Champions League

Após navegar por frustrações e atritos, Tuchel descobrirá se chegou a hora de vencer

Michael Jordan deixou um vasto legado ao esporte. Seis títulos da NBA com o Chicago Bulls, uma medalha de ouro olímpica, um documentário para nos distrair durante a quarentena e uma dúzia de frases que treinadores de todos os esportes não cansam de usar para tentar motivar os seus jogadores.

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Poucos atletas ganharam tanto quanto Michael Jordan e provavelmente nenhum foi tão obcecado em fazer tudo pela vitória, como o Last Dance deixou exposto. Não há muito segredo nesse tipo de psicologia. É uma espécie de carteirada, na verdade: o maior jogador de basquete de todos os tempos disse que este é o caminho do sucesso e não será você, lateral esquerdo do Mainz, que vai dizer que não é.

Em vez de uma repetitiva análise de vídeo sobre os motivos que levaram o seu time à derrota nos pênaltis para o Gaz Metan, da Romênia, na terceira fase preliminar da Liga Europa de 2011/12, Thomas Tuchel teria citado a seguinte frase de Jordan: “Errei mais de 9.000 arremessos na minha carreira, perdi quase 300 jogos, 26 vezes me confiaram com a cesta da vitória e eu errei. Falhei várias vezes na minha vida e é por isso que tive sucesso”.

Três dias depois, o Mainz iniciou mais uma campanha na Bundesliga ganhando do Bayer Leverkusen, por 2 a 0. “Aceitamos juntos que derrotas amargas são parte do esporte”, disse, segundo o Bild, após a partida. Questionado diretamente sobre a frase de Jordan, apenas apontou para a cabeça e informou: “Há muitas ideias aqui”. Seu assistente Arno Michels acrescentou que queriam apenas “deixar claro aos jogadores que todos perdem em algum momento e que a derrota é o melhor aprendizado”.

Aquela foi a primeira experiência de Thomas Tuchel em competições europeias. A próxima será a final da Champions League, neste domingo, quando comandará Neymar e Mbappé contra o Bayern de Munique em busca do inédito título do Paris Saint-Germain.

A história de Tuchel como atleta é parecida com a de Jordan, se Jordan fosse menos talentoso e tivesse sido obrigado a se aposentar aos 25 anos por causa de uma lesão no joelho sem nunca ter jogado na NBA. Adolescente, integrou a base do Augsburg como defensor, mas foi liberado aos 19 anos, sem aparecer no time principal. Precisou descer um degrau, mas fez apenas oito jogos na segunda divisão, pelo Stuttgarter Kickers, antes de precisar descer mais um. Foi no SSV ULM, treinado por Ralf Rangnick, que teve uma sequência um pouco maior, com 68 partidas no terceiro patamar da pirâmide antes de problemas físicos o obrigarem a pendurar as chuteiras.

Embarcou na jornada do jovem que precisou mudar de planos e ainda não sabe o que fazer da vida. Estudou Administração, foi garçom em um bar, mas a coceira do futebol nunca o abandonou. Decidiu tentar mais uma vez. Ligou para Rangnick, agora no Stuttgart, para pedir um teste. O “Professor” concedeu o favor, mas ficou claro que seu joelho não aguentaria as exigências do futebol profissional. Havia dano crônico na cartilagem e o sonho mais uma vez se dava por encerrado. Por outro lado, outro começava a ser semeado. Rangnick perguntou se Tuchel estava interessado trabalhar como treinador nas categorias de base. Tuchel estava.

Tuchel com um de seus mentores, Ralf Rangnick (Foto: One Football/Getty Images)

Começou no sub-14 do Stuttgart, passou a assistente do sub-19, retornou ao Augsburg para treinar os reservas e chegou à base do Mainz. Descrito desse jeito, parece uma trajetória rápida, mas Tuchel passou nove anos aprendendo o ofício entre a garotada do futebol alemão antes de ganhar sua primeira chance entre os adultos. E a ganhou porque os planetas se alinharam e ele estava em um clube administrado por um cara que gosta de sair da caixinha. O mesmo cara que concluiu que Jürgen Klopp tinha mais talento como treinador do que como jogador – e, sendo justo, acertou em cheio.

O diretor do Mainz, Christian Heidel, demitiu Jörn Anderson, sucessor de Klopp que havia devolvido o clube à primeira divisão, após uma derrota na primeira rodada da Copa da Alemanha, e deu o emprego a Tuchel, sem experiência na Bundesliga nem como jogador, nem como técnico.

Foi a primeira chance para colocar em prática o que havia aprendido. Em entrevista ao jornal alemão di Zeit, tentou resumir como é o estilo que é “atribuído” a ele. “Velocidade no ataque, mentalidade ofensiva. Prefiro certas qualidades, um estilo de jogo ativo, defesa corajosa e jogadas velozes no ataque”. Favorecia treinamentos em espaços reduzidos e, para encorajar seus atletas a tentarem passes diagonais, armava os campos em forma de diamante.

