Champions League

De novo melhor em campo na semifinal, Kanté merece mesmo uma decisão de Champions na carreira

Kanté foi eleito pela Uefa o melhor contra o Real Madrid tanto na ida quanto na volta - e, desta vez, foi decisivo nos dois gols

Pela segunda partida consecutiva na Champions League, N’Golo Kanté recebe o prêmio de melhor em campo pelo Chelsea. Não é qualquer ocasião, não é contra qualquer adversário. O francês foi eleito o destaque em campo nas duas semifinais contra o Real Madrid, o que dimensiona seu excelente momento com os Blues. Vale o reconhecimento pelo trabalho incansável do meio-campista, algo conhecido desde os tempos de Leicester, e que rendeu outros prêmios individuais mesmo com seu papel defensivo. Mas, ainda mais nesta quarta, Kanté reforçou como também pode fazer mais e foi o responsável por abrir caminhos no ataque. Assim aconteceu nos dois gols que permitiram a vitória por 2 a 0 em Stamford Bridge.

Ofensivamente, Kanté já tinha feito uma boa atuação na ida, em Madri. Suas jogadas não resultaram necessariamente em gols, mas o meio-campista serviu como uma importante válvula de escape. Sobretudo no primeiro tempo, quando o Chelsea era claramente melhor, o ataque fluía a partir das roubadas de bola e das arrancadas do volante. Se os Blues não marcaram mais gols a partir dessas transições, não foi sua culpa. Já no segundo tempo, quando o time caiu de ritmo, Kanté seguiu se multiplicando para manter a pegada e garantir pelo menos o vantajoso empate.

Em Stamford Bridge, Kanté continuou seu trabalho abnegado de combater e aparecer em diferentes partes do campo. Foi uma atuação muito segura do sistema defensivo do Chelsea, sem permitir infiltrações do Real Madrid, e isso corresponde também à intensidade do francês para proteger a intermediária. Mas, numa equipe de jogo mais direto e ataque veloz, sobram espaços para o volante avançar e ajudar nessa aceleração do conjunto. Por duas vezes, o francês conduziu as jogadas e, contando com a colaboração dos companheiros numa noite de gols perdidos, viu seus lances resultarem em gols.

Kanté foi muito inteligente na criação do primeiro gol. Ao receber o passe no meio, já dominou escapando da marcação e tocou antes que outro adversário chegasse para a dividida. Timo Werner também fez uma ótima parede e devolveu enquanto o volante se projetava. Diante da linha de zaga, Kanté abriu com Kai Havertz, que saiu diante do goleiro. Acertou o travessão, até Werner guardar. Já no segundo tento, Kanté atacou a bola para recuperá-la na entrada da área. Assim, pegou uma defesa aberta e também explorou bem os espaços para terminar de desmontar os merengues. Ao partir pelo meio, deu a opção para Christian Pulisic ficar sozinho na direita e, quando recebeu o passe, o americano teve muita calma para servir Mason Mount.

Defensivamente, Kanté nem registrou números tão impressionantes nesta noite – mesmo com sua invariável onipresença. Foi melhor ao cortar as linhas de passe do Real Madrid, com cinco interceptações. Mas, no ataque, sua influência foi imensa. Das sete finalizações do Chelsea, três nasceram a partir de seus passes e uma foi ele quem tentou – num lance no qual parecia pronto a fuzilar Thibaut Courtois, até Federico Valverde bloquear o chute na hora exata. A enfiada para Havertz não acabou como assistência, assim como a jogada para Pulisic apenas preparou o terreno. De qualquer maneira, sua participação foi expressa nos dois gols. Acabou se tornando uma escolha fácil à Uefa como melhor em campo – até mais que na ida.

O funcionamento do meio-campo do Chelsea é um dos méritos de Thomas Tuchel. Jorginho também fez uma grande partida ao orquestrar o time na cabeça de área e Mason Mount é talvez o principal candidato ao posto de melhor jogador dos Blues na temporada. Ainda assim, ver o treinador extraindo tanto de Kanté é importantíssimo. É a melhor versão do francês desde sua estupenda Copa do Mundo em 2018. A fase não rende frutos na Premier League, um torneio no qual ele já está na história, mas adiciona um capítulo fundamental (e novo) à sua carreira dentro da Champions. Dos seis prêmios de melhor em campo entregues nos mata-matas em partidas do Chelsea, ele levou três, incluindo também o da volta nas oitavas contra o Atlético de Madrid.

Difícil encontrar alguém que torça contra Kanté. Por sua capacidade, é o tipo de jogador que todo mundo quer ter na equipe. Por seu carisma, até involuntário diante de sua timidez, faz mais gente criar simpatia. Em tempos de astros estratosféricos e muito marketing, o francês não precisa de mídia para se colocar entre os melhores do mundo em sua posição. Consegue figurar como um volante extraordinário por bola e por empenho, não por badalação. Melhor ainda quando, no time mais competitivo do Chelsea em anos, o francês pode aparecer com destaque na Champions. Seu talento merece ter mais esse holofote, assim como o próprio torneio ganha com sua presença em uma final. Vai como protagonista.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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