Europa

Castelo erguido na areia

A temporada parecia ter terminado em alta para o futebol da Turquia. Mesmo que os resultados nas competições continentais não tenham vindo, o final acirrado da Süper Lig havia impulsionado o interesse pelo campeonato local. Tudo uma mera impressão. Abaixada a poeira pós-disputa, começa a surgir uma grande mancha entre os clubes turcos. Ao longo dessa semana, se desencadeia o que já pode ser considerada uma das maiores operações da história do país contra a manipulação de resultados.

Entre os acusados, mais de 61 pessoas ligadas ao esporte, incluindo no mesmo bolo dirigentes e jogadores. Destas, 20 irão para os tribunais. Segundo a polícia turca, um total de 19 partidas, tanto da primeira quanto da segunda divisão, tiveram os seus resultados alterados pelas falcatruas. E, além de organizações criminosas ligadas a redes de apostas, o maior beneficiado seria ninguém menos que o Fenerbahçe, campeão da Süper Lig 2010/11. Entre aqueles que foram presos, Aziz Yildrim e Sekip Mosturoglu, presidente e vice dos Sari Kanaryalar.

Na operação policial deflagrada pela polícia, foram apreendidos documentos e até mesmo pistolas sem registro, munição e uma carteira de motorista falsificada. A imprensa turca adiantou que alguns dos envolvidos já sabiam das investigações antes mesmo de elas serem divulgadas.

Em declaração feita nesta quarta, o técnico Aykut Kocaman afirmou que o escândalo não vai atrapalhar em nada a preparação do Fenerbahçe nem vai tirar o mérito dos jogadores na conquista da Süper Lig. De qualquer forma, o clube adiantou-se no último fim de semana para soltar nota oficial em seu site (inclusive na página em português) dizendo que “o Fenerbahçe nunca foi ligado com nenhuma ilegalidade na sua história e também nunca terá uma relação suja no seu futuro.” Há muito, no entanto, a ser esclarecido para apagar a mácula. Ainda que nada esteja provado, existe o risco de que a equipe tenha o seu título impugnado.

As investigações dão conta que o Fener teria pagado os seus adversários para manter a série invicta de 18 partidas (17 vitórias e um empate) durante o segundo turno. Entre os jogadores presos, estão o goleiro Serdar Kulbilge, que sofreu nada menos que seis gols do time de Istambul na penúltima rodada, e dirigentes do Sivasspor, último adversário na Süper Lig. Além disso, as suspeitas também recaem sobre atletas que irão se transferir ao clube na próxima temporada, como Emmanuel Emenike e Sezer Özturk, destaques de Karabükspor e Eskisehirspor que teriam feito corpo mole nos confrontos diretos. Ao todo, o Fenerbahçe pagou quase 12 milhões de euros pelo futebol de ambos, parte desse dinheiro como “agradecimento” pelos resultados.

E as ressalvas não devem ser feitas somente à campanha dos Sari Kanaryalar. Por ter sido campeão, é compreensível todo bombardeio sobre o Fenerbahçe, mas a campanha do Trabzonspor foi tão espetacular quanto e, da mesma forma, deve ser posta em xeque. Tanto é que Nevzat Sakar, vice-presidente da Karadeniz Firtinasi, está incluído na primeira leva de detidos. O Besiktas, outro que fechou a temporada em alta com o título da Copa da Turquia, também possui cartolas investigados.

Em curto prazo, os prejuízos trazidos ao futebol turco pelo estouro do esquema são devastadores. A manipulação não apenas tira a credibilidade dos clubes do país, como também breca o crescimento que se desenhava para as próximas temporadas. Além da competitividade, a importância conquistada por equipes como Trabzonspor e Bursaspor abria o leque de opções para os jogadores interessados em atuar no país. A alta da economia turca, aliás, já vinha se refletindo na política dos clubes, repercutindo cada vez mais em suas ações no mercado de transferências. Por ora, toda essa movimentação deve permanecer estagnada.

De uma forma geral, todavia, os acontecimentos da última semana só tendem a beneficiar o esporte na Turquia. Não adiantaria nada edificar o crescimento da Süper Lig em alicerce de areia. Ainda que não livrem totalmente o país do risco de manipulação, a ação inibe esquemas futuros, bem como promovem uma estruturação mais sólida da nova fase do futebol local, mesmo que esta não seja imediata.

Além disso, o próprio comando interno da direção do futebol no país tem passado por mudanças essenciais. Tais operações, que eram arquitetadas desde dezembro de 2010, foram fomentadas por modificações na legislação esportiva do país em maio deste ano, feitas exatamente para apertar o cerco contra a manipulação de resultados – trechos sobre as punições para envolvidos, por exemplo, ficaram mais rígidos.

Justamente durante o início do escândalo, a Turquia ainda ganha novo Ministro dos Esportes, bem como a Federação Turca tem novo presidente, eleitos em processos que se iniciaram antes da divulgação das ações policiais. A esperança agora é que Suat Kilic e Mehmet Aydinlar, os novos gestores, tenham pulsos firmes na condução dos casos e reestruturem o futebol turco. Mesmo que nenhuma das acusações tenha sido provada até o momento, é melhor aproveitar a deixa e limpar a sujeira antes que a situação fique mais nebulosa.
 

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Equipe Trivela

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