Conheça o Christos FC, o time de amigos da ‘pub-league’ que desafiou as franquias da MLS
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Quando se fala sobre as competições mais democráticas e antigas do mundo, a Lamar Hunt US Open Cup dificilmente é lembrada. A principal copa dos Estados Unidos, no entanto, carrega consigo uma tradição centenária, representando os primórdios do esporte no país, muito antes da profissionalização. E continua integrando diferentes ligas, inclusive as amadoras. Não à toa, a atual edição revelou um enorme conto de fadas, encerrado nesta terça, pelos 16-avos de final. O Christos FC é clube fundado e patrocinado por uma adega, acostumado a disputar as chamadas ‘pub leagues’ – denominação peculiar aos campeonatos amadores, considerando que parte dos times têm ligações com bares. Apesar das origens, a equipe de Baltimore trata o futebol de maneira séria, como uma irmandade. Assim, caiu bravamente diante do DC United, derrotada por 4 a 1, após sair em vantagem e segurar o empate até os 36 do segundo tempo.
A história do Christos é parecida com a de tantos clubes de bairro. Surgiu no seio de uma comunidade de imigrantes gregos, em 1997. A base era a Christos Discount Liquors, loja de bebidas de Nick Christopoulos, até hoje principal patrocinadora do time e onde está localizado o seu ‘hall da fama’. O mais importante à equipe, entretanto, era reunir amigos para jogar futebol e também realizar ações solidárias no subúrbio de Baltimore. No próprio escudo da agremiação, há uma palavra que resume bem o sentimento: “brothers”.
Ao contrário de muitos dos times das ‘pub leagues’, o Christos não entrava em campo apenas pela diversão ou pela galhofa. Há um espírito competitivo ao redor do clube. Por isso mesmo, além do elenco principal, existem times infantis, através dos quais os membros ajudam a desenvolver o esporte entre meninos e meninas de 7 a 12 anos de idade. De qualquer maneira, o grande expoente está na equipe amadora que disputa os campeonatos pelo país. E os resultados recentes vinham sendo excelentes. Até pegar o DC United, o Christos FC chegou a perder um jogo entre 90 disputados. Em 2016, faturaram a USASA National Amateur Cup e Werner Fricker National Open Cup, que garantiram a vaga na Lamar Hunt US Open Cup de 2017.
O diferencial do Christos, aliás, está na fraternidade entre seus jogadores. Por serem atletas amadores, com outras profissões, o grupo amplo conta com cerca de 40 membros. Quem pode acaba jogando no final de semana, conforme a disponibilidade. Além disso, não existem treinos regulares, o que torna a campanha até os 16-avos de final da Open Cup ainda mais louvável. Para encarar o DC United, a equipe de Baltimore passou por outras três fases, todas contra adversários profissionais – embora integrem ligas menores dos EUA. Eliminaram Fredericksburg (NPSL), Chicago FC United (PDL) e Richmond Kickers (USL) para ter o gosto de desafiar uma franquia da MLS.
Vale dizer que, apesar do caráter amador do Christos, alguns jogadores chegaram a beirar o profissionalismo. O destaque do elenco é o atacante Pete Caringi III, que passou pelo sistema universitário e chegou a ser draftado pelo Montreal Impact, mas nunca assinou contrato com os canadenses. Depois, defenderia ainda times da USL, até voltar para Baltimore e seguir sua vida na cidade-natal. Hoje, Caringi é assistente técnico na University of Maryland Baltimore County (UMBC), onde estudou. Na vizinhança, reencontrou vários amigos que fizeram o mesmo caminho. Atuaram juntos no Christos, buscaram outros rumos e depois voltaram para Baltimore. A sinergia que muitos apontam como essencial ao sucesso dos amadores na Open Cup.
“Eu cresci jogando com muitos desses caras desde que éramos crianças. Alguns de nós jogamos há mais de 15 anos. Nós nos conhecemos muito bem. Nossos melhores amigos estão neste time”, declarou Caringi, em entrevista à federação americana, em maio. Noção complementada por seu companheiro Daniel Baxter: “Alguns rapazes trabalham de noite, outros de dia. Alguns aos finais de semana. Mas existe uma química entre nós, algo que não se consegue do dia para noite. Independentemente de quem formos enfrentar, lutaremos. Iremos surpreender os torcedores pela maneira como jogamos. Você não pode comprar esse tipo de química que temos. Acreditamos uns nos outros e vamos em frente. Nem todos os times podem dizer que fazem isso”.
Nesta semana, os jogadores do Christos puderam viver dias especiais. E fizeram bonito contra o DC United, por mais que o clube da capital seja o lanterna da Conferência Leste. Diante de profissionais, cumpriram as próprias palavras de se entregar ao máximo, em um placar um tanto quanto mentiroso, com a vantagem ampla construída apenas nos acréscimos. No fim das contas, o preparo físico de quem treina diariamente pesou. Mas nada que diminua a trajetória dos amadores. A imagem que fica vai além do jogo: uma massa de torcedores vestindo verde, sobretudo crianças, apoiando e festejando sua equipe. O sinal maior da irmandade que se construiu ao redor da adega de Nick Christopoulos.