Champions League

Da KGB à Champions, dentro de uma região separatista: A trajetória do Sheriff Tiraspol rumo ao ápice na Europa

O Sheriff Tiraspol coloca a Moldávia pela primeira vez no mapa da Champions, mas a história do clube foge totalmente de qualquer roteiro de orgulho moldavo

O Sheriff Tiraspol perseguia seu espaço na fase de grupos da Champions League faz tempo. O clube fundado em 1997 domina o Campeonato Moldavo desde 2000/01. Nas últimas 21 edições da liga nacional, os aurinegros acumularam 19 títulos. Sempre entraram nas preliminares da Champions, mas bateram na trave duas vezes, quando caíram na última fase qualificatória. Como consolação, acumulavam quatro participações na fase de grupos da Liga Europa. No entanto, num momento em que o Sheriff nem era exatamente tão cotado nesta temporada, cumpriu sua façanha. As Vespas eliminaram Teuta, Alashkert, Estrela Vermelha e Dinamo Zagreb para, enfim, figurar na etapa principal da Liga dos Campeões. Colocam a Moldávia pela primeira vez no mapa da competição, embora sejam de uma região separatista e estejam intimamente ligados ao passado soviético, com sua trajetória impulsionada por negócios escusos liderados por ex-agentes da KGB.

Para contar a história do Sheriff Tiraspol, é preciso remontar à dissolução da União Soviética em 1991. A Moldávia era uma das repúblicas que se tornaram independentes. Entretanto, havia um movimento separatista dentro do próprio território moldavo: a Transnístria, região na fronteira com a Ucrânia, que tem sua capital na cidade de Tiraspol. A Transnístria possui população de maioria étnica russa e ucraniana, diferentemente do restante da Moldávia, culturalmente mais próximo da Romênia – como bem explica nesta thread o ótimo Copa Além da Copa. A região separatista chegou a declarar sua independência, reconhecida apenas por outros antigos territórios soviéticos que não se tornaram novos estados. Em consequência, o local foi palco de um conflito armado durante quatro meses em 1992, até moldavos e transnístrios acertarem o cessar-fogo.

A acordo entre Moldávia e Transnístria foi supervisionado pela Rússia. Há uma área contínua desmilitarizada entre a região transnístria e o restante do território moldavo. Mesmo sem um reconhecimento de independência, os separatistas puderam constituir uma república com seu próprio governo, parlamento, constituição, forças armadas, moeda, bandeira e hino nacional. O trânsito entre as duas regiões é controlado. Além disso, desde 1992, a Rússia mantém um contingente militar na Transnístria como parte do acordo pelo cessar-fogo.

Foi neste contexto que surgiram as bases para a fundação do Sheriff Tiraspol. Antes disso, porém, foi criado o conglomerado que é dono do clube. Em 1993, antigos membros da KGB, o serviço secreto da União Soviética, formaram uma empresa de segurança na Moldávia. O nome dessa companhia? Sheriff. Entretanto, a relação dos donos do negócio com o governo local da Transnístria permitiu que a Sheriff crescesse bastante. Numa troca de favores, a empresa passou a apoiar o presidente transnístrio Igor Smirnov e ganhou benefícios, com a redução de impostos e a vista grossa para irregularidades. O próprio filho de Smirnov virou diretor da companhia.

A Sheriff estabeleceu um monopólio na Transnístria, ampliando sua atuação a diversas áreas, em meio ao processo de privatização após o fim da União Soviética. O império abarca também supermercados, postos de gasolina, uma empreiteira, uma fábrica de celulares e até mesmo uma rede de televisão – isso sem contar as acusações de atividades ilegais, como o contrabando de cigarros e armas, através da fronteira com a Ucrânia. Uma investigação realizada pelo governo britânico chegou até mesmo a chamar a Transnístria de “uma empresa de tráfico mascarada pela fachada de um estado”, diante das operações da Sheriff. No entanto, no início da década passada, haveria uma cisão da Sheriff com o presidente Smirnov e a troca de governos que diminuiu os favorecimentos – por mais que a influência da companhia se mantivesse no parlamento através de seu próprio partido político.

O futebol entrou no mostruário da Sheriff ainda nos anos 1990, quando as relações escusas com o governo da Transnístria floresciam. O Sheriff Tiraspol seria fundado em 1997, aproveitando a estrutura de outro clube da cidade que disputava a terceira divisão desde a temporada anterior – a principal equipe local era o Tiligul Tiras, que figurava na elite e foi tricampeã da copa nacional nos anos 1990. Um ex-agente da KGB, sócio-fundador da Sheriff, se tornou o responsável por gerir o novo clube da cidade. Enquanto isso, o conglomerado passou a investir no elenco e na estrutura, com um moderno estádio e um excelente centro de treinamentos. A Sheriff emprestou sua logomarca até para o escudo e tornou o novo clube de Tiraspol o mais rico da Moldávia.

