Estados Unidos

Lebron James respondeu com inteligência à crítica de Ibrahimovic por sua atuação política

Zlatan Ibrahimovic é um cara que gosta de dar muitas entrevistas e veste um personagem que costuma brincar e exagerar, o que por vezes o torna divertido para alguns, insuportável para outros. Só que desta vez ele mexeu com Lebron James e não foi para brincar. O sueco criticou o jogador de basquete por falar sobre política. James respondeu de forma inteligente e com classe para dizer que não vai se calar.

Os comentários de Ibrahimovic foram feitos em entrevista à Discovery+, do seu país natal, Suécia, na quinta-feira. “[Lebron] é fenomenal no que ele está fazendo, mas eu não gosto quando as pessoas têm alguma forma de status e elas vão e fazem política ao mesmo tempo”, afirmou Ibrahimovic. “Faça o que você faz bem. Faça a categoria que você faz. Eu jogo futebol porque eu sou o melhor jogando futebol”.

“Eu não faço política. Se eu fosse um político, eu faria política. Esse é o primeiro erro que as pessoas cometem quando se tornam famosas e ganham um certo status. Fique fora disso. Faça apenas o que você é melhor, porque não parece bom”.

Lebron James foi perguntado sobre isso depois da vitória do Los Angeles Lakers sobre o Portland Trail Blazers, na sexta, e respondeu de forma clara e inteligente. “De jeito nenhum eu vou me limitar aos esportes porque eu conheço esta plataforma e como a minha voz é poderosa”, afirmou um dos maiores jogadores de basquete da história. “Você pode perguntar a Renee Montgomery se eu tivesse me calado e driblado. Ver aquela linda mulher negra hoje, sendo parte de um grupo onde ela é parte do grupo proprietário no Atlanta Dream”.

Renee Montgtomery é ex-jogadora de basquete, negra, e se tornou uma das donas do Atlanta Dream, franquia da WNBA, com ajuda de James. Tudo começa com a ex-senadora Kelly Loeffler, que era um dos donos da equipe e repetidamente contestou os protestos relativos ao movimento Black Lives Matter. Ela concorreu – e perdeu – uma vaga no Senado pela Georgia pelo partido Republicado e diversas jogadoras da WNBA fizeram campanha contra ela.

Com a controvérsia, Lebron James se apresentou e publicou no Twitter que estava disposto a organizar um novo grupo para ser dono do Atlanta Dream. Montgomery, que jogou pelo Atlanta, entrou em contato com o jogador para saber como participar. Com a ajuda de James e da organização “Mais que um voto”, Montgomery conseguiu se encontrar com a comissária Cathy Engelbert, da WNBA, para tratar dos próximos passos.

A situação se tornou tão crítica que muitas jogadoras passaram a recusar transferências para o Atlanta Dream por causa da ex-senadora e seus comentários contra o Black Lives Matter. Loeffler, que já tinha disposição de vender a franquia, passou a ser pressionada para isso. A liga entendeu que a sua presença entre as donas de franquias poderia ser um problema.

A questão aqui é que os comentários negativos de Kelly Loeffler tiveram um impacto negativo na liga e até na carreira política dela, o que ajudou os Democratas a elegerem um senador no estado da Geórgia, onde fica Atlanta. Neste dia 26 de fevereiro, a venda foi concretizada para o grupo que tem Renee Montgomery, motivo de comemoração de Lebron James no Twitter. Sua atuação política teve tudo a ver com o rumo que o esporte tomou ali.

Lebron falou mais sobre a declaração de Ibra. “No fim do dia, eu nunca me calaria sobre as coisas que estão erradas. Eu prego sobre meu povo e prego sobre igualdade, justiça social, racismo, repressão sistemática de eleitores, coisas que acontecem em nossa comunidade, porque eu fiz parte da comunidade em um ponto e vi as coisas que estavam acontecendo”, continuou James.

“Eu sei o que está acontecendo porque eu tenho um grupo de mais de 300 crianças na minha escola que estão passando pela mesma coisa. Eles precisam de uma voz e eu sou a voz deles, e eu irei usar a minha voz para continuar a colocar luz sobre tudo que está acontecendo não apenas na minha comunidade, mas neste país e ao redor do mundo”, afirmou ainda o jogador dos Lakers.

Lebron James ainda lembrou um episódio que Ibrahimovic reclamou do racismo na Suécia contra imigrantes, ou descendentes de imigrantes, como é o caso dele. “É engraçado ele ter dito isso porque eu acredito que em 2018 ele foi o mesmo cara que quando esteve de volta à Suécia estava falando sobre as mesmas coisas”, disse. “Porque o seu sobrenome não era um certo sobrenome, ele sentia que havia um certo racismo acontecendo quando ele estava em campo. Ele disse isso, certo? Eu acho que ele disse. Eu falo com uma mente muito educada. Eu sou o tipo errado de cara para se bater de frente, porque eu faço a minha lição de casa”.

Em janeiro de 2018, quando ainda estava no Manchester United, o atacante reclamou de “racismo velado” na imprensa sueca, acusando de o discriminarem por sua origem bósnio-croata. Ele já foi além disso. Chegou a gravar o hino da Suécia, em 2015, dizendo que ele representava uma nova Suécia, justamente por ter uma origem diferente.

“Sinto orgulho de fazer parte de uma geração onde nossas vozes são ouvidas e as pessoas falam com uma mentalidade educada. Mas o mais importante é que quando você fala com o coração, isso soa ainda mais alto. E nós temos muitos caras falando com o coração que não acreditaram que tinham uma voz em algum momento do passado ou que agora eles estão percebendo isso e vêem que podem ter uma voz, e que sua voz realmente importa. Isso me deixa orgulhoso”, declarou ainda Lebron James.

Esse tipo de comentário para separar a política do esporte é muito comum. Em fevereiro de 2018, Tiago Leifert, ex-Globo Esporte e atualmente à frente do Big Brother Brasil, um dos principais programas de entretenimento da Globo, assinou um texto na revista GQ com o título “Evento esportivo não é lugar de manifestação política”.

Leifert é um craque e apresenta com maestria o BBB e pode falar de questões políticas quando quiser. Aliás, quando ele diz que esporte não é lugar de manifestação política ele, curiosamente, está fazendo política também. Há diversos políticos que usam isso como plataforma para se elegerem, separar política de qualquer coisa – até da própria política.  Questões como racismo, homofobia e xenofobia, por exemplo, são questões políticas e estão inseridas dentro do esporte, porque são problemas sociais. Então, é impossível separá-las.

Lebron James tem sido um exemplo em relação a posturas sociais e outros grandes atletas no mundo têm agido também. Lewis Hamilton usou a sua voz e a sua repercussão para falar sobre racismo e violência policial, liderando o movimento na F1. A tenista Naomi Osaka, negra e japonesa, também fala e age usando o seu espaço e sua visibilidade no esporte para tratar de questões sociais, assim como Serena Williams.

Tudo na vida é político. Como cada um decide se posicionar é uma decisão individual, mas não dá para achar que o esporte é um lugar onde não pode haver qualquer tipo de manifestação política. Até porque falar contra o racismo é um ato político, mas não falar sobre o racismo também o é. Quem escolhe ignorar questões políticas está, por si, tomando uma posição política. Quem separa a vida da política é quem acha que política é só votar nas eleições. Aí, realmente, é um pensamento pequeno demais para ser levado a sério.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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