A experiência foi excelente para ambos. Tuchel levou o Mainz ao quinto lugar da Bundesliga 2010/11, a melhor classificação do clube na história da Bundesliga, com um time que contava com André Schürrle, que o treinador conhecia desde as categorias de base, Lewis Holtby, Christian Fuchs e Adám Szalai. A temporada seguinte, sua terceira, a da eliminação precoce na Liga Europa, foi mais complicada e chegou a haver algum risco de rebaixamento. Terminou em 13º. Repetiu essa colocação em 2012/13, mas com uma campanha melhor. O meio da tabela ficou tão embolado que mais duas vitórias elevariam o Mainz a sétimo. Despediu-se com um sólido nono lugar.

Sem querer virar meme e dizer que Tuchel conhece os alemães, ele teve um retrospecto extremamente respeitável contra o Bayern de Munique – para um técnico do pequeno Mainz. Foram dez jogos no total, mas ele conseguiu três vitórias nos cinco primeiros encontros, duas por 2 x 1 e uma por 3 x 2. Perdeu seis vezes e empatou outra. Dois dos triunfos foram contra os bávaros de Van Gaal e o terceiro na era Jupp Heynckes que, ao deixar o cargo, em 2013, afirmou que Tuchel estava “destinado” a um dia treinar o Bayern de Munique. Alguns anos depois, quando assumiu interinamente após a demissão de Ancelotti, voltou a elogiar o colega como um possível sucessor. Guardiola fez a mesma recomendação quando treinava o gigante alemão, segundo o diretor-técnico do Borussia Dortmund, Michael Reschke.

Eventualmente, Karl-Heinz Rummenigge decidiu seguir o conselho de dois dos principais treinadores da história do Bayern. Havia uma possibilidade real de que Tuchel estivesse no outro lado da final deste domingo. O dirigente bávaro confirmou que esteve em contato com ele em 2018, antes de contratar Niko Kovac, mas recebeu uma ligação do treinador informando que havia assinado com outro clube.

Atritos 

Tuchel na época do Dortmund (Foto: Getty Images)

Em um bar de Munique, frequentado pelos jogadores do Bayern, os garçons não tiveram coragem de interromper a discussão, tamanha era a intensidade da troca de ideias entre Tuchel e Pep Guardiola, movimentando saleiros para ilustrar o que estavam dizendo. Naquela época, Tuchel estava em um ano sabático e se preparava para continuar seguindo os passos de Jürgen Klopp. Assumiu o Mainz um ano depois da saída do atual comandante do Liverpool e foi seu sucessor imediato no Borussia Dortmund.

A similaridade das trajetórias e a fome por narrativas fez com que surgissem comparações entre os dois treinadores, colocados em caixinhas antagônicas: Klopp seria o motivador que depende da mente tática de seus auxiliares, e Tuchel, o nerd sem habilidades sociais. “É um mito dizer que Thomas não se dá bem com as pessoas”, afirmou Heidel, que trabalhou com ambos no Mainz, à Kicker. “Ele trabalha muito e o faz muito bem, e é isso que cobra de seus jogadores, independentemente de ser o Neymar ou outro nome na camisa. Não é justo dizer que ele é difícil na questão humana. Trabalhamos de maneira excelente por seis anos no Mainz. Apenas no fim houve opiniões diferentes. É errado pintá-lo como um estrategista sem sensibilidade, tanto quanto é errado limitar Klopp a seu papel como motivador, como alguns fazem”.

A passagem pelo Dortmund não contribuiu para amenizar essa reputação.

O trabalho no geral foi bom. Tuchel chegou após uma última temporada trágica com Klopp, em que o time chegou a ficar na zona de rebaixamento e arrancou apenas no fim para terminar em sétimo lugar. Ele colocou ordem na casa, tirou muitos gols de um trio com Aubameyang, Mkhitaryan e Marco Reus e deu um calorzinho na briga pelo título. Terminou em segundo lugar e com um ataque melhor que o do Bayern de Munique. Na campanha seguinte, conquistou a Copa da Alemanha, primeiro título dos Papagaios Amarelos desde 2012 – sem contar duas Supercopas.

Mas foi demitido ao fim da sua segunda temporada, com palavras duras do executivo-chefe Hans-Joachim Watzke, na nota oficial que anunciou a decisão. “Com Thomas Tuchel no comando, o Dortmund teve dois anos de sucesso, em que nossos objetivos esportivos foram atingidos. No entanto, nós – diretor-esportivo Michael Zorc e eu – nem sempre estivemos alinhados à comissão técnica durante nosso período de colaboração. Quando a questão são as responsabilidades da liderança, não é apenas o resultado que importa – e, nesse sentido, o Borussia Dortmund não é diferente de outros clubes ou empresas. O que também importa são valores como confiança, respeito e a habilidade de comunicação e trabalho como um time, autenticidade e identificação. Qualidades como confiança e lealdade”, disse Watzke.

