Champions League

Messi destruiu o jogo de xadrez entre Barcelona e Bayern com dois sopros de genialidade

“Neste momento, nenhuma defesa pode pará-lo”. Quando Guardiola disse isso, imaginava que estava mais sendo respeitoso ao jogador que lhe ajudou a conquistar tantos títulos do que fazendo uma premonição. Também estava afirmando o óbvio. É impossível anular Messi. O máximo que você pode fazer é minimizá-lo, fechar os espaços, impedir que fique muito tempo com a bola nos pés. Ceder um, dois lances, no máximo. E a crueldade é que às vezes ele não precisa de mais do que isso para decidir a partida.

Barcelona e Bayern de Munique foi um duelo tático, muito mais do que técnico no Camp Nou. Um jogo de xadrez. Messi atuou como a criança que fica impaciente com a morosidade do jogo estratégico, mesmo que seja admirável. Pegou a rainha, derrubou todas as peças de uma vez e atacou o rei. Precisou de dois lances, ambos dissociáveis da lenda que construiu. Um chute de canhota da entrada da área, após puxar a bola para a esquerda. Já deve ter marcado mais de uma centena de vezes desse jeito. O outro avançando pela direita, driblando curto e encobrindo o goleiro. Outra centena saiu assim. No contra-ataque, Neymar matou a partida e provavelmente a classificação: 3 a 0.

Guardiola foi atrevido, como aquele jogador de pôquer que gosta de correr riscos e ser agressivo a apostar conservadoramente, de acordo com as probabilidades de vencer a mão. Conhece como ninguém o que acontece com os visitantes no Camp Nou. Sabe que é quase impossível ficar com a bola desde que ele mesmo ensinou o Barcelona a nunca abrir mão dela. Mas, se o mestre deu, o mestre pode pegar de volta. Nisso foi de fato bem sucedido: terminou a partida com 52% de posse de bola.

Ao desavisado, a escalação do Bayern de Munique indicava uma linha de quatro jogadores na defesa, com Rafinha à direita e Bernat à esquerda. Em um jogo desse tamanho, era óbvio que Guardiola tentaria algo diferente, exatamente a característica que o faz tão bom treinador, mas que às vezes coloca o seu time em apuros. Nos primeiros 15 minutos da semifinal, era só apuro. O lateral brasileiro era terceiro zagueiro pela esquerda para marcar a canhota de Messi com a sua perna direita. Bernart estava andiantado, como ala esquerdo. Lahm pelo meio e Thiago fechando o lado direito.

Primeiro problema: apenas três zagueiros para marcar três atacantes. Essa conta não seria necessariamente um problema se não estivesse em campo o (atualmente) melhor trio ofensivo do mundo contra um trio defensivo que, convenhamos, é bom, mas nem tanto. Benatia conseguiu segurar Neymar; ninguém consegue parar Messi; e no primeiro tempo Boateng sentiu apenas o deslocamento de vento causado por Suárez. Em uma bola estourada do Barcelona, Messi dividiu pelo alto com Rafinha em direção ao uruguaio. Suárez e Boateng partiram do mesmo ponto do meio-campo. Suárez chegou com duas horas de antecedência à presença de Manuel Neuer. Finalizou muito bem, buscando o canto, um chute que costuma funcionar com 99% dos goleiros. Pena, para o Barcelona, que Neuer pertence à exceção que não se permite tomar qualquer tipo de gol. Esticou a perna e desviou.

Em menos de cinco minutos, como se fosse aquela propaganda irritante que não para de passar na televisão, o mano a mano entre Suárez e Boateng se repetiu. O camisa 9 blaugrana dominou a bola dentro da área e puxou para a direita. O dribles mais simples que já inventaram, o que não significa que seja fácil impedi-lo. Cruzamento rasteiro para Neymar, que conseguiu desviar mais ou menos. Rafinha, em cima da linha, cortou para fora.

