A paixão pelo futebol tratou de reunir o time amador que o Furacão Katrina destruiu
Em um lugar estranho ao futebol, sem tradição, sequer um time na principal liga dos Estados Unidos, a paixão pela bola rolando e pela cerveja escorrendo pelas gargantas aproximaram uma Torre de Babel formada por ingleses, holandeses, franceses, irlandeses, norte-irlandeses, sul-africanos, escoceses e até americanos. O pub Finn McCool’s, em Nova Orleans, era onde todos batiam cartão para assistir ao Campeonato Inglês com um copo na mão. A amizade cresceu tanto que aqueles metros quadrados ficaram pequenos e eles decidiram montar um time para disputar a liga amadora da região. Os treinos corriam bem, e a estreia oficial estava a dez dias de distância, quando o Furacão Katrina destruiu casas, prédios, famílias, vidas e o Finn McCool’s Football Club.
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Uma das maiores tragédias naturais dos Estados Unidos levou milhares de pessoas a ficarem desabrigadas. O Estádio do New Orleans Saints, de futebol americano, por exemplo, serviu para receber muitas delas. Algumas refugiaram-se em casas de amigos e familiares em outros estados. 1,8 mil pessoas morreram. Mas pouco a pouco, um a um, os jogadores foram retornando para Nova Orleans e retomaram suas vidas. Em 29 de agosto, dez anos depois de um dos dias mais devastadores do Katrina, haverá uma partida especial entre a primeira geração do Finn McCools e o time atual.
Em uma época sem Whatsapp, Facebook, Instagram ou metade dos meios de comunicação por internet que temos à disposição atualmente, e no caos do furacão, era difícil saber o destino dos seus conhecidos. Sequer se estavam vivos. A casa do sul-africano Benji Haswell, um dos jogadores da equipe, resistiu à tempestade, e ele conseguiu fazer o seu computador funcionar. Teve uma ideia simples e genial. Mandou um e-mail curto para o elenco inteiro, apenas “vamos continuar”. E continuaram.
“Eu acho que, por sermos imigrantes, lembramos que como construímos uma vida para nós aqui uma vez, poderíamos fazer isso novamente”, afirmou o norte-irlandês Stephen Rea, ao New York Times. Rea, 45 anos, é o único que continua no time desde os primeiros treinamentos e está moralmente autorizado a atuar nas duas equipes do amistoso de 29 de agosto. Ele também escreveu um livro de não-ficção sobre a história do time: “Finn McCool’s Football Club – O Nascimento, Morte e Ressurreição do Time de Futebol de um Pub na Cidade da Morte”.
A primeira providência, a mais urgente de todas, foi reconstruir o pub. O primeiro evento foi realizado em novembro, quando o local ainda não era um bar, apenas um pequeno amontoado de tábuas com um teto. Os donos Stephen e Pauline Patterson tinham um pouco de bebida e de comida, mas pediram para os convidados trazerem mais para ajudar. Os faróis dos carros iluminavam o estabelecimento comercial sem eletricidade, que naquele dia não queria lucrar, apenas mostrar ao bairro Mid-City que continuava respirando. “Quando todos foram embora, havia mais cerveja e comida do que antes do começo da festa”, contou Pauline, em um documentário de seis minutos sobre essa história.
O time precisava voltar aos treinamentos para os pseudo-atletas atingirem uma condição física aceitável. Porque em forma jamais estiveram. “Éramos um bando de imigrantes velhos. Nós fumávamos, nós bebíamos e tentávamos jogar debaixo de 40 graus contra moleques de 18 anos”, afirma Rea ao New York Times. Tentaram fazer o primeiro treino no local onde praticavam antes do furacão, um terreno diante do zoológico da cidade, mas ele havia sido tomado pela Guarda Nacional, carregando fuzis. “Não deu para jogar naquele dia”, diz Benji Haswell. “Mas, um dia, jogamos contra a Guarda Nacional e obviamente que vencemos, afinal, eram um monte de americanos. E eles não atiraram em nós depois do jogo, o que foi um bônus”.
A equipe amadora disputa a South East Lousiana Adult Soccer Association, e 15 meses depois do furacão, subiu à primeira divisão. Um ano depois do acesso, foi campeão, título recentemente renovado pela nova geração de atletas que podem se inspirar nos fundadores do time, que passaram por uma provação terrível e sobreviveram. Sabem que têm sorte de poderem levantar o copo de cerveja novamente, chutar uma bola e mirar os olhos na Premier League, especialmente todos juntos. Os jogadores do Finn McCool’s foram separados pelo Katrina apenas para poderem se encontrar novamente.