Copa do MundoEstados UnidosMLS

Medidas de Trump também deixam interrogações ao futebol, inclusive à Copa de 2026

A política americana vive dias movimentados. Donald Trump precisou de pouco tempo na Casa Branca para ratificar as suas primeiras medidas em relação ao controle da migração. Neste final de semana, a principal notícia se concentrou sobre a suspensão na concessão de vistos a cidadãos de sete nacionalidades distintas – o que, segundo o próprio presidente, será retomado em 90 dias, “após a revisão e a implementação de políticas mais seguras”. E, em um momento no qual as dúvidas são bem mais numerosas do que as certezas, surgem as primeiras interrogações sobre o impacto disso no esporte – e no futebol, dentro desse processo.

Neste domingo, o New York Times publicou uma reportagem sobre algumas das indagações envolvendo as decisões de Trump. A permissão de entrada no país, logicamente, é um entrave, especialmente quando ainda não está clara a situação de quem possui dupla nacionalidade. No caso da Major League Soccer, dois jogadores se encaixam neste exemplo: Steve Beitashour, do Toronto FC, e Justin Meram, do Columbus Crew. Ambos nasceram no território americano, mas possuem cidadania iraniana e iraquiana, respectivamente. Diante da situação, representantes da liga já começaram a estudar a nova legislação para resolver o impasse criado.

Além disso, os efeitos da política migracional extrapolam a concessão de vistos em si, afetando também a diplomacia. E, neste sentido, já se começa a repensar a candidatura dos EUA para a Copa do Mundo de 2026. A federação americana vinha esboçando uma proposta em conjunto com o México, dividindo as partidas do Mundial entre os dois países. Depois da eleição de Trump, o presidente da entidade reiterou os seus planos. “Isso não vai nos dissuadir ou persuadir para a proposta. Mas as percepções internacionais sobre a presidência importam, é claro. Eu acho que isso se desenvolverá nos próximos meses”, apontou Sunil Gulati.

Um dos jornalistas esportivos mais influentes nos Estados Unidos e ex-candidato à presidência da Fifa, Grant Wahl manteve o tom ao analisar o assunto na última sexta. De qualquer maneira, não deixou de admitir que existem barreiras a mais. “Não há como saber com certeza neste momento. Trump definitivamente não torna a Copa do Mundo mais provável e, enquanto eu diria ‘um pouco menos provável’, eu sigo achando que os EUA são favoritos. Muito pode mudar na política até 2020, quando a sede será escolhida. Mas, depois dos fracassos americanos nas candidaturas para as Olimpíadas de 2016 e para a Copa de 2022, ambas apoiadas por Obama, não acho mais que o presidente dos Estados Unidos importam tanto nessas decisões”, opinou, em entrevista à Sports Illustrated.

De qualquer forma, Wahl já prevê os primeiros desdobramentos no assunto, especialmente em relação à diplomacia com o México e aos vistos: “Eu acho que agora, com Trump no cargo, os Estados Unidos estão menos propensos a propor uma Copa do Mundo co-sediada com o México. E estou curioso para ver se a Fifa muda as exigências aos governos do país-sede para a realização da Copa do Mundo. Se vocês ainda não sabem, será mais difícil conseguir vistos para visitar os EUA se você vier de determinados países”. Dentre os sete países que tiveram os vistos suspensos, o Irã se classificou a três dos últimos cinco mundiais e é forte candidato a retornar ao torneio em 2018.

Já dentro da própria organização do futebol nos Estados Unidos, o debate migracional aborda outras frentes. O papel dos estrangeiros na profissionalização da modalidade no país é indiscutível. E, ao longo dos anos, a Major League Soccer se tornou mesmo um exemplo do globalismo atrelado ao esporte. Na última temporada, a liga contou com atletas de 61 países diferentes. Além disso, nas categorias de base, há um programa que protege filhos de imigrantes ilegais, oferecendo vistos de trabalho e proteção temporária à deportação.

“A insularidade dos esportes americanos foi rompida. E nenhuma outra modalidade é mais aberta aos estrangeiros do que o futebol. Por não ser uma potência no futebol, os Estados Unidos são ainda mais dependentes do discurso global. Os EUA realmente dependem da boa vontade do planeta no futebol”, declara, ao Washington Post, Andrei Markovits. Professor da Universidade de Michigan, ele se debruça sobre as relações do futebol nos Estados Unidos com a cultura e a política.

Enquanto isso, diversos personagens importantes do futebol nos EUA se manifestaram logo depois da medida de Trump. O capitão da seleção americana, Michael Bradley, afirmou se sentir “triste e envergonhado” com o presidente. “Enquanto eu entendo a necessidade de segurança, os valores e ideias do nosso país nunca devem ser sacrificados”, afirmou. “E o banimento é apenas o último exemplo de alguém que não poderia estar mais fora de sintonia com o nosso país e com a maneira certa de seguir em frente”.

Já uma repercussão menos contundente, mas ainda mais significativa, veio do atacante Kei Kamara. “Eu era um refugiado islâmico em 2000 e hoje sou um cidadão islâmico. Isso é Estados UNIDOS da América”, postou, em suas redes sociais. Nascido em Serra Leoa, o jogador do New England Revolution chegou aos EUA quando tinha 14 anos, junto com sua família, em um programa para refugiados. Opiniões para escassas respostas, que, no fim das contas, só devem ser obtidas na prática, ao longo dos próximos quatro anos.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo