Champions League

O gol de Agüero em 2012 marcou a vida de Giovanni Reyna: garantiu um dos últimos momentos felizes com o irmão que ele perdeu

Torcedor do City por causa do pai, que jogou no clube, Gio perdeu seu irmão pouco depois daquela conquista

Erling Braut Haaland foi o centro das atenções no Manchester City x Borussia Dortmund pela Champions League, ao enfrentar o antigo clube do pai. Porém, não era o único jogador aurinegro que tinha relações de infância com os celestes. Giovanni Reyna nasceu em Sunderland, onde seu pai atuava, mas se mudou com a família para Manchester meses depois. Antigo capitão da seleção dos Estados Unidos, Claudio Reyna assinou com o City em 2003 e defendeu o clube por quatro temporadas. Passou tempo suficiente para Gio criar uma ligação especial com os Citizens, mesmo se mudando para Nova York com cinco anos, quando seu pai voltou à MLS.

A relação de Giovanni Reyna com o Manchester City, no entanto, não se restringe apenas a Claudio. O carinho pelo clube inglês também traz doces lembranças sobre Jack Reyna, irmão mais velho de Gio, que faleceu aos 13 anos com um tumor no cérebro. E foi exatamente a conquista da Premier League em 2011/12, com o épico gol de Sergio Agüero, que proporcionou um dos últimos momentos felizes entre os irmãos. O encontro com Agüero nesta semana deve ter sido especialmente tocante ao meia de 18 anos.

Em dezembro de 2020, Gio relembrou essa história ao Players Tribune. Abaixo, traduzimos um trecho do texto, recontando tal relação.

*****

Um dia desses, preciso mesmo dizer obrigado a Sergio Agüero.

Por um longo tempo, pensei que precisava jogar contra esse cara, para então falar com ele. Não apenas porque meu avô é argentino, ou porque Sergio é um dos jogadores preferidos da minha família, ou porque na Copa do Mundo de 2018 nós todos sentamos diante da TV torcendo pela Argentina.

Nah. Tenho uma história para contar a ele. Há muitos anos, Sergio marcou um gol que proporcionou um dos momentos mais felizes da minha vida.

Para entender, você precisa conhecer meu irmão mais velho, Jack.

Jack e Gio (Foto: Arquivo pessoal)

Jack era meu herói quando criança. Algumas pessoas acham que meu pai, Claudio, me tornou um bom jogador, já que ele era profissional. De fato, ele me deu ótimos conselhos e alguns genes muito bons. Mas quando eu estava crescendo em Manchester, onde meu pai jogava pelo Manchester City, quem sempre jogava bola comigo no quintal era Jack.

Tínhamos aqueles antigos golzinhos, você conhece? Um contra um, sem nenhum lugar para se esconder. Eu tinha quatro anos e Jack era três anos mais velho, então às vezes ele me deixava ganhar com alguns chutes por baixo do seu pé. Na maioria das vezes, entretanto, Jack garantia que eu perdesse. E eu ficava com raiva. Eu o chutava, o mordia, brigava com ele. Então chorava e corria para a minha mãe, Daniele. Esses jogos me fizeram crescer muito, e meu pai dirá a mesma coisa. Minha competitividade, minha agressividade, tudo isso veio de tentar ganhar do Jack.

Ele era o irmão perfeito. Eu sempre fui uma criança tímida, então ele me integrava em tudo que fazia com seus amigos, o que significava que eu jogava contra garotos mais velhos. Isso me deu confiança. Quando eu não estava por perto, ele dizia coisas boas sobre mim. Quando ele percebeu que eu seria melhor do que ele, ele me motivou para me tornar o melhor possível. E se eu fazia uma boa partida, ele seria a primeira pessoa a me ligar para dizer que joguei bem.

