Champions League

A jogadaça de Davies foi o apogeu do baile, e fica ainda mais bonita quando se pensa em sua história de vida

O lance inteiro é uma obra de arte. Alphonso Davies recebe o passe rente à lateral esquerda e, à sua frente, está Lionel Messi. O domínio com um toque de calcanhar tira o adversário da jogada e permite ao canadense dar a volta ao redor do camisa 10. Arturo Vidal chega babando e também passa reto, no vácuo, caído no chão com a finta do garoto. E quando Davies vai para cima de Semedo, pobre Semedo. É arrancada, breque, duas pedaladas e o corte rápido, que faz o português apenas perseguir a sombra que desliza rápido ao seu lado. Num estalo, Davies está na linha de fundo, e nem se incomoda quando o lateral adversário se estica (e fica no chão) para tentar contê-lo. Na pequena área, Marc-André ter Stegen tenta fechar o ângulo. Seria um pecado se a jogadaça não terminasse em gol – e, no fim, se transforma na mais bela das assistências. Joshua Kimmich, o outro lateral, é quem faz justiça ao cutucar às redes. Mas o tento é de Davies.

Foi assim na comemoração, com o time inteiro festejando também o canadense. Kimmich até declararia que “se sentiu um pouco envergonhado de celebrar, porque 99% do tento era de Alphonso”. O jovem de 19 anos criou, num lampejo, o lance mais marcante de uma vitória que não será esquecida: Bayern de Munique 8, Barcelona 2. Outros tantos jogadores podem ser destacados na noite – e caberia aqui o elenco praticamente inteiro de Hansi Flick. O garoto, de qualquer maneira, aproveitou a ocasião mais importante de sua carreira em uma imagem que fica. Os dribles de Davies são uma marca desse Bayern. Suas arrancadas, o futebol agressivo e, por fim, o sorriso que acompanha as incansáveis comemorações de gol.

A trajetória de Alphonso Davies até Lisboa é exemplar, por sua própria história de vida. Seus pais são liberianos e fugiram da capital, Monróvia, depois que a Segunda Guerra Civil estourou no país em 1999. Abrigaram-se em Buduburam, um campo de refugiados localizado em Gana, formado pela ONU durante a primeira guerra civil liberiana no início da década de 1990. Foi neste local, a 44 quilômetros da capital Acra, que Davies nasceu e viveu seus primeiros anos. Mais de 400 mil liberianos se protegiam neste campo de refugiados. A batalha diária era conseguir comida e água para sobreviver.

A nova chance a Davies e à sua família aconteceu em 2006. Os pais se inscreveram em um programa de reassentamento, mudando-se para o Canadá quando o garoto tinha cinco anos. Por lá, pôde frequentar a escola, o que não acontecia no campo de refugiados. Cuidava dos dois irmãos menores, ambos já nascidos no novo país, enquanto os pais trabalhavam em jornadas noturnas e ganhou responsabilidades logo cedo. Também precisou se adaptar num local totalmente novo, inclusive pelo clima muito mais severo que em Gana. E viu nos esportes um caminho para crescer. Praticou atletismo, basquete, vôlei e, como um bom morador de Edmonton, hóquei sobre o gelo – até ingressar na escolinha de futebol, aos nove anos.

O futebol já ajudava seu pai, Debeah, a se integrar no novo país. Ele atuava num time amador de Edmonton e, quando voltava para casa, gostava de acompanhar as partidas do Chelsea. Didier Drogba e Michael Essien logo se tornaram inspirações a Alphonso Davies. Ele sonhava em se tornar profissional na Europa e logo passou a se empenhar para isso. Os antigos treinadores do garoto afirmam que ele sempre teve um alto nível de maturidade, bem como muita ética de trabalho – mesmo que precisasse faltar a alguns treinos para cuidar dos irmãos. O que se nota na ascensão rápida pelo Bayern, no fim das contas, é um reflexo do que viveu. Um desses técnicos, Nick Househ, tomava um cuidado especial com Davies para saber se ele estava se alimentando direito e se cuidando. Viraria depois seu representante.

