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O centroavante que não é só artilheiro: Como Arteta e outros técnicos mudaram papel do camisa 9

Havertz, Gabriel Jesus e outros mostram como os atacantes passaram a ser valorizados também pelo que fazem sem a bola

Kai Havertz é um dos centroavantes que podem parecer um jogador simples de explicar, mas seu jogo é diferente do comum. É alto, bom no jogo aéreo, capaz de atacar a área e baixar para o meio. Durante boa parte da carreira, foi classificado como meia, atacante ou falso nove, até encontrar no Arsenal uma função mais próxima à de centroavante.

No início da temporada 2026/27, isso ficou evidente. Havertz começou os quatro primeiros jogos de Premier League como titular e marcou duas vezes, além de ter feito um gol na vitória sobre o Manchester City pelo Community Shield. Sua contribuição, entretanto, vai muito além desses números.

Havertz ajuda a explicar uma transformação que aconteceu com a posição nos últimos anos. O centroavante continua tendo de marcar gols, naturalmente. Só que, para alguns dos principais treinadores do futebol atual, isso deixou de ser suficiente para definir o valor de um camisa 9.

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Havertz, Jesus e o centroavante que começa a pressão

O “The Athletic” lembrou que Arteta chegou a explicar antes da partida contra o Sunderland que a posição de Havertz depende de uma série de fatores: o momento do jogo, o que a equipe precisa fazer, a situação da bola, as jogadas ensaiadas, a pressão adversária e até se o goleiro rival é destro ou canhoto.

A partir disso, o site inglês analisou como o alemão se portava em diferentes partidas. No fim, Havertz não ocupa simplesmente uma posição, mas um espaço em função do que o adversário oferece. E, em um time que quer controlar a saída de bola rival com tanta precisão, alguns metros podem mudar completamente a jogada.

Se o goleiro for destro, seu passe mais natural tende a sair para um determinado lado. Se for canhoto, o ângulo muda. Se um zagueiro específico for responsável por receber a primeira bola, a estrutura muda novamente. Se o volante recuar para participar da construção, surge outro passe a ser protegido.

Kai Havertz, atacante do Arsenal
Kai Havertz, atacante do Arsenal (Foto: Imago/Sportimage)

Seu trabalho não é necessariamente correr diretamente em direção ao goleiro.

É se posicionar de modo que um passe específico fique mais difícil ou impossível. Foi isso que aconteceu contra o Manchester City. Gianluigi Donnarumma, destro, tinha uma preferência clara por determinados ângulos de saída. Havertz se posicionava de forma a dificultar a circulação pelo lado direito do goleiro italiano.

O objetivo não era necessariamente roubar a bola. Era forçar Donnarumma a fazer o passe que o Arsenal queria. O goleiro ficava sem uma saída curta confortável e precisava recorrer ao lançamento. A partir daí, o Arsenal disputava a segunda bola com uma estrutura já preparada.

Se o Arsenal sabe que o goleiro é destro, Havertz pode fechar uma linha de passe específica e conduzi-lo para determinado lado. O treinador não está dizendo que Havertz troca de posição por capricho, mas que a posição inicial do atacante é uma consequência da informação disponível antes da jogada.

Contra o Sunderland, por exemplo, Robin Roefs era canhoto. O Arsenal sabia ainda que o Sunderland utilizava Kevin Danso para participar da saída curta e conectar-se ao goleiro. A resposta foi colocar Havertz mais centralizado. Em vez de partir inicialmente de um lado, ele esperava próximo ao centro e, quando Roefs recebia, acelerava para um dos lados, fechando o ângulo e tentando induzir o goleiro ao lançamento.

Gabriel Jesus é outro caso particularmente interessante porque sua importância nunca dependeu apenas da capacidade de marcar gols. Pep Guardiola já havia identificado no brasileiro uma característica que o tornava adequado ao Manchester City: agressividade e intuição para pressionar.

Quando Julián Alvarez chegou ao clube, Guardiola comparou os dois justamente nesse aspecto, dizendo que o argentino era defensivamente semelhante a Jesus e destacando sua agressividade e capacidade de interpretar as jogadas.

No Arsenal, Arteta enxergou a mesma característica. Ao explicar a adaptação de Jesus ao clube, o treinador destacou a intensidade coletiva necessária para recuperar a bola no campo adversário e disse que não era possível jogar dessa maneira com atacantes que “só andam” defensivamente.

E Jesus frequentemente a transforma a pressão em uma perseguição agressiva. Ele acelera sobre o zagueiro, muda de direção, fecha uma linha, volta para pressionar o goleiro e tenta transformar uma saída aparentemente segura em uma situação desconfortável. Ele saber quando correr.

Uma análise do “FBRef” sobre sua passagem pelo Arsenal em 2025/26 encontrou 28,22 pressões por 90 minutos, número que o colocou entre os 5% melhores centroavantes desse quesito das cinco grandes ligas. O levantamento também apontou 6,95 contra-pressões por 90 minutos, entre os 3% melhores.

