Champions League

Guardiola e Tuchel nutrem uma admiração mútua há tempos, da troca de conhecimento na mesa do bar à final da Champions

Os treinadores são amigos desde os tempos de Alemanha e seus encontros para discutir futebol rendem histórias curiosas

Em outubro de 2013, a Allianz Arena recebeu uma partida que segue ressoando quase oito anos depois. A ocasião passava longe da importância de uma final de Champions League, reunindo o líder da Bundesliga contra um adversário da metade inferior da tabela. O Bayern de Munique era o favorito contra o Mainz 05 e assim cumpriu sua missão, ao golear por 4 a 1. O placar final, porém, diz pouco sobre o que foi o duelo. O Bayern foi para o intervalo perdendo e precisou buscar a virada contra os azarões. Impressionava a maneira como o Mainz não se apequenou, ao partir para cima e buscar o resultado. Pep Guardiola aprendia a admirar Thomas Tuchel, o comandante dos adversários. Tuchel, por sua vez, já apreciava os feitos de Pep e estudava seus trabalhos com afinco. Daquela primeira impressão, nasceu uma amizade e uma relação bastante cordial. Em maio de 2021, o reencontro prevê uma batalha tática, que renderá o troféu mais prestigiado da Europa.

Nascido na Baviera, Thomas Tuchel iniciou sua história no futebol como jogador do Augsburg e também estabeleceu sua carreira como treinador por lá, após passar cinco anos na base do Stuttgart. Quando recebeu uma proposta para dirigir o time sub-19 do Mainz 05, em 2008/09, o comandante já deixava expresso seu potencial. Não à toa, assumiu a equipe principal em 2009/10, na esteira da saída do norueguês Jorn Andersen. Naquele momento, paralelamente, a grande revolução entre os treinadores europeus acontecia em Barcelona. Pep Guardiola saltou do Barça B para o time principal e não esperou nem um ano para levar todos os títulos possíveis com os blaugranas. O que se passava no Camp Nou era muito especial. Tuchel sabia disso e, como um iniciante na casamata, arrumou suas malas algumas vezes para a Catalunha.

Tuchel assistiu a jogos do Barcelona nas arquibancadas para absorver conhecimento e aprender com o principal representante da vanguarda do futebol. “Guardiola é o melhor, mesmo que não goste de admitir. O período dele no Barcelona realmente deixou uma impressão duradoura em mim. Como treinador, aprendi muito. O Barcelona sob o comando de Pep foi a grande referência para mim”, diria tempos depois, quando já comandava o Borussia Dortmund.

Guardiola permaneceu quatro temporadas à frente do Barcelona, até tirar seu ano sabático e assumir o Bayern de Munique em 2013/14. Tuchel completava seu quinto ano de um ótimo trabalho à frente do Mainz 05. Assim, ambos puderam se enfrentar pela primeira vez naquela ocasião na Allianz Arena, com vitória bávara por 4 a 1. No returno da Bundesliga, outro triunfo do Bayern na Opel Arena, por 2 a 0, mas de novo com os alvirrubros dificultando a vida dos poderosos até sofrerem dois gols após os 37 do segundo tempo. “Se todo mundo jogar contra mim como ele, estou acabado como técnico”, confidenciaria Pep Guardiola, depois daquelas primeiras partidas contra Tuchel.

Guardiola x Tuchel no primeiro encontro (Foto: Imago / One Football)

Tuchel sairia do Mainz ao final daquela temporada de 2013/14, prestigiado. Queria redefinir os rumos da carreira e também estudar um pouco mais antes dos próximos desafios. Viajou por diferentes países, visitou diversos clubes e treinadores para absorver novas ideias. Sua jornada, aliás, incluía equipes de outros esportes para agregar pontos de vista distintos ao futebol. E aprenderia um pouco mais com Guardiola, in loco. Desta vez, num encontro particular em Munique. A mesa do bar em que estavam virou mesa tática, em que saleiros se transformavam em jogadores para uma verdadeira aula – e com trocas de conhecimento recíprocas.

“De início, eles estavam se cumprimentando gentilmente. Mas então a discussão atingiu rápido um nível totalmente novo. Eles estavam discutindo movimentos e mudanças táticas de jogos que ocorreram anos antes. Pimenteiros e taças de vinho começaram a ser movidos, mas, na maioria das vezes, eles repetiam jogos inteiros de cabeça. Não podia acreditar que eles se lembravam dos mínimos detalhes. Era como ‘Sabe quando você moveu seus laterais contra o Real Madrid em 2009, no segundo tempo? Por que isso?’ e assim por diante. Foi como assistir a dois grandes mestres do xadrez, Fischer x Spassky, travando uma batalha de inteligência. Ou Cícero e Sócrates, discutindo a filosofia do futebol”, contaria Michael Reschke, ao site The Athletic. O então diretor esportivo do Bayern promoveu aquele famoso encontro e teve a honra de ser testemunha de tal conversa. Segundo ele, Guardiola queria tanto conhecer Tuchel que até desmarcou compromissos.

