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Acima do fato em si, a maneira como Messi e Ronaldo foram eliminados é o sinal mais forte de que o fim está próximo

Ao contrário de temporadas anteriores, os dois não conseguiram cair atirando, com atuações absolutamente apagadas nas derrotas de seus times

Fatos costumavam ser incontestáveis, e talvez possamos retomar um pouco essa tradição. O fato é: pelo segundo ano seguido, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo foram eliminados nas oitavas de final da Champions League. Por tudo que fizeram nos últimos 15 anos, é um sinal de que uma das mais longas hegemonias polarizadas do futebol chegou ao fim ou pelo menos se aproxima dele. Mas o mais alarmante não é o fato em si. É a maneira como eles foram eliminados.

A maior culpa precisa entrar na conta das falhas coletivas dos seus times. Nada no futebol pode ser conquistado sozinho. O Manchester United foi de Alex Ferguson para David Moyes, para um holandês ranzinza, para um português muito ranzinza, para um norueguês sorridente, e agora está em lugar nenhum, sob comando interino, tentando decidir qual será o perfil do seu próximo erro. O PSG aproveitou que tem donos com fundos ilimitados e menos consciência do que outros donos com fundos ilimitados para fazer o “melhor mercado de todos os tempos”, deixando coerência em segundo plano.

Ralf Rangnick e Mauricio Pochettino são bons treinadores que tiveram trabalhos excelentes ao longo das suas carreiras. Não estão exatamente brilhando no momento. Também não estão em ambientes dos mais favoráveis e sendo exigidos a montar um quebra-cabeça que talvez não tenha solução. Ainda é possível fazer um time competitivo no mais alto nível com Messi e Ronaldo neste estágio das suas carreiras?

Talvez não seja. Talvez quem tentar de verdade corra o risco de se transformar em Ernesto Valverde. As compensações para equilibrar o trabalho sem bola que ambos fazem com muito menos frequência hoje em dia (quando fazem), em um momento do futebol europeu em que oito a cada dez treinadores baseiam seu estilo de jogo na pressão, exigem decisões politicamente arriscadas. Outras estrelas que também não seriam escolhidas para ilustrar o verbete do gegenpressing serão barradas? Na era dos Superclubes, uma postura mais reativa seria aceita?

Mas nada disso é novidade na carreira dos dois. Antes de se transferirem no mesmo mercado, Messi estava tendo o coração destruído a conta-gotas por cada má decisão do Barcelona, e Ronaldo se esforçava para resgatar uma Juventus em crise de identidade. O próprio Real Madrid de Zinedine Zidane, com todos os méritos de um tricampeão europeu, não era um time que coletivamente sempre brilhou duas vezes por semana.

E mesmo naquelas situações, que podemos considerar melhores que a atuais, mas longe de ideais, a mera presença de Messi e Ronaldo dava a seus times uma chance. E o que mais chamou a atenção, e é potencialmente a maior fonte de comiseração ao torcedor de futebol que gosta de testemunhar a história, é que ambos foram eliminados como se nem em campo estivessem.

Por exemplo, não muito tempo atrás, quando o Barcelona começava a pegar gosto por eliminações humilhantes, Messi assumiu as rédeas para fazer 3 a 0 sobre o Liverpool no Camp Nou. Alguma coisa ele criou antes de o Bayern de Munique enfileirar aqueles oito gols. Ronaldo meteu um hat-trick no Atlético de Madrid em oitavas de final antes de fazer todos os gols da Juventus na derrota para o Ajax – e no ano seguinte todos os gols da derrota para o Lyon.

Não quer dizer que foram brilhantes ou que não tiveram culpa nas eliminações, mas caíram atirando. A temporada passada havia dado um primeiro sinal de que nem isso era mais garantido. Messi e Ronaldo pouco conseguiram fazer contra PSG e Porto. Mas nada como desta vez. Messi foi um fantasma no Santiago Bernabéu. Mal se notava que estava jogando enquanto Karim Benzema ressuscitava o Real Madrid. Cristiano Ronaldo terminou o jogo da eliminação do Manchester United  para o Atlético de Madrid sem conseguir dar uma finalização. Para o gol, para fora, bloqueada. Nenhuma.

E nos dois casos, não era que seus times estavam a milhas de distância de se classificarem. Foram confrontos apertados em que um lance de genialidade dos dois jogadores mais geniais das últimas duas décadas, uma cobrança de falta que fosse, um chute de fora da área, um passe, faria toda a diferença.

Ao fim desta temporada, serão 15 finais de Champions League desde 2007. Messi ou Cristiano Ronaldo estiveram em oito delas. Não estarão nas últimas quatro. Não apenas por causa disto, mas também porque parece que foram pouco a pouco perdendo a capacidade de elevar as suas equipes com atuações individuais de outro mundo, e os projetos esportivos em que estão inseridos não são competentes o bastante para dispensá-las.

Isso, acima de tudo, é o que passa aquela revirada no estômago de que o fim está próximo. Pode ter sido uma exceção? Pode. Eles podem voltar com tudo ano que vem? Espero que sim.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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