Champions League

Classificação contra o Bayern sublinhou evolução do PSG como grupo homogêneo com objetivo comum

Entrega coletiva testemunhada diante dos alemães é elemento que faltou no passado e fruto de uma crescente união em um vestiário hoje de amigos

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Uma equipe bem equilibrada, com qualidades complementares e coerência entre os setores por vezes não precisa necessariamente de uma enorme entrega coletiva para ter sucesso. Um time bem montado, com ideias claras e controle sobre as diferentes fases do jogo às vezes pode se dar ao luxo de ter jogadores preocupados apenas em atacar e menos em contribuir com a marcação. Este ainda não é o caso do PSG. Neste sentido, a atuação diante do Bayern de Munique na terça-feira (13), que garantiu a ida às semifinais da Champions League, é uma novidade muito bem-vinda e pode ser a diferença para os parisienses enfim alcançarem seu sonhado objetivo de vencer a Champions League.

Antes de alcançar sua primeira decisão de Liga dos Campeões na temporada passada, em que foi derrotado pelo mesmo Bayern de Munique, o PSG colecionava fracassos no mata-mata da competição europeia. Por vezes prejudicado pelas ausências de Neymar, outras pela incapacidade de manter uma vantagem no placar agregado, um roteiro costumava permear todas as decepções: a sensação de uma fraca entrega coletiva e a falta de um senso de unidade.

A ausência de aplicação total, de um sentimento de “um por todos e todos por um”, foi um problema sublinhado especialmente em 2018, na eliminação para o Real Madrid ainda nas oitavas de final. À época um dos líderes do vestiário, Edinson Cavani, hoje no Manchester United, queixou-se em público do que via como uma falta de união no grupo.

“Ganhamos experiência a cada temporada, mas não é a experiência que te faz ganhar partidas. Cometemos erros, nos faltou algumas coisas. Para mim, o futebol é como a vida. É preciso dar o máximo e estar unido. Precisávamos ser mais unidos, estarmos mais juntos. Precisamos nos expressar mais como um grupo, e não apenas como equipe. Precisamos ser irmãos, uma família. É claro que devemos mudar algumas coisas, mas é preciso tempo para se conhecer melhor dentro do vestiário e progredir. Tenho certeza que se os jogadores se entregarem ao máximo, teremos mais chances”, avaliou o uruguaio após aquela queda para o Real Madrid.

O discurso foi pouco depois reforçado por Marco Verratti, que pediu espírito de união, um objetivo comum, a uma equipe que ainda parecia se mover a base de interesses pessoais de cada indivíduo no elenco: “A coisa mais importante nos próximos anos é que todos acreditem no projeto. Que formemos realmente uma boa equipe, em que todos sigam o mesmo caminho, com o mesmo objetivo”.

Como havia pontuado Cavani há três anos, talvez fosse mesmo questão de tempo. Ao longo dos últimos anos, uma nova espinha dorsal foi se formando no Parque dos Príncipes. Reforços chegaram e, além da contribuição técnica, trouxeram uma unidade que ficou publicamente escancarada pela primeira vez nas comemorações pela classificação à final da Champions League de 2020, após a equipe passar pelo RB Leipzig. Embalados ao som da cumbia argentina e liderados por um Neymar no comando da caixa de som, o grupo retornou ao hotel em que se hospedava cantando em voz alta e uníssona, entre abraços, os versos de Par-Tusa, de El Dipy, encantando seus torcedores e gerando uma simpatia entre os neutros que aquela equipe de indivíduos dos anos anteriores não havia conseguido alcançar.

Esta mesma união foi também essencial para que o principal craque do clube, Neymar, passasse a se sentir em casa em Paris e mudasse de ideia sobre sua continuidade na capital francesa. Um ciclo de transformação que parece chegar ao seu desfecho, com o brasileiro afirmando após a classificação da noite passada que sua renovação “não era nem mais assunto”.

O espírito de família que pedia Cavani e a convergência de objetivos que preconizava Verratti parecem enfim ter se desenvolvido plenamente no PSG, e isso naturalmente se transfere ao terreno de jogo. Contra os atuais campeões europeus, os parisienses exibiram à perfeição como isso pode se traduzir diretamente na hora do combate.

Se com o novo técnico Mauricio Pochettino o time ainda não chegou a desenvolver uma identidade de jogo própria ou uma constância de atuação que o caracterize de forma clara, ao menos compensou isso com um esforço coletivo notável. Isso ficou melhor representado por um lance específico já na reta final do segundo tempo, em que, para deter uma subida do Bayern de Munique, Neymar corre até o próprio campo para dar o bote em Sané, é superado pelo alemão, mas vê Mbappé complementar a caça com uma arrancada até a defesa e um esforço admirável para tentar evitar que a bola saísse para escanteio.

Duas principais estrelas do clube, o brasileiro e o francês já foram muitas vezes culpados no passado por falta de contribuição para a fase defensiva do PSG. Não é sequer algo completamente condenável, visto que este tipo de concessão a grandes craques de uma equipe é tão antigo quanto o futebol em si. Porém, ver duas estrelas de tamanho status passarem a entregar até isso em uma equipe antes conhecida por sua heterogeneidade é um excelente sinal e uma mensagem ao restante do time.

Apesar da derrota por 1 a 0, que poderia facilmente ter sido uma vitória visto o número de chances inacreditáveis desperdiçadas pelos parisienses sobretudo na primeira etapa, a atuação do PSG foi celebrada por torcedores e pela imprensa local por mostrar uma mudança importante no espírito da equipe.

Não estamos mais diante de apenas um conjunto de grandes talentos individuais, cada um preocupado apenas com a progressão de sua carreira. A partir do núcleo estreito que se formou em torno das principais figuras do elenco, como Marquinhos, Neymar, Keylor Navas, Leandro Paredes, Di María, Mbappé e Verratti, vemos agora um time que rema na mesma direção, pelo sucesso do clube, do indivíduo, mas também do amigo ao lado. Isso pode não ser suficiente para a sonhada conquista da Champions League, mas aumenta significativamente as chances do PSG.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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