“Pep já era Pep, mas vale lembrar que Tuchel não era o treinador que é hoje. Era um jovem que dirigiu o Mainz por cinco anos e estava sem trabalho, num ano sabático. Mas, naqueles dois jogos anteriores, ele ganhou a atenção de Pep. Mais do que isso, Pep o admirava por jogar para frente com um time de recursos limitados e pela precisão de seu plano de jogo. ‘Tuchel sempre tem uma resposta’, ele dizia”, complementa Reschke.

Conforme o diretor esportivo, de início Guardiola mais falava e Tuchel fazia perguntas, como o mestre e seu aprendiz. Depois de um tempo, a conversa mudou e virou um debate entre iguais: “Gosto muito de falar sobre futebol, mas achava que não tinha uma palavra a dizer. Eu era um mero espectador. Eles falavam em uma mistura de alemão e inglês, não usavam nenhum termo científico, mas às vezes era difícil de acompanhar. Podiam se lembrar de dúzias de situações específicas, de anos atrás, e falavam sobre como as coisas poderiam ter se desenvolvido de forma diferente se ocorressem mudanças. Era tudo sobre ações e reações. Estavam tão envolvidos em suas discussões que outras pessoas no bar e até mesmo os garçons não ousaram se aproximar deles. Ficaram numa bolha, por quase quatro horas”.

Guardiola x Tuchel no Der Klassiker (Foto: Imago / One Football)

Aquele encontro, claro, não seria único. Semanas depois ele ocorreria outra vez, agora com a presença de Peter Hermann – veterano que permaneceu 14 anos como assistente do Bayer Leverkusen e depois desenvolveria um longo trabalho no Bayern, atuando como braço direito de Jupp Heynckes na conquista da Tríplice Coroa. Ao sair do bar, Hermann disse a Reschke que, depois de presenciar a conversa entre Guardiola e Tuchel, avisaria a esposa que iria largar o futebol. “Por que vou continuar? Sempre pensei que sabia um pouco sobre futebol, mas não tenho mais certeza disso. Esses dois caras estão em outro nível”, confessaria, em tom de brincadeira – voltando depois ao próprio Bayern como assistente de Heynckes em 2017. Guardiola, inclusive, queria que Tuchel o substituísse em Munique e algumas conversas foram iniciadas com o presidente Uli Hoeness. Isso até que o Borussia Dortmund aparecesse no caminho, buscando o substituto de Jürgen Klopp em 2015.

A chegada de Tuchel ao Dortmund rendeu até mesmo comparações com Guardiola – o que não agradou o alemão. “É um grande perigo comparar e eu realmente não gosto disso. O que sempre me preocupa é que isso gera a impressão de que eu ‘adoraria ser Pep’, mas não é nada disso. Como fã de futebol e treinador, realmente admirei o trabalho de Pep no Barcelona. Mas não há cópia ou clone por conta disso. Não trabalho para copiá-lo. Quando você treina de forma diferente e responde de forma diferente, então algo diferente surge. Estou confiante sobre o caminho que estou seguindo”, diria na época, ao Bild.

De fato, dá para traçar paralelos entre Guardiola e Tuchel. São dois treinadores extremamente minuciosos e que cuidam de cada detalhe sobre a preparação tática de suas equipes. Ambos gostam de se adaptar às situações e buscar soluções, exigindo bastante de seus atletas. Além disso, dão importância extrema ao aspecto psicológico. Mas têm estilos distintos na forma de propor o jogo, assim como de lidar com os problemas. Como diria Reschke ao The Athletic, “Thomas é um pouco mais tecnocrático, Pep é mais artístico”. Algo que se evidenciaria na própria maneira de jogar de Bayern e Dortmund em 2015/16.

Os novos amigos logo disputariam seus primeiros jogos depois daquelas intensas conversas. O Bayern estava bem mais pronto que o Dortmund, em reformulação, e Guardiola mostrou como seus saleiros eram melhores que os pimenteiros de Tuchel. Em outubro de 2015, dentro da Allianz Arena, o Bayern aplicou uma sonora goleada por 5 a 1 pela Bundesliga. Robert Lewandowski e Mario Götze estiveram particularmente empolgados contra o antigo clube, enquanto Thomas Müller também brilhou com dois gols. Já o embate pelo segundo turno, no Signal Iduna Park, seria mais econômico no placar. O empate por 0 a 0 não era suficiente ao Dortmund na perseguição aos rivais, que levaram o título. Ao menos, Tuchel saiu da posição de freguês.

