Champions League

Hansi Flick transformou o Bayern unindo ideias, experiência na seleção alemã e bom relacionamento

Em novembro de 2019, o Bayern vivia a sua pior temporada em muitos anos. Era quarto colocado na tabela da Bundesliga e via, pela primeira vez em ao menos oito anos, a chance mais próxima de não terminar como campeão alemão. Niko Kovac foi demitido, e Hansi Flick, assistente técnico do Bayern, foi alçado ao posto de interino. Poucos teriam imaginado que meses depois ele não só conquistaria a Bundesliga com duas rodadas de antecedência, como ainda adicionaria a Copa da Alemanha e chegaria à final da Champions League – atropelando o Barcelona por 8 a 2 no caminho.

[foo_related_posts]

A trajetória de Hansi Flick poderia ter sido bastante diferente na sua vida. Quando tinha 18 anos, estava em um treinamento para ser bancário. Recebeu uma proposta para jogar pelo Stuttgart. Como não podia fazer as duas coisas, recusou a proposta do clube alemão. “Eu queria terminar o meu treinamento no banco”, afirmou em uma entrevista à revista Rund, em janeiro de 2014.

“Mas o Stuttgart disse que, se fizesse isso, eu teria que jogar pelo time de reservas, e isso eu não queria fazer. Eu queria ter algo em que me apoiar, porque eu não sabia por quanto tempo eu seria capaz de jogar futebol.” Curiosamente, o Stuttgart conquistou a Bundesliga naquela temporada, 1983/84. Ainda assim, o seu caminho passaria pelos gramados como jogador.

Flick foi atleta profissional de 1983 a 2000. Começou a carreira no Sandhausen, clube que fica ao sul de sua cidade natal, Heidelberg. Iniciou a trajetória no mesmo ano em que terminou o treinamento pelo banco, em 1983, e ficou até 1985 na equipe. Perdeu a chance de ser campeão pelo Stuttgart, o que lhe abriria portas, mas não ficaria longe dos grandes palcos por muito tempo.

Jogou cinco anos pelo Bayern de Munique, de 1985 a 1990. Foram quatro títulos da Bundesliga, uma Copa da Alemanha e ainda chegou à final de uma Champions League (na época, Copa dos Campeões) em 1986/87, quando o time perdeu para o Porto na final. Formava o meio-campo daquela equipe com duas estrelas, Andreas Brehme e Lothar Matthäus, e era treinado por um dos mais importantes técnicos da história do Bayern, Udo Lattek.

Do Bayern foi para o Colônia, em 1990, e lá ficou até 1993. Suas lesões levaram-no a se aposentar precocemente. Ganhou outra chance de continuar a jogar no Victoria Bammental, mas em nível amador, equivalente a uma quinta divisão na Alemanha. Em 1996, passou a ser jogador-treinador, função dupla que exerceu até 2000.

Definitivamente aposentado dos gramados, recebeu o convite para treinar o Hoffenheim, que na época estava também em uma divisão regional. Conquistou o título e o acesso à quarta divisão na sua primeira temporada como treinador no clube. Foram quatro temporadas buscando o acesso à segunda divisão, mas sem conseguir. Deixou o Hoffenheim em 2005. Foi o seu último trabalho como técnico até voltar ao posto no Bayern, em 2019. No caminho, porém, acumulou experiências diferentes.

Em 2006, teve uma rápida passagem pelo Red Bull Salzburg, atuando como assistente técnico de Giovanni Trapattoni, e também exerceu o cargo de coordenador esportivo. Foram poucos meses de trabalho, mas ele aproveitou o tempo para aprender algumas coisas com o já experiente treinador italiano. Seu entendimento de futebol, porém, diferia de Trappattoni em um aspecto fundamental: não gostava da abordagem muito defensiva do italiano.

Flick se preparou. Formou-se no curso de treinador da DFB, a Federação de Futebol Alemã, como o melhor da sua turma, em 2003, quando ainda treinava nas divisões inferiores com o Hoffenheim. Quando Joachim Löw foi escolhido como sucessor de Jürgen Klinsmann na seleção alemã, Flick foi o escolhido para ser o assistente técnico, em 2006.

Joachim Löw e Hansi Flick em treinamento da seleção da Alemanha, em 2011 (Martin Rose/Bongarts/Getty Images/Onefootball)

Foram bons anos trabalhando com Löw, com o vice-campeonato da Eurocopa em 2008, campanha semifinalista na Copa do Mundo de 2010, semifinalista da Eurocopa de 2012 e, enfim, campeão do Mundial de 2014. Esteve junto com o treinador, montando e executando a ideia de jogo que tornou a seleção novamente campeã do mundo, com uma geração de bons nomes, muitos deles do Bayern de Munique – no time campeão em 2014, eram sete.

