Estamos nos aproximando do fim da era Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Não será amanhã, mas uma hora eles têm que parar de jogar futebol. Serão quase 20 anos em que ambos foram os melhores jogadores do mundo. Raramente alguém se colocou no meio. Quem assumirá o reinado gera uma discussão fascinante. Olhando para os jovens candidatos neste momento, o mais provável é que tenhamos um grupo de elite mais amplo disputando os prêmios individuais e se revezando como destaques da temporada. Nesta terça-feira, dois deles disputarão as oitavas de final da Champions League: Kai Havertz, pelo Chelsea, e João Félix, pelo Atlético de Madrid.

A discussão da semana passada de Champions League girou em torno das atuações fantásticas de Kylian Mbappé e , mas ao contrário desses dois fortíssimos potenciais vencedores da Bola de Ouro no futuro, Havertz e Félix não são tão protagonistas dos seus times. Os motivos são diferentes e também iguais. É mais exceção do que regra que garotos de 21 anos não oscilem. Extremamente talentosos, ainda estão esperando o momento de explosão para começar a jogar em um altíssimo nível todas as semanas pelos seus novos como fizeram pelos antigos.

Havertz tem bastante experiência para a idade. Fruto de ter começado muito cedo. Estreou no time principal do Bayer Leverkusen em 2016, ainda com 17 anos, e logo de cara disputou 24 rodadas da Bundesliga. Isso fez com que tivesse quatro temporadas em uma das ligas mais fortes do mundo antes de mudar para a Inglaterra. Fez 150 jogos pelo Leverkusen. Nas duas últimas campanhas, somou 20 e 18 gols, respectivamente, números muito respeitáveis para um meia-atacante.

Ele se tornou uma das relíquias mais cobiçadas do mercado de transferência. O Chelsea aproveitou que estava com dinheiro em caixa após uma temporada impedido de contratar para vencer a concorrência. Caiu nas mãos de Frank Lampard, que era ótimo em muitas coisas nas quais Havertz também é ótimo. Era uma boa chance de aprendizado, mas havia alguns obstáculos em seu caminho. O maior deles naturalmente seria se mudar para um país novo, disputar uma liga diferente, em meio a uma pandemia.

Havertz afirmou isso em outubro, Lampard em dezembro e tem sido um comentário comum, e compreensível, desde que o seu rendimento caiu um pouco – não fez gol e deu apenas uma assistência pela Premier League desde a quinta rodada: o garoto precisa de tempo para se adaptar. Ele não disse que a liga inglesa é melhor que a alemã, mas notou que os duelos e as corridas são mais intensas, que os jogos cansam mais. “Não parece haver jogadores médios ou ruins aqui. Todos estão em um nível muito alto”, afirmou.

Um outro obstáculo foi a falta de direção do Chelsea. Contratou muitos jogadores para um ataque que já contava com uma abundância de opções. Lampard teve dificuldades para encontrar o seu ataque ideal ou uma rotação que mantivesse todos envolvidos. Havertz chegou a jogar como meia-atacante, meia central, ponta-direita e até centroavante uma vez. Contraiu coronavírus em novembro e, desde que retornou, completou 90 minutos pela Premier League apenas uma vez, contra o Wolverhampton, na estreia de Thomas Tuchel.

Voltou a ter problemas físicos e perdeu as recentes quatro vitórias consecutivas do Chelsea. Tuchel confirmou que ele viajará a Bucareste e será relacionado, embora seja improvável que comece jogando. Quando estiver em forma e conseguir uma sequência, deve cair como uma luva no trio de ataque do esquema de Tuchel, provavelmente na vaga que tem ficado com Mason Mount no momento. Protegido por três zagueiros e dois meias centrais, terá liberdade para entrar na área e fazer valer o seu faro de artilheiro.

Em forma, adaptado ao novo país e ao novo treinador, tem potencial para ser um meia-atacante de 20 gols por temporada também na Inglaterra. “Toda transferência e mudança de clube é diferente. Às vezes você precisa de tempo para se adaptar, às vezes é rápido, às vezes é um processo”, afirmou Tuchel. “Tudo que podemos fazer é motivá-lo, apoiá-lo e lhe dar o que ele precisa e ele conseguirá. Ele teve um começo bom conosco e sinto que vejo um cara humilde e incrivelmente talentoso. Não há dúvidas que ele mostrará isso, assim que possível”.