Logo o Sheriff Tiraspol se tornaria uma bandeira da Transnístria dentro do Campeonato Moldavo, para demonstrar a superioridade local sobre o restante do país – ainda que exista mais um desejo de união com a Rússia do que um senso de separatismo ao redor do clube. Em suas arquibancadas, os torcedores costumam exaltar as ligações com os russos e reservar insultos aos moldavos. Enquanto isso, os donos da Sheriff também vislumbraram o potencial do negócio – ainda mais com o futebol sendo um excelente meio para lavagem de dinheiro. Os dirigentes passaram a encher o time de jogadores estrangeiros (sobretudo de outros países do Leste Europeu, da África e do Brasil) para revendê-los depois e assim movimentar dinheiro como bem entendessem. Mas, indo além das segundas intenções, a fórmula também deu resultado em campo. Os aurinegros começaram a dominar a liga nacional e a elevar o desempenho do futebol moldavo além das fronteiras.

O Sheriff Tiraspol que venceu o Dinamo na ida (Foto: Imago / One Football)

O Sheriff Tiraspol conquistou dois acessos consecutivos até estrear no Campeonato Moldavo na temporada 1998/99. Terminou em quarto na liga, mas conquistou a Copa da Moldávia naquele primeiro ano, o que garantiu a vaga inédita na Copa da Uefa. Desde então, os aurinegros se classificaram em todas as temporadas para as competições continentais. Em suas duas primeiras aparições europeias, as Vespas caíram logo na primeira fase da Copa da Uefa, superadas por Sigma Olomouc e Olimpija Ljubljana. Ainda assim, a conquista inédita da liga nacional em 2000/01 garantiria a vaga na Champions seguinte.

No início do século, o Sheriff Tiraspol emendou um decacampeonato na Moldávia, desbancando a hegemonia anterior do Zimbru Chisinau. A partir de então, se iniciaram as empreitadas na Champions. Em suas primeiras oito aparições no torneio, os aurinegros sempre passaram pela primeira fase preliminar e caíram na segunda. A lista de algozes incluía clubes tradicionais, como Anderlecht, Shakhtar Donetsk, Rosenborg, Partizan Belgrado, Spartak Moscou, Besiktas e Sparta Praga. No entanto, o Sheriff conseguiu dar o passo além em 2009/10 e em 2010/11.

Nesta primeira temporada, o Sheriff Tiraspol superou a barreira da segunda fase preliminar, ao eliminar o Slavia Praga pelo gol fora após dois empates. Os transnístrios chegaram à última fase qualificatória, mas sofreram duas derrotas para o Olympiacos. Assim, precisaram se contentar com a fase de grupos da Liga Europa. Venceram apenas um jogo na chave que também reunia Fenerbahçe, Twente e Steaua Bucareste. Na temporada seguinte, o milagre se repetiu. O Sheriff eliminou o Dinamo Zagreb nos pênaltis durante a segunda fase preliminar da Champions. Caiu de novo na última etapa qualificatória, contra o Basel. Na fase de grupos da Liga Europa, novamente só venceu uma vez na chave de Dynamo Kiev, Bate Borisov e AZ.

Também foi na temporada 2010/11 que a sequência do Sheriff Tiraspol no Campeonato Moldavo seria interrompida, com a conquista do Dacia Chisinau. Depois disso, o Sheriff emendou um tricampeonato, até ser superado pelo Milsami Orhei em 2014/15. Cabe dizer que essas derrotas correspondiam a momentos financeiros mais duros para a Sheriff, com a empresa perdendo suas mamatas no governo da Transnístria e vendo também a fiscalização sobre o comércio ilegal aumentar na fronteira com a Ucrânia. Apesar disso, os aurinegros voltariam a reinar na metade final da década passada e emendariam um hexacampeonato até o título mais recente, em 2020/21. Além dos 19 troféus na liga moldava desde 2001, o clube acumula dez taças na Copa da Moldávia desde aquela primeira conquista em 1999.

Já nas copas europeias, o Sheriff Tiraspol não tinha conseguido repetir sua presença na última fase preliminar da Champions até esta temporada, mas voltou duas vezes à fase de grupos da Liga Europa. Em 2013/14, os aurinegros caíram na penúltima fase da Champions e passaram pelo Vojvodina na última preliminar da Liga Europa. Venceram um jogo na chave de Tottenham, Anzhi e Tromso. A história se repetiu em 2017/18, com a queda na penúltima fase preliminar da Champions e a passagem sobre o Legia Varsóvia rumo aos grupos da Liga Europa. Foi a melhor campanha do Sheriff, com duas vitórias e três empates. Ainda assim, o desempenho foi insuficiente para avançar no Grupo F, de Lokomotiv Moscou, Copenhague e Fastav Zlín – com os dinamarqueses eliminaram os transnístrios pela vantagem no confronto direto, ambos igualados com nove pontos.

Nas últimas três temporadas, o Sheriff Tiraspol tinha caído nas fases qualificatórias da Liga Europa. Chegou mais perto da fase de grupos da Liga Europa em 2018/19, quando sucumbiu diante do Qarabag na última etapa de classificação. Sucumbiria antes disso nos dois últimos anos, para AIK e Dundalk. Até que a história se cumprisse em 2020/21, na 23ª participação continental das Vespas.