Segundo problema: a defesa muito avançada, mais do que o comum, contra Iniesta e Rakitic, dois meias com visão de jogo excepcional e passe apurado. O mérito dessa estratégia foi ter sido bem sucedido na ambição de ficar com a bola mais tempo que o Barcelona, no Camp Nou, um dos grandes desafios da civilização moderna, mas os riscos eram grandes demais por tudo que estava em jogo. Guardiola apostava as fichas que sobraram nesta temporada em uma mão com poucas probabilidades de vitória. Precisaria completar o full house nas cartas que seriam viradas.

Tanto que por volta dos 20 minutos, ele recompôs a linha de quatro zagueiros com Rafinha em uma lateral e Bernat na outra. Continuou com a defesa adiantada, bom para reduzir o espaço de criação de Suárez, Messi e Neymar, ruim quando eles partiam em velocidade no contra-ataque. Esse, um risco mais calculado. Pelo menos equilibrou a partida, embora as chances mais agudas da primeira etapa tenham sido do Barcelona, às quais se acrescenta um passe brilhante por cavadinha de Iniesta para Daniel Alves que exigiu outra grande defesa de Neuer. O Bayern de Munique conseguiu quase marcar em um cruzamento rasteiro de Müller, que Lewandowski não conseguiu alcançar.

A intensidade caiu no segundo tempo e o físico começou a pesar. Mais para o Bayern de Munique do que para o Barcelona, voando nesse aspecto, graças ao revezamento de Luis Enrique. Esse esgotamento causou algo extraordinário. A equipe conhecida pelo toque de bola acertou 80% dos passes, taxa inferior à normal (em La Liga, é de 88%). A que é treinada por Guardiola, 84%, também abaixo do comum (87% na Bundesliga). As defesas avançadas dos dois times concentravam a partida entre as duas intermediárias. Na maior parte do tempo, não era mais um campo com 105 metros de largura. Era pelo menos um terço disso.

Tudo muito bonito, tudo muito bacana, mas o jogo havia ficado chato para quem assistia apenas pelo amor ao esporte. O nervosismo dos torcedores de cada uma das equipes compensava isso. Ao resto, quem compensou foi Messi. Um jogo tão equilibrado tática e tecnicamente, tão brigado e valendo tanta coisa, poderia apenas ser decidido na indiviualidade. Um erro na saída de bola de Bernat permitiu a Daniel Alves driblar Xabi Alonso com facilidade. Messi recebeu na entrada da área, cortou para a esquerda e acertou o canto de Neuer. Simples. Ou pelo menos é assim que ele faz parecer.

Sem tempo para reação. Tão rápido quanto um soco de Floyd Mayweather. Três minutos depois, Messi novamente caiu pela ponta direita e encontrou a marcação de Boateng, um bom zagueiro em um dia incrivelmente infeliz. Ou mesmo toda a felicidade do mundo não conseguiria fazê-lo parar o camisa 10. Um corte em direção ao meio da área rapidamente anulado por outro em direção à linha de fundo. Boateng perdeu o chão. Caiu como se de repente a gravidade tivesse sido ativada. Bastou a Messi encobrir Neuer com aquela cavadinha que tanta gente sabe fazer, mas ninguém com tanta eficiência quanto ele.

Apenas o terceiro gol, em que Neymar avança pelo campo após ultrapassar o último jogador da defesa do Bayern no círculo central, condiz com os efeitos colaterais de jogar com a tática arriscada que Guardiola adora, mas é difícil colocar a culpa da derrota nisso. O que decidiu a partida foram jogadas e erros individuais. Antes deles, o jogo caminhava morno para um empate ou para uma vitória magra de um dos lados, mantendo a eliminatória aberta para a Allianz Arena. Mas enquanto os erros dos seres humanos são comuns e podem acontecer com todos, quando os extraterrestres fazem o que sabem fazer, como disse Guardiola, é impossível pará-los.

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Equipe Trivela

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