Em 2007, nossa família se mudou para Nova York, onde meu pai jogava pelo New York Red Bulls. No verão de 2010, Jack foi diagnosticado com câncer no cérebro. Ele tinha 11 anos. A certa altura, parecia que ele ia vencer a doença, mas em dezembro de 2011 os médicos descobriram que o tumor voltou. Pouco depois, quando fomos de férias para o México, Jack começou a ficar doente e a ganhar peso por causa da quimioterapia. Ele ainda conseguia andar e nadar, mas ficava cansado muito rápido. Foi quando percebi que aquilo poderia terminar de um jeito muito ruim.

Nos meses seguintes, fiz de tudo para ajudar Jack. Precisei crescer rápido. Ele não conseguia se levantar. Chegou a um ponto em que ele precisou usar fraldas. Aprendi como fazer comida no micro-ondas, a lavar a louça e coisas do tipo. Também saía muito com meu irmão mais novo, Joah-Mikel, e com minha irmã mais nova, Carolina, que também estavam enfrentando momentos difíceis. Eu só queria fazer minha família feliz e fazer Jack feliz, é claro. Todos queríamos, especialmente quando soubemos que ele só tinha alguns meses de vida. Todas as noites, na mesa do jantar, contávamos histórias e ríamos. Todas as noites. De alguma forma, mesmo em uma situação tão devastadora, conseguíamos nos divertir um pouco.

Giovanni Reyna, do Borussia Dortmund (Foto: DANIEL ROLAND/POOL/AFP via Getty Images/One Football)

Um dia, em maio de 2012, quando Jack tinha 13 anos, nos reunimos na sala para ver a rodada final da Premier League. Acho que até meus avós estavam lá. Nós éramos todos torcedores do City, porque meu pai jogou lá, e naquele dia o City poderia conquistar seu primeiro título no Campeonato Inglês em 44 anos, se vencesse o Queens Park Rangers em casa. Se o City não ganhasse, precisávamos torcer para que o Manchester United, que estava atrás apenas no saldo de gols, também não vencesse.

Estávamos todos muito certos de que o City iria derrotar o QPR, um dos piores times do campeonato. Quando o City marcou no primeiro tempo, a vitória e o título pareciam mera formalidade.

Mas o QPR virou o jogo e ficou em vantagem no segundo tempo. Como o United estava vencendo, o City precisava de dois gols. Na nossa casa, ninguém mais estava sorrindo. Eu me senti mal por Jack. Ele estava tão doente naquele momento que não conseguia andar ou falar. Agora ele também não veria o City vencer a liga.

Aos 47 do segundo tempo, Edin Dzeko empatou. Isso nos deu alguma esperança, mesmo que o jogo estivesse quase acabando. Dois minutos depois, Agüero marcou o gol da vitória.

Você já viu esse gol. Você já ouviu a narração.

“AGÜEROOOOOOO!!”

O gol histórico de Agüero (Foto: Imago / One Football)

Ficamos malucos em casa. Estávamos pulando, gritando, comemorando, nos abraçando. O primeiro título em 44 anos! Conquistado da maneira mais incrível! Olhávamos uns para os outros sem acreditar.

De repente, ouvimos alguém com falta de ar. Era o Jack. Ele estava rolando no chão, apareceu do nada, mal tinha energia em seu corpo. Ficamos preocupados. Por 20 segundos, parecia que ele não conseguia respirar.

Então, lentamente, Jack abriu um sorriso e começou a gargalhar. Percebemos que ele estava comemorando o gol. Ele estava tão feliz quanto nós.

Nunca vou esquecer aquele momento. Foi tão incrível, tão engraçado, tão maluco.

Pouco mais de nove semanas depois, em 19 de julho, Jack faleceu.

Perder seu irmão mais velho quando você tem nove anos muda a maneira como você vê a vida. Você aprende a não considerar nada, nem ninguém, como garantido. Os anos seguintes à morte de Jack foram muito difíceis para toda a família. Pessoalmente, eu me senti perdido. Os esportes se tornaram meu refúgio.

Clique aqui para ler o texto completo, em inglês, no Players’ Tribune

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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