“Infelizmente, não acreditamos mais que o atual acordo com o treinador nos ofereça a fundação para uma colaboração futura de sucesso baseada na confiança. É por isso que decidimos que a melhor medida seria não estender a cooperação com a comissão técnica além do fim da temporada 2016/17”, completou.

A primeira rixa, seis meses após sua chegada, foi com o então chefe dos olheiros, Sven Mislintat, em torno de Óliver Torres, que acabou não sendo contratado. Tuchel o acabou banindo do centro de treinamentos, o que o empurrou para acertar com o Arsenal. Mislintat era próximo de Watzke e era creditado por algumas descobertas, como Robert Lewandowski. No mercado seguinte, Tuchel não ficou contente com as saídas de Mkhitaryan, Gündogan e Hummels ao mesmo tempo. Afirmou em público que uma reformulação tão grande era “arriscada”. Após mais seis meses, declarou que não havia sido envolvido nas contratações do jovem sueco Alexander Isak, Ousmane Dembélé e Emre Mor, o que afirmou ser “um procedimento normal”, mas que deixou mais clara a distância entre ele e a diretoria.

O racha chegou após ao tentado ao ônibus do Dortmund, antes de um jogo contra o Monaco, pela Champions League. Tuchel e os jogadores não queriam que a partida fosse remarcada para o dia seguinte e não encontraram respaldo em Watzke. Em seu depoimento à Justiça, durante o julgamento do responsável pela bomba, disse que aquele episódio teve peso em sua saída. “Aki (apelido de Watzke) já disse em público que houve uma grande discrepância. É verdade. A essência da discrepância é que eu estava no ônibus e Aki não estava”, afirmou, acrescentando que estava absolutamente convencido que o ataque afetou o desempenho dos seus jogadores. Os alemães acabaram perdendo, em casa, por 3 a 2, e posteriormente foram eliminados.

À altura do último jogo de Tuchel no comando do Dortmund, a final da Copa da Alemanha contra o Eintracht Frankfurt, o clima estava tão ruim que jogadores foram a público criticar a escolha de Ginter como volante no lugar do machucado Julian Weigl, em detrimento de Nuri Sahin. “Fiquei chocado. Não entendi. Se estamos sem Weigl, Sahin é o único que pode fazer a função”, disse o capitão Marcel Schmelzer. “Ficamos todos surpresos”, acrescentou Reus.

Os problemas de relacionamento no Dortmund ligaram o sinal de alerta quando Tuchel recebeu o emprego do Paris Saint-Germain, com um vestiário mais recheado de estrelas e a específica missão de manter Neymar contente. Embora sem grandes explosões, houve incidentes, como Kylian Mbappé reclamando de ser substituído. “Não tem nada pessoal. É um jogador que não quer sair e um técnico que o tira do jogo. Nada mais”, minimizou Tuchel. Outro conflito foi Neymar reclamando da falta de ritmo ao retornar de lesão direto no jogo de ida das oitavas de final, contra o Borussia Dortmund, após ter sido poupado de quatro partidas. “A decisão foi totalmente do clube e dos médicos. Eles tomaram essa decisão e eu não gostei. Sentia-me bem, mas o clube estava com medo”, afirmou o craque brasileiro, sem se referir especificamente a Tuchel, que disse ao Esporte Interativo ter sido uma decisão médica e não dele.

A pressão foi forte após a derrota naquela partida para o seu ex-clube, e a mensagem que vinha dos bastidores, como nesta reportagem do UOL dizendo que “críticas ao seu trabalho haviam ficado comuns” no entorno dos jogadores brasileiros, era que seu emprego corria risco em caso de eliminação da Champions League. Em específico, de acordo com o site brasileiro, havia descontentamento com o excesso de variação tática e improvisações na equipe. A grande atuação no jogo de volta que valeu vaga nas quartas de final colocou panos quentes na situação, assim como a paralisação que encerrou o Campeonato Francês, antes do fim, com mais um título do PSG.

Relacionamentos à parte, o trabalho de Tuchel ainda parece um pouco no meio do caminho. Ofereceu mais estrutura tática aos parisienses do que seus antecessores, mas ainda parece um time dependente demais de suas individualidades, como ficou claro nas quartas de final contra a Atalanta. Os italianos apresentaram um trabalho coletivo superior, enquanto tiveram pernas, e sofreram a virada nos minutos finais, com Mbappé em campo, bons passes de Neymar e a estrela de Choupo-Moting.

O desempenho contra o RB Leipzig foi mais animador, mas ainda aquém do que o Bayern de Munique demonstrou em Portugal até agora. Armar a equipe para conter os embalados bávaros será um desafio gigante, à altura do título que ele deseja entregar ao Paris Saint-Germain. Chegou a hora de descobrir se já perdeu vezes suficientes para ter aprendido a vencer.

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Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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