A ascensão de João Félix foi mais meteórica. Ele estreou, ainda com 18 anos, no começo da temporada 2018/19. E foi um estouro: 20 gols e nove assistências. Ganhou o prêmio Golden Boy, concedido pelo jornal Tuttosport ao melhor jogador sub-21 da Europa, e uma transferência milionária ao Atlético de Madrid. Chegou como substituto de Antoine Griezmann, com muita pressão pelo preço que foi pago pelos seus serviços. Teve um bom começo, mas três lesões fizeram com que perdesse mais ou menos dois meses de ação em períodos separados.

Ainda se recuperou a tempo de fazer uma boa partida na eliminação para o nas quartas de final da Champions League. Um jogo simbólico do momento em que está: ainda um craque em formação, capaz de espasmos de brilhantismo, ainda sem tanta regularidade e com um físico pouco confiável. Mas saiu do banco de reservas para sofrer o pênalti que manteve o Atlético na disputa até os 43 minutos do segundo tempo.

Não houve pré-temporada decente para se reagrupar, mas ele novamente começou muito bem. Cinco gols e duas assistências nas primeiras nove rodadas de La Liga. Entre o fim de outubro e o começo de novembro, foi especialmente brilhante, liderando a virada sobre o Red Bull Salzburg pela Champions League, a vitória contra o e a goleada em cima do Cádiz. Perdeu um jogo por uma leve lesão no quadril e contraiu coronavírus em fevereiro. Segundo Diego Simeone, os sintomas da não impediram que Félix continuasse treinando após o terceiro ou quarto dia de isolamento.

Retornou atuando apenas 24 minutos no primeiro tropeço contra o Levante, na última quarta-feira, e depois já disputou todos os 90 na derrota para o mesmo time, no fim de semana – pois é, o Atlético de Madrid perdeu cinco pontos para o Levante em quatro dias. Participou pela primeira vez de uma partida inteira da liga espanhola desde o 4 a 0 sobre o Cádiz, no começo de novembro. Entre os poucos pontos positivos da mais recente derrota, Simeone destacou a forma como Félix está ganhando ritmo.

Os obstáculos de Félix são diferentes. Em primeiro lugar, tem menos experiência entre os adultos. Fez uma baita temporada pelo Benfica, mas apenas um e logo se tornou um jogador de € 100 milhões que precisa liderar um ataque inteiro. Carregá-lo nas costas seria um exagero, ainda mais pela fase de Luis Suárez, mas o segundo atacante dos times de Simeone geralmente têm muitas responsabilidades. Em Portugal, mostrou que é diferente e extremamente talentoso, mas ainda não é um jogador pronto – menos do que Havertz, por exemplo.

E tem a questão física. O Atlético de Madrid jogou 61 rodadas do Campeonato Espanhol desde que o contratou. Ele foi titular em aproximadamente metade delas. Alguém quer tentar adivinhar em quantas Félix completou 90 minutos? Seis. Claro que há jogos de 85 ou 87 minutos, que na prática não fazem muita diferença, e outros inteiros pela Champions League (cinco de 12 em que esteve disponível, e um sexto em que foi substituído na prorrogação após 103 minutos), mas ainda é um sinal ruim que o jogador mais caro da sua história não consiga terminar partidas pelo campeonato base da sua temporada.

Félix ainda não parece fisicamente pronto. Havertz foi regular por mais tempo no Leverkusen, mas ainda está se adaptando a uma nova liga e também teve seus problemas médicos, além de táticos, em meio à derrocada que culminou na demissão de Lampard. Tudo isso é muito natural. Garotos desenvolvem-se em ritmos diferentes. Alguns explodem mais cedo, como Haaland e Mbappé. Outros precisam adquirir mais experiência e rodagem antes de serem fantásticos quase todas as semanas. Depende muita da formação, do biotipo, das características individuais de cada um e dos projetos esportivos em que são inseridos.

Eu não apostaria que Havertz e Félix nunca chegarão lá. E nem que o duelo desta terça-feira será último entre eles pelo da Champions League. Na verdade, talvez no próximo eles já estejam aptos a gerar uma discussão similar à de Haaland e Mbappé na semana passada: como líderes de seus times e potenciais futuros melhores do mundo.

NA TV

Champions League:  x Chelsea
Terça-feira, 23 de fevereiro, 17h (horário de Brasília)
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