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Herói da final, Havertz teve ciclo de redenção acelerado em temporada de cobranças desmedidas

Contratação mais cara da história do Chelsea, o alemão encerrou um primeiro ano de questionamentos com um gol que o coloca na história do clube

Em diversas facetas, o mundo está mais imediatista do que nunca, e o futebol definitivamente não escapa disso. Em um momento da temporada alvo de piadas por sua dificuldade de adaptação ao Chelsea, Kai Havertz era apressadamente tachado de “flop”, e sua contratação por valor recorde, questionada após cada atuação apagada. Bastou ao garoto de 21 anos um pouco de tempo e uma mudança no comando técnico para que a tendência se revertesse, e o seu gol na final da Champions League contra o City, que deu o título aos Blues, foi a maneira ideal de concluir um ciclo de redenção acelerada e renovar as energias para uma segunda temporada que deve ser de afirmação.

Contratação mais cara da história do Chelsea, em um pacote total estimado em € 100 milhões segundo a revista Kicker, Havertz carregou desde o primeiro minuto um peso grande sobre os ombros por causa de sua etiqueta de preço. Aos críticos, pouco importou que se tratava de um jogador de apenas 21 anos, chegando a uma equipe ainda em construção, sob o comando de um técnico questionado, Frank Lampard.

O mercado de verão do Chelsea havia sido numeroso, com diversos nomes desembarcando para reforçar um ataque que já tinha boas opções. A competição por lugares era dura, e Lampard ainda experimentava bastante para acomodar todos lá na frente, entre peças como Mount, Ziyech, Pulisic, Havertz, Hudson-Odoi, Abraham, Werner e Giroud. Nas chances que teve com o técnico inglês, Havertz atuou sobretudo como um ponta direito, quando seu futebol mais eficaz no Bayer Leverkusen havia desabrochado ao passar a ser utilizado como homem de referência, centralizado.

Às dificuldades de adaptação pela posição e pelo estágio inacabado do trabalho de Lampard se acrescentou uma experiência bastante difícil de infecção por Covid-19, em novembro de 2020. Havertz descreveu como a doença o afetou de maneira implacável, o deixando de cama por cerca de dez dias. “Quando você não faz nada por duas semanas e meia e então começa a treinar novamente, é como se você nunca tivesse jogado futebol antes”, explicou o jogador à BBC em dezembro.

A partir da chegada de Thomas Tuchel no fim de janeiro e a consequente mudança de esquema tático, não só Havertz passou a contar com uma maior confiança por parte do comando técnico como também encontrou um melhor posicionamento em campo, atuando mais centralizado e participando das ações ofensivas em uma área em que é capaz de causar mais dano aos adversários. Foi assim que, diante do Manchester City, na decisão de sábado, o alemão se encontrou no lugar ideal para furar a defesa adversária, receber o passe brilhante de Mason Mount e concluir a melhor oportunidade dos Blues na partida, que acabou por dar o título aos londrinos.

Capitão do Chelsea, jogador mais longevo do clube no elenco atual e um dos líderes indiscutíveis do grupo, César Azpilicueta invadiu a entrevista pós-jogo de Havertz à BT Sport e, consciente da importância de seu papel de referência, saiu em defesa do companheiro após um ano de questionamentos desmedidos sobre um garoto que apenas inicia sua trajetória no futebol e no clube.

“Ele merece isso. Temporada difícil, mas sempre teve uma mentalidade top. Este cara será uma grande estrela, ele já é. Nos deu a Champions League. Não apenas isso, ele correu feito louco, isso é trabalho de equipe, é por isso que ele merece isso”, bradou o espanhol, enquanto batia no peito do herói do gol.

A fala de Azpilicueta virou gancho para que o repórter perguntasse a Havertz sobre o peso de ser a contratação mais cara da história do clube, e a réplica do garoto, aos risos, veio em tom de desabafo e também de lembrete do que importa: “Sinceramente, agora, eu estou pouco me fodendo para isso, nós vencemos a Champions League e vamos comemorar”.

Mesmo tão jovem, Havertz não é estranho a momentos de baixa e à luta para retornar a uma boa forma – ainda que tenha, mesmo em seus anos de irregularidade, quebrado diversos recordes de precocidade de gols na Bundesliga. Lançado na equipe principal com apenas 17 anos, em 2016/17, tornou-se rapidamente um dos melhores jogadores do Bayer Leverkusen e teve em 2018/19 uma excelente temporada. No início de sua última campanha na Alemanha, em 2019/20, não vinha tão bem e passou a sofrer certa cobrança, mas deu a volta por cima e, atuando mais adiantado, teve uma segunda metade de temporada brilhante, acumulando gols e assistências, e coroou isso com sua transferência multimilionária à Inglaterra.

A irregularidade é o que há de mais natural nos primeiros anos de um jogador, e Havertz provavelmente seguirá sujeito a isso à medida que cresce e se desenvolve nos próximos anos. Porém, com o protagonismo que já havia mostrado no Leverkusen e com a recuperação que tem apresentado neste ano, o alemão reforça que tem estrela e um potencial enorme. Que siga acreditando em seu próprio potencial a despeito dos questionamentos exagerados e pouco se fodendo para sua etiqueta de preço.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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