Firmino mostrou que o 9 pode criar sem tocar na bola

Antes de Havertz começar a transformar a posição em um problema de geometria para os adversários, Roberto Firmino já havia mostrado no Liverpool de Jürgen Klopp que um centroavante poderia ser decisivo sem precisar ser o principal finalizador.

Klopp tinha uma definição particularmente reveladora sobre o brasileiro. Para o alemão, não era uma contradição que um atacante fosse avaliado também pela maneira como defendia.

Firmino podia sair da referência central, recuar para receber, arrastar um zagueiro e abrir o corredor para Sadio Mané ou Mohamed Salah atacarem. Quando o defensor decidia acompanhá-lo, criava-se um espaço atrás. Quando não acompanhava, Firmino recebia entre as linhas. O atacante não precisava necessariamente tocar na bola para alterar a estrutura defensiva.

Roberto Firmino, quando defendia o Liverpool (Foto: PA Images/Icon Sport)
Roberto Firmino, quando defendia o Liverpool (Foto: PA Images/Icon Sport)

A própria dinâmica do Liverpool de Klopp dependia disso. A linha ofensiva era fluida, e Firmino podia abandonar a posição de centroavante enquanto os jogadores ao redor ocupavam o espaço que ele deixava. A movimentação não era um abandono da função de 9, — era a própria função.

Por isso, transformá-lo em um atacante que “não fazia tantos gols” seria perder o ponto. Firmino marcou 111 gols pelo Liverpool e foi um dos principais jogadores de uma equipe que ganhou Premier League e Champions League. Ele era capaz de finalizar, mas seu valor estava em algo maior. Klopp não precisava que Firmino fosse apenas o jogador que terminava a jogada.

Alvarez e Kane são os exemplos mais extremos da mudança

Julián Alvarez ajuda a evitar uma interpretação equivocada dessa tendência. Não se trata de dizer que os treinadores modernos passaram a abrir mão dos gols em nome da tática. Alvarez é justamente o contrário: um atacante capaz de marcar muitos gols e, ao mesmo tempo, cumprir uma enorme quantidade de trabalho defensivo.

Quando chegou ao Manchester City, Guardiola destacou sua movimentação, desejo e trabalho sem bola. Alvarez, portanto, representa uma etapa diferente da mesma transformação: ele não precisou trocar gols por trabalho tático, conseguiu oferecer os dois.

Isso mostra que a evolução da posição não significa que o centroavante deixou de ser um goleador. O que mudou foi a quantidade de coisas que se espera que ele consiga fazer além disso.

Um 9 que marca 25 gols e não participa do funcionamento coletivo continua sendo valioso. Um 9 que marca 20 e oferece uma pressão coordenada pode ser ainda mais valioso para determinado modelo. Um 9 que marca 15, mas cria espaços para dois pontas que chegam a 20, também pode cumprir exatamente aquilo que o treinador precisa. O número de gols continua existindo. Só deixou de contar toda a história.

Harry Kane pelo Bayern de Munique. Foto: IMAGO / ANP

Harry Kane leva a discussão para outro lugar porque demonstra que o centroavante pode abandonar completamente a região em que esperamos encontrá-lo e ainda assim continuar exercendo a função de 9. No Bayern de Munique e na seleção inglesa, se tornou o centroavante que baixa tanto a ponto de receber a bola perto dos zagueiros.

A lógica é simples, mas difícil de defender. Na seleção, por exemplo, Declan Rice e Elliot Anderson atraem os meio-campistas para fora da região central enquanto Kane recuava. Se um jogador o acompanhasse, abria-se espaço para outro inglês. Se ninguém o acompanhasse, Kane recebia livre entre as linhas.

Jude Bellingham permanecia em uma zona mais avançada, enquanto os pontas mantinham a largura e ameaçavam a profundidade. O centroavante, nesse caso, não estava apenas terminando o ataque, mas ajudando a construí-lo desde trás. Isso ajudou Bellingham a marcar sete gols na Copa do Mundo, mas o próprio Kane também atingiu esse número. E, no Bayern de Munique, foi o maior artilheiro do país.

O novo centroavante não precisa parecer um centroavante

Talvez essa seja a principal transformação da posição. Durante décadas, a imagem do centroavante esteve associada à permanência na região mais perigosa do campo: o jogador que espera a bola, briga com os zagueiros, ganha duelos aéreos e finaliza.

Essas características continuam existindo. A questão é que os melhores sistemas atuais encontraram maneiras de transformar a própria posição em uma ferramenta coletiva. O atacante pode sair da área para criar espaço, permanecer no meio para bloquear uma linha de passe ou deslocar-se para um lado para orientar a saída adversária.

Pode recuar para criar superioridade, pressionar o zagueiro para determinar para onde o goleiro será obrigado a jogar e, quando a bola chegar à área, ainda precisar estar lá para finalizar. O 9 não precisa receber a bola para influenciar a jogada.

E é exatamente isso que Firmino, Jesus, Álvarez e Kane ajudam a explicar. São jogadores diferentes, de gerações diferentes e com características técnicas diferentes, mas todos mostram que o centroavante moderno pode ser muito mais do que o último jogador de uma jogada.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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