxar sua camisa, inutilmente, para que o jovem arrancasse e proporcionasse mais um avanço.

De qualquer maneira, a fatia principal do bolo são os gols. Sobrou qualidade a Mbappé nos três. O primeiro se destaca por seu talento para trabalhar num espaço curtíssimo. Diante do passe cheio de estilo dado por Verratti, o artilheiro dominou com dificuldades dentro da área, mas foi ágil o suficiente para tirar os dois zagueiros no mesmo corte. Então, bateu com muita força para vencer Stegen. O segundo gol teve uma dose de sorte, mas também de inteligência no posicionamento, com Mbappé à espera da sobra mais recuado. Por fim, o terceiro guardou a melhor finalização, num tapa de direita apenas para tirar a do alcance de Stegen.

O jogo proporcionou um simbolismo ainda maior a Mbappé, por seu lugar na história do PSG. O atacante superou Pauleta como terceiro maior artilheiro do clube. Com 112 tentos, o francês tem números para ultrapassar Zlatan Ibrahimovic já na próxima temporada e tirar uma boa diferença em relação aos 200 tentos de Edinson Cavani. Aos 22 anos, se apostar mesmo no projeto dos parisienses, o francês possui tempo de sobra para esmerilhar tais marcas. E não parece provável que saia tão cedo, considerando a retração do mercado por causa da pandemia.

O Paris Saint-Germain ainda precisa assegurar a classificação no Parc des Princes. Considerando o que aconteceu em 2017, não dá para considerar a vaga nas quartas de final como certa. Porém, também é difícil imaginar que os parisienses terão uma postura tão passiva quanto nos 6 a 1 de quatro anos atrás, especialmente por possuírem craques como Mbappé e Neymar à disposição. A nova história escrita pelo PSG nos encontros com o Barcelona parece distinta daquela que se vivia anos atrás. Mbappé é um nome imprescindível a isso.