Yuriy Vernydub, técnico do Sheriff (Foto: Imago / One Football)

O Sheriff Tiraspol começou esta Champions amassando o Teuta, campeão da Albânia, com vitórias por 1 a 0 e por 4 a 0. Na segunda fase, os transnístrios superaram o Alashkert – curiosamente, um time que também colocará a Armênia pela primeira vez na fase de grupos das copas europeias, ainda pendente se estará na Liga Europa ou na Conference. Neste duelo, o Sheriff ganhou os dois jogos, por 3 a 1 e 1 a 0. Já a façanha começou a se desenhar na terceira fase preliminar, contra o Estrela Vermelha. Os aurinegros arrancaram um surpreendente empate por 1 a 1 em Belgrado na ida e terminaram de completar o serviço com o 1 a 0 em Tiraspol.

Por fim, veio a classificação em cima do Dinamo Zagreb nesta última etapa preliminar. Um adversário que, afinal, trazia boas lembranças de outras aventuras anteriores do Sheriff Tiraspol na Champions. Durante a ida, a torcida vibrou bastante na Transnístria, com uma imponente vitória por 3 a 0. A missão dos croatas se tornava bastante difícil no Estádio Maksimir e os aurinegros terminaram de completar o feito nesta quarta, com o empate por 0 a 0. Os visitantes chegaram a mandar uma bola na trave e depois se concentraram na defesa para confirmar a histórica classificação. A Moldávia será o 34° país a figurar na fase de grupos da Champions.

O atual técnico do Sheriff Tiraspol é o ucraniano Yuriy Vernydub. O comandante dirigiu o Zorya Luhansk de 2011 a 2019, levando o clube à fase de grupos da Liga Europa em duas temporadas. Depois, dirigiu o Shakhtyor Soligorsk e foi campeão em Belarus, encerrando um jejum de 15 anos do time. E depois de faturar também o título moldavo na temporada passada, registra a maior conquista de sua carreira. Ao longo de sua história, o Sheriff apostou majoritariamente em técnicos estrangeiros. Somente três moldavos dirigiram a equipe nas últimas duas décadas, em lista extensa que inclui croatas, italianos, franceses, espanhóis, bielorrussos, sérvios, romenos, azeris e ucranianos.

Já em campo, o Sheriff Tiraspol corresponde à essa globalização – numa política de contratações que inclusive gera críticas entre os mais nacionalistas, que gostariam de ver a equipe investindo nos talentos transnístrios. Nesta quarta, apenas três jogadores moldavos foram relacionados para o duelo com o Dinamo Zagreb, e nenhum deles saiu do banco. Os 11 titulares eram estrangeiros, incluindo jogadores de Grécia, Peru, Colômbia, Luxemburgo, Gana, Mali e Brasil. O restante do elenco ainda inclui atletas de Sérvia, Bósnia, Trinidad e Tobago, Quênia, Macedônia do Norte, Níger, Costa do Marfim, Ucrânia e Eslovênia. Os brasileiros, aliás, são importantes no atual sucesso e na história dos aurinegros.

Três brasileiros foram titulares contra o Dinamo Zagreb nesta quarta: os laterais Fernando Costanza (ex-Botafogo) e Cristiano (ex-Volta Redonda), além do atacante Luvannor (ex-Morrinhos). Luvannor, inclusive, chegou a atuar pela seleção local e conquistou três títulos da liga moldava com os aurinegros – sobre sua história, vale conferir a entrevista concedida aos amigos do Futebol no Mundo durante a última semana. O Brasil representa o maior contingente de estrangeiros na história do Sheriff, com 29 atletas. Além dos nomes atuais, vale destacar o atacante Ricardinho, que defendeu as Vespas de 2013 a 2017 e por duas vezes foi artilheiro da liga nacional; e o zagueiro Nadson, que figurou nas primeiras campanhas internacionais, de 2005 a 2011.

O Sheriff Tiraspol poderá mandar seus jogos na fase principal da Champions League dentro de casa. Os donos do clube inauguraram em 2002 um estádio com padrão Uefa para 12 mil espectadores, que custou US$200 milhões e contou inclusive com a presença de Sepp Blatter em sua primeira partida. O local já recebeu partidas da seleção da Moldávia – com sete jogos realizados por lá desde 2003, quando a crise da Transnístria já tinha arrefecido, permitindo uma aproximação maior entre separatistas e moldavos. De qualquer maneira, o grande momento do Estádio Sheriff acontecerá durante os próximos meses, quando o hino da Champions soar. A ver como a questão da Transnístria irá se manifestar nos jogos, ainda que a bandeira moldava acabe representada oficialmente e o elenco reúna uma verdadeira Torre de Babel. Já a Sheriff sabe que, em meio aos seus muitos negócios, legais ou não, a premiação oferecida pela Uefa com a mera presença na fase de grupos poderá aumentar sua margem de lucro – e abrir outras possibilidades depois.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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