A reaproximação na política deixou Cuba e EUA de lados opostos no futebol

O mundo respirou a história a plenos pulmões nesta quarta-feira. Sob o conselho do Papa Francisco, Barack Obama e Raúl Castro anunciaram a tão aguardada reaproximação entre Estados Unidos e Cuba, após cinco décadas de rompimento diplomático. Por mais que a Guerra Fria tenha se encerrado no final dos anos 1980, as animosidades entre os dois países seguiam como últimos resquícios de um mundo dividido entre capitalismo e comunismo. Muitos analistas viram com cautela a abertura. Ainda assim, milhares de cubanos expatriados nos EUA comemoram a notícia, podendo visitar outra vez a terra natal.
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Entre aqueles que se encheram de esperança com o novo momento, provavelmente está o melhor jogador cubano da atualidade. Osvaldo Alonso está longe de ser um craque. No entanto, o volante aguerrido é ídolo do Seattle Sounders, uma das equipes mais consistentes da Major League Soccer. E, em um país com pouquíssima tradição no esporte, como Cuba, não é preciso muito mais do que isso para chegar ao ápice. Após sete anos, talvez Ozzie tenha a chance de defender a seleção cubana novamente. Ou abraçar de vez a cidadania americana, no US Team, pelo qual sonhou disputar a Copa de 2014.
A fuga de Alonso da ilha foi possibilitada justamente pelo talento demonstrado no futebol local. Destaque no Pinar del Río, campeão nacional em 2006, o meio-campista chegou à seleção cubana quando tinha 20 anos. Em poucos meses, se tornou titular e disputou a Copa Ouro de 2007. A oportunidade que teve para desertar. Antes da partida contra Honduras, o jogador aproveitou a visita a um supermercado de Houston para abandonar a sua delegação.
A situação vivida por Alonso estava longe de ser inédita. As deserções são bastante comuns entre atletas cubanos, sobretudo jogadores de beisebol e boxeadores. Como não é dos esportes mais populares na ilha, e muitos dos principais jogadores acabam seguindo para outras modalidades, a quantidade de futebolistas que abandonaram o país não é tão alta. Desde 1999, foram pouco mais de 20 fugas. E o meio-campista se tornou o principal exemplo de sucesso para seus compatriotas.
“Eu tinha tudo preparado. Estava claro para mim que queria ficar nos Estados Unidos. Precisei deixar tudo para trás: meu país, minha família, meus amigos. Foi uma decisão muito dura, mas estava seguro de que fazia o certo. A vida demonstrou que acertei na escolha e não me arrependo”, declarou Ozzie, em entrevista ao Marca, em 2013. “A vida em Cuba é muito complicada. Em meu país, o futebol não tem tradição e nem recursos. Todos vão para outros esportes mais populares, como o beisebol. Além do mais, conhecemos a realidade da ilha”.
Mesmo ganhando uma chance de treinar no Chivas USA, Osvaldo Alonso optou por defender o Charleston Battery, da USL – liga secundária dos EUA. O meio-campista arrebentou em sua temporada de estreia, eleito o melhor jogador do time e o melhor novato do campeonato. Acabou levado pelo Seattle Sounders como um dos reforços para a temporada inaugural do clube na MLS, em 2009, e tornou-se titular absoluto desde então, somando mais de 250 jogos. Mais do que isso, colocou-se entre os melhores volantes da liga. Foi escolhido para a seleção do campeonato em 2012, além de ter sido aclamado por três vezes o melhor jogador dos Sounders no ano. “Meu ídolo era Zidane e gosto muito de Xavi, mas acredito que sou mais parecido com Makélélé”, define-se o cabeça de área que une pegada na marcação, segurança nos passes e potência nos chutes.
Tamanho sucesso levou Ozzie a ser cogitado na seleção americana, especialmente após obter a cidadania do país, em 2012. Conhecida por seu fanatismo muito acima dos níveis comuns nos EUA, a torcida do Seattle Sounders ajudou a engrossar o coro. E o próprio jogador abriu a mente para a possibilidade. “Eu não tenho permissão para atuar nunca mais por Cuba, então eu penso que terei a oportunidade de defender os EUA. Se acontecer, é algo que eu quero. Estou muito feliz por isso”, disse ao Seattle Times, em junho de 2012.
O técnico Jürgen Klinsmann também se pronunciou a favor da convocação de Alonso, visando o reforço para a Copa de 2014. Mas o entrave não permitiu que isso acontecesse. Embora já tivesse defendido Cuba em jogos oficiais, o volante poderia atuar pelos EUA justamente por ter perdido os direitos de sua antiga nacionalidade. O problema é que, segundo a Fifa, ele precisaria de uma autorização do governo da ilha para concretizar a mudança. Apesar de seus pedidos, nunca aconteceu.
A aproximação entre Estados Unidos e Cuba deve significar também a retomada da carreira internacional de Osvaldo Alonso. Alguns torcedores do Seattle Sounders já se anteciparam, clamando a Klinsmann para convocar o meio-campista. Todavia, a possibilidade de voltar à seleção cubana se torna real agora. E, pelas palavras de Ozzie em 2013, não há muitas dúvidas sobre a sua escolha: “Meu maior sonho? Voltar a vestir a camisa de Cuba”. Para sua sorte, não ter vindo ao Mundial do Brasil pode ajudá-lo a liderar os cubanos rumo à Rússia 2018.




