Champions League

A vibração que se viveu no Metropolitano é marco de um futebol que, enfim, volta a ser completo com torcida

A partida no Metropolitano se tornou realmente inesquecível por aquilo que a torcida do Atlético viveu nas arquibancadas e vibrou para dentro do campo

Durante intermináveis meses, o futebol foi menos futebol em tantas partes do mundo. A bola ainda rolava, os craques viviam seus brilhos, os times celebravam conquistas, a roda da fortuna girava. Mas não dá para dizer que o futebol era completo com arquibancadas vazias. O futebol que se disputa em campo é essencial, claro, mas ganha mais sentido quando também é vivenciado à flor da pele nas arquibancadas. A razão do esporte não é gerar dinheiro, por mais que alguns pensem assim, e sim alimentar essa paixão – aquela que, no fim das contas, faz sonhar qualquer criança, ou faz qualquer marmanjo se sentir como criança.

Nesta quarta-feira, qualquer jogador de futebol – profissional ou amador, velho ou novo – gostaria de estar em campo no Wanda Metropolitano. E não só por atuar numa grande noite de Champions League, não só por experimentar um jogaço em intensidade máxima, não só por ser treinado por um técnico que está entre os melhores do mundo. Viver a atmosfera de Madri, contagiante mesmo do outro lado da tela, é o desejo de qualquer um que gosta de bola. A história da partida passa por um jogo tão tenso quanto imprevisível, num embate de estilos que viraria do avesso. E o tom altíssimo atingido por Atlético de Madrid x Manchester City, mesmo num 0 a 0, foi elevado pelos gritos da ensandecida torcida colchonera. Deu tesão só de assistir, imagina então de jogar. As lembranças dessa partidaça serão mais vivas por causa da energia transmitida pelos torcedores, e é de se questionar se a alta voltagem absorvida no gramado seria a mesma com arquibancadas vazias. É o jogo que, simbolicamente, ajuda a reinaugurar essa abertura de portões e que mostra como o futebol, embora tenha seguido em frente, não estava completo.

A torcida do Atlético de Madrid sabia que precisaria jogar junto. A identidade de um clube vitorioso, mas combalido, passa pelo orgulho dos rojiblancos. Se o museu do clube não tem tantos troféus quanto o do vizinho poderoso, o caminho é sempre se apegar na fé. Isso conduziu o Atleti durante décadas de seca, durante passagem pela segunda divisão, durante um momento em que o clube até parecia que não conquistaria mais nada. E, desde o ressurgimento dos colchoneros, o que ocorre sempre é uma profissão de fé através dos cânticos. A maneira de retribuir a luta em campo e também de não esquecer que a fidelidade, depois de tempos tão duros, precisa ser gritada aos quatro ventos.

O desafio guardaria uma batalha mental ao Atlético de Madrid. O Manchester City encurralou os colchoneros na Inglaterra e não surpreenderia se isso acontecesse também na Espanha. Contra um adversário mais forte em aspectos técnicos, a mentalidade precisava ser uma virtude dos rojiblancos. Os torcedores estavam cientes disso e a influência em campo poderia ser exercida dessa maneira. Teriam que se fazer presentes, mesmo que o temor de uma eliminação pudesse ser tão palpável. Não dava para vacilar na fé agora, nas quartas de final de Champions, quando a massa madrilena lidou com aflições bem maiores.

A recepção ao ônibus do Atlético de Madrid já seria fantástica. Mal dava para ver o entorno do Metropolitano, entre sinalizadores e a fumaça dos fogos de artifício. Havia, claro, um caminho. E ele passava pela torcida. Os colchoneros sabiam que poderiam contar com a multidão ao redor. Não seria um embate entre 11 contra 11, quando os urros potentes no cangote fariam qualquer um se arrepiar – por bem ou por mal.

Quando os times entraram em campo, o lema estava escrito em letras garrafais, em forma de mosaico. “Paixão” era a maior palavra de ordem. “Orgulho” e “Sentimento” completavam os pedidos da torcida. Era isso que queriam ver do Atlético em campo, é por isso que se esgoelariam durante os 90 minutos. E o hino da Champions seria emblemático. Vaias ensurdecedoras abafaram o som dos alto-falantes. As sensações entre os jogadores certamente eram distintas. O Manchester City podia se sentir intimidado. O Atleti sabia que toda aquela força seria por eles em qualquer momento, para empurrar a pressão ou para cessar a vacilação.

O primeiro tempo necessitaria de resiliência. O Atlético de Madrid era melhor que na ida, o que não resultava necessariamente num jogo franco que o time precisava. Só a vitória interessava. A torcida, porém, entendia que havia um plano ali. Que não deveria esmorecer, porque o confronto estava aberto e poderia ser decidido num lampejo. Assim, a garra da massa rojiblanca seria potencializada no segundo tempo. Foi quando o Atleti cresceu. Foi quando o City se contentou em gastar o tempo, das mais diferentes formas. Foi quando as arquibancadas mais poderiam estremecer o campo para fazer os rumos mudarem.

A Champions viveu uma noite de Libertadores pelo drama, pelas tramas, pelas brigas. E principalmente pela torcida, que parecia fazer as arquibancadas penderem para dentro do gramado, tamanho barulho. Nessa batida, o Atlético de Madrid tentou sufocar um Manchester City satisfeito com a catimba e com o antijogo. Era nessa fé que os colchoneros precisaram se agarrar. Criaram chances, poderiam ter se classificado. Não aconteceu porque é futebol, outros detalhes também decidem. Mas que os oportunistas não digam que “torcida não ganha jogo”. Muito provavelmente a partidaça não existiria nessa temperatura sem os torcedores. Diego Simeone, um ídolo genuíno, que tanto chama a massa junto, estava claramente comovido.

Ao apito final, de imediato, vaias pelo resultado que não satisfez. Mas, que ficasse claro, não era ao time. Pouco depois, e por muitos minutos adiante, surgiu o cântico que vinha da alma. A decepção pela eliminação não se muda. Porém, não é isso que impede o orgulho por aquilo que se faz e que se vive. Champions tem todo ano, Atlético de Madrid vai ser por toda a vida de cada um daqueles milhares que permaneceram nas arquibancadas. Agradeceram aos jogadores, que tinham ali a resposta pelo privilégio que chamam de profissão. Agradeceram principalmente a si mesmos, porque a paixão pelo futebol está mais nessa comunhão que transforma a multidão em um só, nem tanto no resultado de 90 minutos. O Atleti continuará como um grande clube com ou sem semifinal, e essa grandeza residirá na memória dos torcedores que participaram da união no Metropolitano.

Por muito tempo, questionou-se a mudança de estádio feita pelo Atlético de Madrid. O Vicente Calderón, de fato, parecia ter personalidade própria. Contudo, quem garantia isso era a própria torcida. E o Metropolitano, nesta quarta, não deveu em nada ao antigo Calderón. Pelo contrário, inaugurou sua própria lenda na Champions. O futebol muda, os estádios se modernizam, as demandas são outras – mesmo que muita gente nem queira isso. Mas nada aprisiona o fervor de uma torcida. Isso os colchoneros carregarão consigo para sempre. A Champions certamente se lembrará dessa noite, de uma partida que serve de divisor de águas entre o antes e depois da pandemia. Não pela bola jogada em campo e sim pelo amor sentido nas arquibancadas, aquelas que nunca deveriam ficar vazias, que deixaram junto um vazio no futebol.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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