Depois de oito anos trabalhando como assistente, Flick passou a ser diretor esportivo da DFB em 2014, logo depois da conquista do título mundial. Ficou no cargo até janeiro de 2017, quando retornou à vida em clubes. Foi para o Hoffenheim, em que já tinha trabalhado como técnico no começo do século, para ser também diretor esportivo. Exerceu a função até fevereiro de 2018. Para o começo da temporada 2019/20, Flick foi escolhido para fazer parte da comissão técnica do Bayern de Munique. Tornou-se um dos assistentes técnicos do então treinador Niko Kovac.

O treinador croata sofreu na sua segunda temporada no comando do Bayern. Venceu 45 de seus 65 jogos, mas a eliminação na Champions League de 2018/19 para o Liverpool já foi um fracasso que pesou. O que determinou o seu destino, porém, foi o que se viu na temporada seguinte. Com o desempenho do time cada vez pior e tropeços acumulados contra Hoffenheim e Eintracht Frankfurt no começo da campanha, a pressão aumentou.

Uma das suas declarações o colocou ainda mais no fogo. Depois de ver o Liverpool vencer o Tottenham por 2 a 1 na Premier League, conquistando àquela altura 28 de 30 pontos possíveis, Kovac elogiou o rival, mas também criticou o próprio time. “O que o Liverpool fez ontem mostrou que eles mereceram vencer a Champions League, mas também que eles possuem o tipo certo de jogadores”, disse.

“Precisamos acomodar o que temos. Você precisa ter os tipos de jogadores. Não pode tentar andar a 200 km/h em uma estrada se pode atingir apenas 100 km/h. Você simplesmente precisa acomodar o que temos”, declarou Kovac. Seria demitido no dia 3 de novembro, quando a direção constatou que o problema talvez não fosse a estrada ou o carro, mas o piloto.

Flick, que já era o assistente, foi escolhido como técnico interino do Bayern. Aos 55 anos, tinha o maior desafio da sua vida pela frente, 14 anos depois da sua experiência como técnico principal, mas com um acúmulo de experiências que certamente o ajudaram. E ele, ao contrário do antecessor, não teve problemas para fazer seus jogadores renderem no mais alto nível ou, nas palavras do croata, “andarem a 200 km/h”.

O interino fez o time melhorar imediatamente e, pouco a pouco, se tornar um dos mais temidos também na Europa. Um dos motivos foi o seu bom relacionamento com os jogadores. Entender o que acontecia com cada um deles e deixar que dessem sua contribuição pessoal para construírem a ideia de jogo. Ele é conhecido por ser assim, algo que Jupp Heynckes ressaltou.

“Ele conhece o clube e a cobrança extrema por resultados em Munique. Não se trata de pequenos instantes, mas, sim, do know-how fundamental do treinador, sua expertise e seu lado humano, sua filosofia. Ele é uma joia de treinador. Um talento como esse precisa ser reconhecido e desenvolvido”, afirmou Heynckes, em dezembro de 2019.

Carlo Ancelotti sofreu com isso. Suas boas ideias acabaram minadas pelo seu relacionamento conturbado com o elenco, porque no Bayern há uma cultura de como fazer as coisas que é muito valorizada e gera conflitos se quem for de fora não entender. Ancelotti sempre foi conhecido pelo seu lado agregador, mas faltava a ele conhecimento da cultura alemã, de como fazer as coisas. Mesmo Pep Guardiola sentiu isso, em conflitos com a equipe médica do clube bávaro, ainda que com um sucesso grande em campo e com a vontade do treinador em entender e respeitar a cultura rica do clube.

O que se seguiu à escolha de Flick para o comando do time foram 18 vitórias em 21 partidas com um desempenho muito melhor, jogadores como Thomas Müller recuperados na sua melhor forma e o time funcionando muito bem e passando como um trator sobre os adversários.

Sua permanência era temporária, mas quando o time embicou para cima e saiu da quarta para a primeira posição com um futebol avassalador, mantê-lo no cargo se tornou quase obrigatório. Em abril de 2020, já em meio à quarentena por causa da pandemia do coronavírus, Hansi Flick assinou contrato como técnico permanente do clube até 2023. Um reconhecimento dos bávaros pelo ótimo trabalho que ele exercia.

“O clube está muito feliz com o trabalho de Hansi Flick. O time se desenvolveu com a sua liderança, e nós estamos jogando um futebol atraente, o que se reflete nos resultados”, disse Karl-Heinz Rummenigge, presidente do Conselho do Bayern.