Tuchel conversa com Guardiola, já no City, em torneio amistoso na China (Foto: Imago / One Football)

O final da temporada ainda guardaria mais um encontro. E seria a maior ocasião daquelas três, na primeira final entre os dois treinadores. Bayern e Dortmund se pegavam na decisão da Copa da Alemanha, com os bávaros já garantidos como tetracampeões da Bundesliga. Seria outro jogo parelho, em que o empate por 0 a 0 prevaleceu durante os 120 minutos, com chances para os dois lados. Os comandantes colocaram estilos diferentes em prática e nenhum dos dois conseguiu prevalecer. Nos pênaltis, porém, a precisão do Bayern pesaria e o triunfo por 4 a 3 garantiu a dobradinha nacional a Guardiola, em sua despedida da Alemanha. O catalão não segurou as lágrimas durante a festa.

O próprio Guardiola salientou na época como o Dortmund se desenvolveu em poucos meses sob as ordens de Tuchel. “Thomas vive futebol. Ele tem essa paixão, o desejo de querer saber tudo, de melhorar. Ele passa 24 horas por dia pensando no seu time, nos oponentes, no futebol em geral. Gosto disso nele”, contou o catalão, ao Goal.com. “Não me surpreendo com o que ele faz à frente do Dortmund, porque sei como ele é um excelente técnico. Ele conseguiu influenciar o jogo do Dortmund muito rápido, o time vem de uma temporada fantástica. Thomas e eu nos entendemos. Temos a mesma paixão pelo jogo”

Os rumos se separariam novamente. Guardiola não renovou seu contrato de três anos com o Bayern de Munique e se mudou para a Inglaterra, onde assumiu o Manchester City. Tuchel teria uma passagem razoável pelo Dortmund, campeão da Copa da Alemanha em 2017, antes de assumir o Paris Saint-Germain. A esta altura, o alemão também se colocava na primeira prateleira de treinadores do futebol europeu, ainda que o status de Guardiola fosse outro. Conquistou a Ligue 1, chegou à final da Champions, saiu por rusgas com a diretoria. E seguiu para a Inglaterra, onde os pubs também poderiam receber novos duelos entre saleiros e pimenteiros.

Quando Tuchel teve sua contratação anunciada, afinal, Guardiola seria um dos primeiros a dar boas-vindas: “Tuchel é um treinador excepcional. Tenho certeza de que ele terá sucesso. Fico feliz em vê-lo neste país. Quando trabalhava no Bayern, joguei contra ele no Mainz. O trabalho no Dortmund foi incrível, a forma como ele fazia o Dortmund jogar era excelente. Lutamos muito para ganhar os títulos contra eles. Ele é meu amigo e estou feliz em revê-lo”.

Tuchel x Guardiola na Inglaterra (Foto: Imago / One Football)

Levaria algumas semanas para o primeiro duelo em campo, pela Copa da Inglaterra. Tuchel retribuiu a gentileza antes da partida pela semifinal da competição: “Pep foi uma grande influência, porque quando ele era técnico do Barcelona eu via quase todos os seus jogos. Fiquei muito impressionado com a maneira como obtiveram sucesso naquele estilo. Aprendi muito assistindo e entendendo mais o jogo. Foi uma grande, grande lição. Depois tive o prazer de conhecê-lo e de enfrentá-lo no mais alto nível”.

Aquela partida guardaria uma reviravolta no confronto particular entre os treinadores. Tuchel soube neutralizar o jogo de Guardiola com perfeição e venceu pela primeira vez, por 1 a 0, classificando o Chelsea para a decisão. O sonho do Manchester City em levar os quatro títulos da temporada acabava ali. E, depois de definida a final da Champions League, haveria mais um confronto pelo segundo turno da Premier League. Os dois técnicos realizaram amplas mudanças em suas escalações e esconderam o jogo. Mesmo assim, foi possível ver uma batalha tática do mais alto nível. E com uma virada dramática do Chelsea no Estádio Etihad, em resultado valioso para os Blues se segurarem no G-4. Agora, vem a hora da verdade.

Nesta semana, durante coletiva de imprensa, Guardiola chegou até a mencionar o célebre jantar em Munique: “Falamos de futebol, futebol, futebol e futebol. Só isso. Falamos sobre nossos sentimentos, nossas paixões, os jogadores bons e ruins naquela época. Falar de futebol com pessoas interessantes me faz aprender muito. Comemos bem e tomamos um bom vinho, foi um bom momento para compartilhar. É uma boa lembrança. Desde então crescemos e, claro, temos uma boa relação. Eu o respeito e ele sabe que queremos vencer”. Sete anos depois daquele encontro, só resta uma taça na mesa. E ela não será para brindar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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