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O motorista de funerária que se tornou herói na maior zebra das Copas

Uruguai, Brasil, Espanha ou Itália: não havia seleção no mundo que desbancasse o favoritismo da Inglaterra na Copa de 1950. Os “pais do futebol” receberam uma em cada três apostas sobre quem seria o campeão do torneio. Não tinha disputado as três primeiras edições do torneio por se acharem superiores a isso, e possuíam mesmo um retrospecto excelente contra as seleções de fora da Grã-Bretanha. Porém, o abismo para os Three Lions vinham diminuindo desde a década de 1930. O que eles mesmos só perceberam quando o seu castelo desabou: a vitória por 1 a 0 dos Estados Unidos em Belo Horizonte, considerada por muita gente como a maior zebra da história dos Mundiais.

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O resultado levou à loucura os 10 mil presentes nas arquibancadas do Independência, que esperavam o show inglês, mas não deixaram de torcer para os mais fracos. Uma vitória contada pelo único jornalista enviado dos Estados Unidos para cobrir a Copa no Brasil e ignorada pelos jornais britânicos, diante da esperada goleada, que também acabou ofuscada pela primeira derrota no críquete para as Índias Ocidentais. O haitiano Joe Gaetjens se eternizou como o autor do gol naquela façanha. Entretanto, os americanos tiveram outro grande herói: o goleiro Frank Borghi, carregado nos braços pela torcida ao fim do jogo, após fechar a sua meta durante os 90 minutos. Uma lenda que faleceu nesta terça-feira, aos 89 anos, como penúltimo remanescente daquele milagre.

Como muito de sua geração, Borghi precisou ir para o front e ajudar o exército americano na Segunda Guerra Mundial. O jovem de 18 anos viajou à Europa meses depois do ataque em Pearl Harbor, trabalhando como paramédico durante quase três anos do conflito. Chegou a receber cinco condecorações por salvar seus compatriotas no conflito. Voltou ao seu país em 1945, para dar início à carreira no esporte que era sua verdadeira paixão: o beisebol.

Borghi se tornou catcher nas ligas menores do St. Louis Cardinals, as categorias de base do clube da MLB. E, enquanto dava sequência à carreira semiprofissional, ajudava na funerária de sua família, dirigindo o carro fúnebre. O beisebol, contudo, era praticado apenas no verão. Para manter a forma, os praticantes da modalidade costumavam jogar futebol. Foi quando o jovem descobriu sua vocação no esporte. “Eu tinha mãos grandes e estava acostumado a segurar bolas rápidas no diamante. Então, estava pronto para pegar a bola de futebol. Ao longo do tempo, eu nunca desenvolvi habilidade suficiente para chutar uma bola, então me tornei goleiro”, contou ao jornal St. Louis Today, em entrevista de novembro de 2011.

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Borghi se tornou goleiro do St. Louis Simpkins-Ford, equipe amadora do incipiente futebol nos Estados Unidos, conquistando duas vezes a US Open Cup. O clube se tornou base da convocação americana para a Copa do Mundo, cedendo seis jogadores. E o motorista se tornou goleiro titular de um time que teve apenas 10 dias para treinar. Ao seu lado, vários outros amadores, que trabalhavam como carteiros, professores, carregadores, lavadores.

As apostas pagavam 500 vezes a cada dólar apostado nos Estados Unidos contra a Inglaterra. Afinal, o time havia perdido os seus sete jogos anteriores à vinda ao Brasil, sofrendo 45 gols e anotando apenas dois. Antes do duelo contra a Inglaterra, a ideia era evitar um grande prejuízo, sofrendo “apenas” quatro ou cinco gols. Mas, muito por conta de Borghi, os americanos não buscaram uma bola sequer nas redes. Com apenas 12 minutos de jogo, os ingleses já haviam acertado a trave duas vezes. Companheiras fundamentais na atuação mágica do arqueiro, que parou craques como Stanley Mortensen e Tom Finney, em uma série de grandes defesas.

A glória na Copa do Mundo não garantiu uma grande carreira a Borghi no futebol, seguindo à frente da funerária da família após voltar do Brasil. Entretanto, a façanha lhe fez um dos nomes mais respeitados do futebol nos Estados Unidos. Eternizado no Hall da Fama do país em 1976, o goleiro também foi interpretado por Gerard Butler (antes de encenar o Leônidas, em 300) no filme Duelo de Campeões, que conta a história do milagre do Independência. Apenas uma maneira a mais de recontar a história repetida milhares e milhares de vezes.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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