“É importante para o Bayern que o técnico entenda a filosofia do clube”, afirmou Oliver Khan, CEO do Bayern. “Hansi foi jogador do Bayern, foi assistente técnico; agora ele é técnico permanente. É uma boa progressão. Hansi conhece a mentalidade do clube, ele conhece como o Bayern é mensurado pelo máximo sucesso e estou satisfeito que possamos desenvolver a cultura do clube junto com ele nos próximos anos.”

O trabalho de tantos anos na seleção alemã certamente o ajudou com o conhecimento de alguns dos veteranos do Bayern. Manuel Neuer, Jérôme Boateng e Thomas Müller, especialmente, trabalharam com Flick nos tempos de seleção alemã, e ele viu, de perto, como esses atletas poderiam render melhor.

Por isso, é compreensível ver como Thomas Müller se tornou um outro jogador nas mãos dele. De um reserva que já começava a pensar em sair para buscar outros caminhos sob o comando de Kovac para um titular importante e decisivo novamente para os bávaros. Tão impressionante que até Joachim Löw deve ter se arrependido de ter aposentado o atacante da seleção tão cedo.

“A última vez que estávamos tão afiados foi com Pep Guardiola”, afirmou Thomas Müller, em entrevista à Süddeutsche Zeitung. O camisa 25 do Bayern estava relegado à reserva no começo da temporada, mas terminou a Bundesliga com 21 assistências, um recorde. As especulações sobre a sua saída, que emergiam enquanto ele amargava o banco, desapareceram. Tornou-se novamente o jogador decisivo que o Bayern se acostumou a ter.

Thomas Müller com o então assistente técnico Hansi Flick na seleção alemã, em maio de 2014 (Martin Rose/Bongarts/Getty Images/Onefootball)

O próprio Thomas Müller explicou um dos aspectos que ajudou o trabalho de Flick a colocar o Bayern na rota do sucesso novamente. “Todo mundo foi autorizado a adicionar um toque pessoal à sua posição com base nas suas preferências, pontos fortes e fracos. O papel sempre esteve claro. Não havia ‘se’, ‘mas’ ou ‘talvez’. É por isso que fomos capazes de voltar tão bem depois que ele assumiu o comando.”

Flick estabilizou o time em um 4-2-3-1, mesmo com uma crise de lesões na defesa que o fez ter que improvisar. David Alaba, lateral esquerdo – que começou a carreira como meia, posição em que ainda joga na seleção austríaca –, foi colocado na zaga. Isso abriu espaço para Alphonso Davies, formado como atacante, ser improvisado na lateral esquerda. E o canadense de 19 anos não só se destacou: se tornou um dos melhores da sua posição, com uma atuação fantástica contra o Barcelona nas quartas de final da Champions League coroando o crescimento.

Müller virou uma peça fundamental: um meia ofensivo ou um atacante que encosta em Robert Lewandowski, dependendo da situação. Serge Gnabry floresceu, ganhou espaço e passou a ser decisivo. Ivan Perisic, que tinha altos e baixos, ganhou continuidade e se tornou mais do que uma opção a Kingsley Coman: assumiu o posto de titular no lugar do francês. Joshua Kimmich brilhou no meio-campo ou na lateral, onde o técnico precisava. Flick tornou o time mais flexível do que com Kovac, mais dinâmico e capaz de se adaptar às necessidades, como deve fazer também na final da Champions, sabendo da ameaça do ataque do PSG.

“O futuro técnico do Bayern é Hansi Flick e espero que ele fique por um longo, longo tempo. Nós todos podemos nos parabenizar por termos expressado confiança nele em novembro. Ele nos recompensou essa confiança”, afirmou Karl-Heinz Rummenigge à revista Kicker. “Hansi Flick trouxe de volta valores importantes para o time e o clube. Nós estamos em uma boa posição no momento, tendo a dobradinha alemã [Copa da Alemanha e Bundesliga] e estamos na semifinal da Champions League [entrevista dada antes da passagem à final]. Isso nos deixa felizes. Não apenas jogamos um futebol bem-sucedido, mas altamente atrativo também. Esse era o nosso objetivo.”

Guardiola fez o Bayern funcionar como uma incrível máquina de gols, mas não conseguiu o título da Champions League, algo tão sonhado. Foi o único ponto negativo da sua passagem por Munique. Flick, porém, chegou à final e agora tem a chance de fazer algo que vai até além disso: conquistar a tríplice coroa, algo que só Jupp Heynckes alcançou, em 2013. Um feito que o colocará entre os grandes técnicos da história do clube, mesmo com menos de um ano no cargo.

Mostrar mais

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo