Champions League

Não é a frustrante eliminação que apaga os lances impressionantes de Mbappé no Bernabéu

Mbappé fez um daqueles jogos que rendem aplausos no Bernabéu, mas a torcida merengue estava mais ocupada celebrando os heróis de sua virada

Pouco importava se o sonho de Kylian Mbappé é defender o Real Madrid, se o seu destino poderá ser a Espanha dentro de alguns meses, se ele ficou deslumbrado ao pisar no gramado do Santiago Bernabéu. Acima de tudo isso, o atacante estava disposto a se consagrar contra o potencial futuro clube. Durante os 180 minutos do confronto pela Champions League, o francês fez partidas brilhantes e parecia encaminhar a classificação do Paris Saint-Germain. Contudo, o Real Madrid teve Karim Benzema, Luka Modric, mais time e também mais força mental. A reviravolta com os 3 a  1 no placar aconteceu apesar de Mbappé. E num esporte no qual só um sai vencedor, isso não impede os elogios à maneira como o jovem se apresentou em Madri.

Mbappé causou um terremoto na partida de ida dentro do Parc des Princes. Foi o principal nome do PSG e marcou um gol fantástico para definir o jogo no apagar das luzes. Era a prova irrefutável do protagonismo que o atacante possui na Champions League – algo construído desde os tempos de Monaco, mas que atinge uma percepção acima desde a temporada passada. As chances de título dos parisienses se expandiam a partir de seu craque. Porém, o clube e o próprio Mbappé aprenderiam da forma mais dolorosa que isso não era suficiente.

O primeiro tempo de Mbappé dentro do Santiago Bernabéu já foi excelente. O atacante parecia disposto a provar que mantinha seu compromisso com o PSG, ao mesmo tempo em que se dispunha a ser aplaudido pela exigente torcida merengue, que tradicionalmente se rende aos craques adversários. O gol do francês até demorou. Errou algumas finalizações, teve um tento anulado quando acertou um cirúrgico tapa no canto. Mas estava claro de novo como ele era o protagonista, mesmo com Neymar e Lionel Messi ao lado. Os companheiros passavam para Mbappé acelerar e explorar os espaços da marcação do Real Madrid. Foi assim que veio o seu gol, com ginga para cima de David Alaba e batida forte no canto que também contou com a colaboração de Thibaut Courtois.

O início do segundo tempo, por sua vez, se mostrava consagrador para Mbappé. Não parecia ser possível existir algum ser humano capaz de marcá-lo na noite. Todos comiam poeira, só as faltas pareciam capazes de pará-lo. Ou a bandeira. E foi um pecado que seu segundo gol tenha sido anulado, com a pedalada deslumbrante para cima de Courtois – um lance com assinatura de craque, daqueles que raramente vemos no futebol atual, e menos ainda num jogo dessa grandeza. Só que, mesmo com tamanha inspiração de Mbappé, Alaba ainda fazia boa partida para brecá-lo. Tanto é que realizaria um desarme providencial no que seria o segundo gol. A salvação que precedeu a revolução liderada por Benzema.

Não houve Mbappé que bastasse diante da maneira como o Real Madrid se agigantou no jogo. Benzema exibiu quem está mais acostumado com partidas desse peso e deixou o companheiro de seleção apenas como um coadjuvante na virada merengue. Mbappé pode até ter sentido o baque, bem menos efetivo quando o time mais precisava dele para tirar o coelho da cartola. Ainda assim, não dá para colocar na conta de quem vinha empurrando a equipe como um todo. Foi o PSG inteiro que desabou, e qualquer capacidade de reação desapareceu num time que desaprendeu a construir jogadas. Que já não tinha a avenida para o seu craque disparar e tirar o fôlego dos perseguidores. O Real também achou seu encaixe, enquanto os parisienses desmontaram.

Em cinco edições de Champions com o PSG, Mbappé acumula 27 gols e 23 assistências em 44 partidas. Disputou final, derrubou adversários como Barcelona e Bayern de Munique. Provou-se como um dos melhores de sua geração, mesmo que o troféu não tenha vindo. A atual campanha, mesmo sem a renovação de seu contrato, apresentou seu empenho para não perder o bonde da história ao lado de outros craques. Fica a frustração por seu máximo não ter impedido a eliminação frustrante no Bernabéu. Mas não é isso que apaga tudo o que construiu e que nem mesmo anula sua exibição maiúscula contra o Real Madrid. Seria um daqueles dignos dos aplausos da torcida merengue, mas ela estava ocupada para ovacionar os heróis de branco nesta noite.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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