Após duas peneiras frustradas, Davies ganhou uma proposta para jogar no Vancouver Whitecaps quando tinha 14 anos, deixando Edmonton. Precisou convencer os pais que seguiria seu foco longe de casa, sem largar os estudos. E o reconhecimento viria logo cedo, mesmo com seus altos e baixos, de quem ainda se acostumava com um nível cada vez mais profissional. O prodígio tratou de aprender rápido, ganhando suas primeiras chances na equipe principal antes mesmo de completar 16 anos – o segundo mais jovem a estrear na Major League Soccer. A transformação não seria de Davies, mas de seu entorno. Aos 17 anos, sobretudo, fez uma excelente temporada na MLS, eleito o melhor do clube em 2018. O então ponta convenceu o Bayern de Munique a contratá-lo por €10 milhões. Um valor que, hoje em dia, se multiplicou com toda a capacidade do jogador.

Legalmente cidadão canadense desde 2017, Alphonso Davies também se tornou bávaro por adoção nos últimos meses. O planejamento do clube previa calma em seu lançamento. Tanto é que, por vezes, atuou com o segundo quadro – por mais que ganhasse minutos desde a temporada passada no time de cima. E se há um legado de Niko Kovac na Allianz Arena foi ter promovido o garoto à lateral esquerda quando o calo apertou. Os problemas de lesão o deslocaram à posição, quando até se pensava na possibilidade, embora houvesse uma desconfiança quanto ao seu poder de marcação. No fim das contas, o adolescente se mostrou muito mais completo do que se imaginava, e fica até difícil esperar que David Alaba volte ao seu lugar se seguir na Baviera.

Davies foi o melhor lateral esquerdo da Bundesliga e a grande revelação do campeonato. Chegou ali pelas mãos de Kovac, que logo sairia, e cresceu muito mais sob as ordens de Hansi Flick. As subidas do lateral se transformaram em arma constante nos jogos do Bayern, solto para explorar o corredor. Contribuiu com gols e assistências, bem como apareceu em jogos grandes. Na própria Champions, havia sido um dos melhores em campo na ida diante do Chelsea, com assistência para Robert Lewandowski fechar o placar. Stamford Bridge, que ocupava suas tardes e seus sonhos durante a infância, virava a sua realidade.

Pegar o Barcelona também representava um sentimento especial a Davies. Quando morava no Canadá, o garoto gostava de ver o clube – sobretudo por causa de Messi. Na época da escolinha de futebol, reunia-se com os outros alunos para assistir ao torneio e tratá-lo como uma aula. Nesta sexta, o canadense tirou nota 10. Foi empenhado e sua lição se cumpriu com excelência. Apoiou durante todo o tempo, permitiu que Ivan Perisic aproveitasse mais a diagonal e pouco sofreu por seu lado na marcação, com Kimmich até mais exposto em sua readaptação à posição. E então veio a jogada mágica.

Messi estava marcando Alphonso Davies naquele momento. O mesmo Messi que o canadense admirava em sua infância. Na antevéspera do jogo, ao conversar com seu pai por telefone, os dois começaram a rir por pensarem no que representava a Davies encarar seu ídolo. Havia o risco de deslumbramento? Talvez. O que se viu, em compensação, foi a mais pura vontade. E ganha um simbolismo extra deixar o camisa 10 para trás, antes de enfileirar os demais marcadores como gente grande, até que o passe viesse para Kimmich completar. É como se fosse o desfecho perfeito de um conto de fadas.

Mas não é, ainda não é. Davies e nem o Bayern querem que pare por aí. Depois destes 8 a 2, a pressão pelo título vai ser maior, assim como as atenções sobre o futebol do prodígio. Há outros desafios por vir, não tanto com a mística do Barça, mas com mais qualidade coletiva e mais requisitos para tentar desbancar os bávaros. A maturidade e a postura precisarão se manter por mais dois jogos. Para que Lisboa se torne o capítulo final de uma história que começou na Libéria, refugiou-se em Gana, ganhou uma oportunidade no Canadá e teve a Alemanha como abrigo às realizações. Tudo fica ainda mais bonito naquela jogadaça quando se pensa no caminho percorrido. E Davies tem consciência do que isso pode representar.

“Quero usar minha plataforma para espalhar a mensagem sobre os refugiados e por que é importante apoiá-los”, declararia em abril, durante evento em parceria com o ACNUR, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. “Como ex-refugiado, sou muito grato pela ajuda que minha família recebeu, pelas oportunidades que isso me abriu e para onde isso me trouxe. Neste momento, há mais de 70 milhões de pessoas ao redor do mundo forçadas a fugir de suas casas. Espero que, enquanto as pessoas estejam mantendo a si mesmas e suas próprias famílias seguras, elas também possam ajudar a apoiar os refugiados que perderam tudo”. Com a bola, Davies também ajuda: a não perderem a esperança.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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