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A cena musical de Liverpool deu aos Reds um hino, e ao Villarreal, um apelido: Submarino Amarelo

Durante a campanha do acesso à terceira divisão no final da década de sessenta, torcedores do Villarreal tocavam o hit dos Beatles nas arquibancadas - e o apelido pegou

um livro chamado The Kop: Liverpool’s Twelfth Man com histórias sobre a torcida do Liverpool que traçou as origens de You’ll Never Walk Alone como hino do clube inglês. A principal hipótese é que, durante os anos sessenta, no auge do time montado por Bill Shankly, as arquibancadas de Anfield ficavam cheias muito antes do pontapé inicial e, para curar o tédio, o DJ tocava as dez primeiras músicas das paradas daquela semana. E o público acompanhava. A adaptação de Gerry and the Pacemakers de uma canção de um musical da década de quarenta estreou no top 10 em 13 de outubro de 1963. Seis dias depois, o West Brom visitou Anfield. Provavelmente a primeira vez que o estádio cantou as palavras que seriam imortalizadas em seus portões.

A cena musical de Liverpool, entre as mais relevantes da década de sessenta, curiosamente também influenciou o outro clube que começará a disputar a semifinal da Champions League nesta quarta-feira. Gerry and the Pacemakers era uma banda menor, mas, como todas as outras, foi eclipsada por um conjunto em especial. Os Beatles não deram um hino ao Villarreal, mas o seu apelido: Submarino Amarelo.

“Na temporada 1967/68, o clube tentava novamente subir à terceira divisão, o que finalmente conseguiria naquela campanha. Um grupo de torcedores jovens começou a tocar a música dos Beatles em um toca-discos a pilhas durante os jogos. E cantavam com uma letra especial: ‘O Submarino é amarelo/é amarelo/ é amarelo”, contou o Villarreal em seu site oficial. Na página de La Liga, consta que a música se popularizou entre os torcedores na versão em espanhol, composta pelos Mustangs, durante a comemoração do acesso.

O site da Uefa, aliás, diz que a cor amarela foi escolhida por acaso: em 1947, o filho do então presidente foi enviado a Valência para comprar uma camisa alternativa às brancas que o clube usava e só tinha amarelo. “O uniforme do Villarreal, com o passar dos anos, seria amarelo com bainhas e calções azuis”, continua o site oficial do Villarreal. “Até que na ‘Era Dourada’, quando se estabelece na elite do futebol nacional e internacional (2004/05), o clube decide se vestir todo de amarelo para honrar aquele apelido”.

A música do álbum Revolver foi publicada em agosto de 1966, também em um single, junto com Eleanor Rigby. É uma das que o grupo costumava separar para Ringo Starr fazer o vocal. Ele parecia gostar da temática marítima porque outra que cantava era sobre um jardim de polvos. Os Beatles, em meio a uma ascensão meteórica, estavam experimentando musicalmente. A letra é bem simples: o céu é azul, o mar é verde, o submarino é amarelo. Como muitas músicas dos Beatles, a simplicidade não impediu o seu sucesso, muito menos sua popularidade. Nem as interpretações.

John Lennon era um dos rostos mais famosos que encabeçavam a oposição à Guerra no Vietnã. A música, lançada pouco depois do comentário “somos mais populares que Jesus Cristo”, foi tida por alguns como uma ode anti-guerra porque… o mar é pacífico? Ou porque falava em união. Outra hipótese a associa às drogas, talvez mais precisa porque o psicodelismo estava em grande fase e o que pode ser mais psicodélico do que viver em um submarino amarelo? A embarcação também seria uma metáfora à pressão que os quatro garotos viviam após explodirem, e o amarelo seria porque apesar de tudo eles estavam se divertindo, e o mar verde representaria o dinheiro que estavam ganhando.

No livro Paul McCartney: As Letras, publicado em 2021, no qual um dos maiores compositores vivos explica a sua obra, McCartney dá força à terceira teoria. “Boa parte do subtexto de Yellow Submarine era que nós, Beatles, já naquela época estávamos vivendo em nossa cápsula própria. Em nosso próprio microclima. Em nosso próprio ambiente controlado”, diz, agradecendo um professor do ensino médio que o ensinou sobre a tradição do nonsense e do absurdo na literatura inglesa.

A vida em Liverpool no pós-guerra era um tema comum na obra dos Beatles. Penny Lane é uma rua no subúrbio perto de onde Paul e John trocavam de ônibus. Yellow Submarine é mais um exemplo. “Quando éramos crianças em Liverpool – ‘In the town where I was born’ -, a realidade incluía bombas, racionamento e ruínas. Nossa diversão costumava ser feita em casa. O entretenimento dos mais velhos era entoar canções. Você aprendia a se contentar com muito pouco. Quando conseguia um pouco mais, era como passar do preto e branco ao colorido. Para os Beatles, embora não soubéssemos disso na época, expressar nossa alegria por sair do mundo preto e branco realmente contribuiu para essa nova explosão multicolorida. Difícil de acreditar, mas tivemos um papel ativo nisso. Versos como ‘Sky of blue and sea of green’ ajudaram a tornar o mundo mais vibrante”, explicou McCartney.

Quase todas as principais músicas dos Beatles foram bem nas paradas e provavelmente acabaram sendo cantadas em Anfield em algum momento. Há registros de uma Kop lotada entoando She Loves You, como no vídeo inserido lá em cima, e a influência dos Beatles segue presente. A nova música de Jürgen Klopp é ao som de I Feel Fine, por exemplo. A torcida vermelha aproveitou muito bem o legado musical que recebeu das bandas locais, mas precisa se contentar sem Yellow Submarine. Essa é toda do Villarreal.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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