Europa

O Ibrahimovic arrogante que você conhece é só uma das facetas do personagem

No período que antecedeu a disputa da repescagem das Eliminatórias para a Copa deste ano, Ibrahimovic, que teria pela frente Cristiano Ronaldo no encontro dos países dos dois craques, afirmou que o Mundial perderia muito mais com sua ausência que com a do português. Esse tipo de declaração resume a imagem que Ibra construiu, mas certamente não é a única característica presente no caráter do sueco. E, certamente, não é aquela que ele quer que seus filhos vejam. Zlatan – seu primeiro nome e forma como se refere a si próprio em declarações públicas – pode ser muito diferente do que você imagina, e isso ficou bastante claro na ótima entrevista concedida ao jornal inglês Guardian.

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Embora tenha construído através de seu comportamento dentro de campo, entrevistas e relacionamento com companheiros de clube uma imagem de arrogante, inatingível, dono de uma autoconfiança inabalável, o craque faz questão de que não seja assim que Vincent e Maximilian o vejam: “Zlatan. Essa não é a imagem que eu quero que eles tenham de mim. Mesmo quando eles brincam e me chamam de ‘Zlatan’, eu não gosto. Eles têm que me chamar de ‘Papai’. Para mim isso é um assunto muito sensível. Não quero que eles vejam seu pai como os torcedores me veem. Aonde quer que eu vá, as pessoas me reconhecem, querem tirar uma foto comigo. Mas, em casa, eu quero ser o “Papai”, não quero ser Zlatan. Quando saio, represento meu clube e eu mesmo, Zlatan Ibrahimovic, mas em casa sou uma pessoa 100% família”.

Isso talvez seja reflexo da relação próxima que tinha com o seu pai. A infância pobre de Ibrahimovic também foi um dos temas do bate-papo O jogador revelou que, após a separação de seus pais, quando tinha dois anos, manteve-se mais próximo do pai. Uma figura não só presente como também importantíssima nos primeiros passos da carreira do craque de gols acrobáticos. “Uma vez ele me deu todo seu salário para que eu pudesse viajar para um campo de treinamento. Ele não conseguia pagar o aluguel, mas fez isso”, revela Ibra.

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Em meio a toda a imagem de arrogância que o craque deixa transparecer, uma ou outra declaração de colegas de clube dele fazem você enxergar um pouco melhor a figura Ibrahimovic como atleta. Segundo relatos de jogadores como Lucas, o atacante é mega dedicado, e uma pequena história contada pelo próprio sueco nesta entrevista ao Guardian ajuda a elucidar mais isso. Você deve se lembrar daquela atuação de gala que Ibra teve contra a Inglaterra no final de 2012, em amistoso que marcava a inauguração da Friends Arena, na Suécia. Os donos da casa venceram por 4 a 2, todos seus gols sendo marcados por Ibrahimovic, que deixou por último o mais belo deles. Uma bicicleta de muito longe, encobrindo o goleiro Joe Hart. O atacante lembra daquela atuação como o dia em que calou os ingleses. Para o jogador do PSG, um craque só é mesmo reconhecido internacionalmente quando joga bem contra os inventores do jogo, e a descrição do que sentia durante aquele duelo e como levou seu treinamento seguinte à partida mostram bem a ética de trabalho de Ibra.

“Arrisco-me na maneira como jogo, e às vezes (meu jogo) não parece fantástico. Mas então veio a Inglaterra. Eles (ingleses) estavam dizendo a mesma coisa de sempre sobre mim, mas eu apenas disse que seria fantástico, a primeira partida em nosso novo estádio. O primeiro gol veio, e eu fiquei feliz. Quando veio o segundo, enlouqueci. E quando o terceiro entrou, olhei ao redor e pensei: ‘Tudo bem. O que vocês vão dizer agora?’ Com o quarto, o de bicicleta, pensei: ‘É isso. Não sei o que mais posso fazer’. Trabalhei mais duro que nunca naquele dia e também marquei o mesmo gol de bicicleta no treino. Estava chovendo, e eu dei a cambalhota de novo e marquei num daqueles gols bem pequenos de treinamento. Ninguém conseguia acreditar. Diziam que tinha sido ainda mais bonito que o gol contra a Inglaterra. Eu disse: ‘Não, prefiro o gol contra a Inglaterra. Podemos ir no Youtube e vocês veem’. Mas é assim que eu treino. Sempre quero melhor. Se nunca estar satisfeito é um problema, então eu tenho um problema. Pelo menos é um problema bom”, analisou.

Assim como muitos jogadores, Ibrahimovic passou por aquele período em que todos desacreditavam do seu sonho. A diferença no caso do sueco está na forma como encarou (e ainda encara) isso. Ele não cai no clichê de “não dar moral aos críticos”. Crava que, mesmo após todos os 23 troféus que conquistou na carreira, calar a boca das pessoas que um dia não acreditaram nele é sua verdadeira conquista. “Ninguém acreditava que eu conseguiria, todos me provocavam. Achavam que eu iria embora porque tenho a boca grande. Acharam que minha visão era louca. ‘Não vai acontecer’. Mas eu sempre tive esses sonhos de onde eu iria parar, e agora aqui estou. Se voltarmos 15 anos, tudo que eu previ então se tornou realidade. E os que me xingavam? Agora estão engolindo suas palavras. Esse é meu verdadeiro troféu”, contou.

Com 33 anos recém-completados, o Ibrahimovic jogador seguirá sendo essa figura cheia de si, que olha torto os marcadores que ousam tocar nele. Seguirá com declarações que o colocam à frente de qualquer outro atleta no mundo. Continuará conversando dentro de campo com seus colegas como se houvesse uma hierarquia clara que o coloca à frente dos outros. Mas o sueco não é apenas isso. Há várias coisas a se observar no recordista de gols pela seleção sueca. Além dos golaços, até que dá para aprender uma coisa ou outra sobre a vida com uma figura dessas.

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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